Home Championship, o primeiro Campeonato do Mundo

Na era em que os britânicos dominavam o jogo, o Home Nations Championship era o seu Campeonato do Mundo. Durante um século as nações britânicas degladiaram-se por um titulo que foi perdendo relevância mundial mas que se manteve extremamente popular nas ilhas. A tal ponto que para muitos insulares, vencer o Home Nations significava mesmo reinar sobre o resto do Mundo.

A cultura do ADN britânico

Há momentos que marcam etapas da história de tal forma que é impossível dissociar-las. Ver uma Vespa e pensar na Itália dos 60, os bailes can-can parisienses dos anos 20, as praias espanholas cheias de turistas nórdicos na década de 70. E os estádios britânicos cheios a cada jogo do Home Nations durante quase todo o século XX. Se a magia da FA Cup representa o mais original e genuíno pedaço de história do beautiful game em Inglaterra ao nível de clubes, o seu equivalente internacional é, sem dúvida, o British Home Nations. Durante mais de dez décadas foi o barómetro das ilhas, o pulso que os adeptos tomavam para saber em que direção ia o futebol do seu país. As fraquissimas prestações das seleções britânicas nos torneios oficiais da FIFA e UEFA eram compensados com esses torneios nacionais que davam a volta às ilhas e cor à alma cinzenta dos adeptos.

Nem o titulo da Inglaterra no Mundial de 1966, nem as honrosas participações de Gales (em 1958) e Irlanda do Norte (no mesmo Mundial e em 1982) podiam competir com as suas gestas na competição que era, para os responsáveis pela reinvenção e popularização do futebol, a sua festa privada. Aqui, nestes jogos debaixo de holofotes em Glasgow, no tapete sagrado de Wembley ou debaixo de uma chuva miudinha em Cardiff, não havia o trauma e a suspeita eterna dos adeptos face aos estrangeiros. No Home Nations tudo ficava em família.

A mais antiga competição de seleções do Mundo

O British Nations Championship – que a gíria desportiva simplificou em Home Nations Championship ou British Championship com o passar dos anos – foi durante um século a mais popular e antiga prova de seleções do Mundo. Em 1882 tinha-se tornado habitual a disputa regular de jogos oficiais entre as únicas federações que existiam à altura, a inglesa, escocesa, galesa e irlandesa de forma a medir o valor real de cada país dentro do Reino Unido. Eram encontros que moviam multidões e criavam lendas com ferocidade. Muitas vezes as seleções eram compostas exclusivamente por uma ou duas equipas para facilitar aspectos logísticos e desses duelos internacionais inaugurais saíram rivalidades que se perpetuariam para sempre no tempo. Mas ainda que regulares e, sobretudo, populares, os amigáveis conviviam com dificuldade com a desorganização dos calendários desportivos de cada federação e com a aplicação de distintas regras dependendo de onde cada jogo fosse disputado.

Para uns os jogos tinham de ser 11 contra 11, outros defendiam que o guarda-redes podia seguir com a bola nas mãos para lá do meio campo e ainda nem sequer estava estipulado quanto tempo durava, oficialmente, cada jogo. Para criar ordem onde só havia caos, os representantes de cada uma das quatro federações decidiram reunir-se em Junho desse ano em Manchester de forma a criar um programa de leis que uniformizassem definitivamente a prática do futebol. Desse histórica reunião nasceram as “Leis do Jogo”, aprovadas de imediato pelo recém-instituto International Board – ao qual, anos mais tarde, se uniu a própria FIFA. Para celebrar uma nova aurora, foi criado igualmente um torneio anual que transformasse os jogos oficiais disputados até então numa competição regular entre as nações britânicas. Nascia o British Nations Championship.

As regras do jogo

O torneio foi organizado sobre moldes muito simples. Todas as nações jogavam entre si uma vez (alternavam de ano para ano quem jogava em casa de quem para não repetir o calendário), debaixo do mesmo set de regras e a soma dos resultados decidiria o título de campeão. Seria uma prova anual com a maioria dos jogos a serem disputados na Primavera, coincidindo quase sempre com o final da temporada de clubes. Uma forma de garantir também a uniformidade de condições climatéricas que evitava que uns duelos fossem disputados debaixo do frio inverno escocês ou do chuvoso inverno galês e outras no plácido verão irlandês ou inglês. Rapidamente a competição entrou no coração dos adeptos que esperavam os duelos com genuína ansiedade.

Tão reputados eram que tinham o poder psicológico de outorgar o titulo de campeão mundial, mesmo quando, anos mais tarde, a FIFA decidiu instaurar o seu próprio torneio. Até depois da II Guerra Mundial, a ausência das federações britânicas significava, para os seus adeptos, que o Home Nations se mantinha, de facto como o seu Campeonato do Mundo. A sua popularidade era tal que a própria FIFA o reconheceu, outorgando a possibilidade de que a prova servisse de fase de qualificação, durante os anos 50, para o seu Campeonato do Mundo, um processo repetido pela UEFA na década de 60 para o Campeonato da Europa.

Foi o apogeu emocional do torneio. Com os anos setenta chegou a depressão económica, os problemas com o hooliganismo e o conflito na Irlanda do Norte que traçaram o principio do fim da competição. Em 1981, as ameaças de bomba levaram à suspensão da prova, a única vez que sucedeu num século exceptuando pelos onze anos de guerra entre 1914-18 e 1939-44. Os clubes estavam cada vez menos interessados em perdes os seus jogadores, o calendário tinha sido ampliado com as provas europeias e torneios como a Taça da Liga até bem entrado Maio e a falta de meios económicos transformou muitos dos históricos duelos que antes esgotavam entradas em encontros com meia casa. Em 1982, pela primeira vez desde 1958, três seleções britânicas – Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte – conseguiram marcar presença no Mundial, um fenómeno que se repetiria nos dois torneios seguintes. O histórico isolacionismo tinha perdido força com a chegada da televisão, dos jogadores estrangeiros à liga e com o sucesso dos ingleses nas provas da UEFA. Jogar apenas com os seus vizinhos britânicos tinha perdido o seu apelativo.

O último suspiro do torneio centenário

1983-84 foi a última temporada em que se disputou o Home Nations, precisamente um século depois da aventura ter arrancado. Foi um ano mágico para as mais pequenas nações com a Irlanda do Norte a sair vencedora de um duelo directo com o Pais de Gales. Era apenas o terceiro triunfo dos norte-irlandeses (até 1921, com as duas Irlandas unidas, a ilha tinha arrecadado cinco títulos). Muito distante das 54 vezes que os ingleses saíram vencedores com a Escócia a arrecadar o troféu por 41 vezes. Uma dessas vitórias dos “highlanders” sucedeu em 1967, em pleno relvado do Wembley, um ano depois dos ingleses se terem proclamado campeões do Mundo (e do Home Nations, também).

O triunfo inesperado soube de tal forma aos adeptos escoceses que estes não resistiram em invadir o relvado de Wembley levando para casa souvenirs onde se contavam bolas, redes e pedaços de relva. Uma gesta que deu origem ao celebre titulo de Campeão do Mundo Não Oficial. Uma das muitas memorias que ecoam dessas tardes coladas ao televisor ou ao rádio que alimentavam os sonhos dos adolescentes britânicos. O sonho dos que acreditavam que poderiam algum dia ser campeões do Mundo sem terem sequer de cruzar o mar para medir-se ao resto do planeta.

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