Homossexuais no futebol, o último tabu

Enquanto as autoridades debatem o combate ao racismo como uma das grandes prioridades do futebol atual, continua o silêncio sobre o maior tabu que rodeia o mundo do futebol: a homossexualidade.

O preço da confissão

“Durante 25 anos tive medo que os julgamentos e a rejeição me afastassem dos meus sonhos e ambições. Medo que as pessoas amadas se afastassem se soubessem o meu segredo”.

Com essa sinceridade Robbie Rogers despedia-se do mundo do futebol. Aos 25 anos de idade, com uma carreira promissora que incluía passagens pelo Heerenven e Leeds United, o jogador disse basta. Não se sentia capaz de continuar uma carreira profissional depois de assumir publicamente a sua homossexualidade. Não é o único. O internacional norte-americano pertence a um grupo ínfimo de atletas que confessaram a sua orientação sexual. A esmagadora maioria permanece em silêncio, encerrados no seu armário, sabendo que uma palavra a mais pode significar o fim dos seus sonhos. Porque se há um tabu real no futebol atual esse não é o do racismo, o da tolerância religiosa ou o doping. É a homossexualidade.

Vários psicólogos europeus alertaram nos últimos anos para vários problemas com jogadores de perfil mediático associados à sua condição sexual. Segundo a maioria dos seus estudos, sempre repletos de anonimatos pactados, a percentagem de futebolistas homossexuais não é nem maior ou menor que qualquer outra área laboral. No fundo, o futebol, também nisto, é um espelho da sociedade. A única diferença é que poucos são os que conhecem a fundo a realidade. Porque se há um desporto profundamente machista, é o futebol. Dirigentes, técnicos, ex-jogadores, todos parecem querer fazer-se ouvir quando declaram que nunca presenciaram comportamentos homossexuais ao largo das suas carreiras, dando a entender que o mundo do futebol é um bunker limpo de influências externas. Mas não é. O caso de Rogers não é o único mas é o mais mediático. Porque se atreve a romper com o tabu.

O alemão anónimo

Em Novembro de 2012 a revista Fluter publicou uma entrevista com um jogador conhecido da Bundesliga que assumia ser homossexual. Manteve-o anónimo porque, segundo eles, se o seu nome fosse revelado publicamente a sua carreira acabaria no dia seguinte. A própria chancelar alemã, Angela Merkel, e vários internacionais como Manuel Neuer e Mario Gomez declararam publicamente o seu apoio ao jogador anónimo e incentivaram os futebolistas gays alemães a saírem do armário. Mas depois do choque mediático regressou o silêncio e nunca mais ninguém fez perguntas. Há verdades que o público não quer conhecer.

É sabido que entre os adeptos, alguns dos insultos preferidos durante os jogos têm a ver com a condição sexual dos jogadores. Mas os problemas não estão só nas bancadas. Vários jogadores de prestigio, como Antonio Cassano, declararam que se negariam a jogar na mesma equipa que colegas que fossem gays. Na memória de muitos está o suicídio do internacional Justin Fashanu, jogador do Wimbledon que se enforcou em sua casa depois de se ter feito pública a sua condição de homossexual. Os as provocações de Robbie Fowler ao defesa do Chelsea, Graeme Le Saux, durante um jogo da Premier League em 1999. Carlos Alberto Parreira, aquando da sua primeira passagem pela seleção brasileira, foi citado pela imprensa brasileira declarando que expulsaria da seleção qualquer jogador que fosse homossexual.

O exemplo das mulheres

Paradoxalmente, no futebol feminino a homofobia está praticamente desterrada.

A primeira grande jogadora do futebol inglês, Lily Par, era uma lésbica assumida quando a homossexualidade ainda era um crime na Inglaterra dos anos 20. Atualmente há várias jogadores de primeiro nível mundial que são homossexuais assumidas como Megan Rapinoe, Lisa Dahlkvist, Jessica Landstrom ou Hedvig Lindahl.

Uma realidade que deixa ainda mais em evidência a postura conservadora dos dirigentes do futebol masculino, acusados por muitos dos movimentos sociais que apoiam a homossexualidade de serem os primeiros instigadores da cortina de silêncio que rodeia o jogo. Medo a perder contratos milionários, pressão extra dos adeptos, mal estar nos balneários, são as desculpas mais repetidas para justificar que até hoje nenhum futebolista de primeira linha tenha assumido publicamente a sua condição.

Por outro lado, é preciso referir, a atitude dos clubes começa a mudar mas sempre pensando na imagem social dada para fora mais do que no apoio aos seus próprios atletas. Vários clubes e federações decidiram multar e proibir a entrada nas instalações a adeptos que profiram comentários homofóbicos durante os jogos e o Liverpool rompeu um dos grandes tabus do futebol inglês ao associar-se à marcha do orgulho gay no passado ano. Na Suécia, um país onde a maioria das suas internacionais são assumidamente gays, o  Sörskogens IF expulsou aos seus próprios jogadores depois de se terem provado as acusações de um contrário que afirmava que tinha sofrido comentários homófobos durante um jogo. Mas esses gestos são ainda escassos.

A lei da sobrevivência

O futebol não é o único desporto que parece tolerar pouco a imagem de um atleta de elite homossexual mas é talvez o mais conservador.

Depois de marcar, num amigável da seleção francesa contra a Alemanha, o avançado do Arsenal Olivier Giroud beijou o seu colega, Claude Debuchy, diante dos adeptos alemães para surpresa geral. Semanas depois aceitou posar para uma das mais influentes revistas pro-gays de França. No entanto, Giroud é heterossexual. Pertence a um escasso grupo de jogadores, onde se incluiu o sueco Freddy Ljunberg, os ingleses David Beckham e Matt Jarvis ou o alemão Manuel Neuer, que se mostrou publicamente partidário de que os futebolistas homossexuais se assumam socialmente. Dias depois, foi assobiado pelos seus próprios adeptos, em Londres. Em Inglaterra, a situação é bem diferente. Nenhum futebolista convidado pela FA para um anúncio anti-homofóbico quis dar a cara, com medo a sofrer um tratamento similar ao do francês. Dos 5 mil desportistas profissionais do futebol inglês, depois da morte de Fashanu, em 1998, nenhum assumiu publicamente a sua homossexualidade apesar de um dos dirigentes do sindicato de jogadores confessar que conhece, pessoalmente  mais de duas dezenas de futebolistas que o são. O silêncio é de ouro neste negócio e como o futebolista anónimo alemão que deu a polemica entrevista no passado ano, “para ser futebolista tive de abdicar da minha vida privada, romper a minha relação de alguns anos e fingir ser quem não sou até deixar de jogar. Só a partir de aí poderei voltar a sentir-me normal”.

A atitude de Rogers, o internacional norte-americano que preferiu acabar a carreira a continuar a jogar depois de assumir a sua condição é um exemplo triste mas revelador. A homossexualidade não é incompatível com jogar futebol mas parece ser ainda para pertencer ao mundo do futebol, duas realidades bastante distintas mas que, debaixo do último tabu, continuam a confundir-se.

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