Holofotes, a invenção que modernizou o futebol

Debaixo do intenso foco das torres de luz que se erguiam como estátuas cheias de vida o futebol deu o salto definitivo para a sua modernização. A introdução de holofotes nos estádios foi o principio de uma nova era. Permitiu fintar condições atmosféricas adversas, diversificou o calendário competitivo, abriu as portas às televisões e criou novas proveitosas receitas. O nascimento das noites de futebol à luz artificial foi também um triunfo social e o final de um conflito que durou quase meio século.

 Alvalade, o primeiro estádio português com jogos á luz artificial

13 de Junho de 1956.

Três días depois da sua inauguração oficial, o estádio José Alvalade dava brilho à noite de Lisboa. Na semana de celebrações promovida pelo Sporting, o clube deu o pontapé de saída para as noites de futebol em Portugal. O seu novo estádio era o primeiro em Portugal a dispor de focos de iluminação nocturna. Nessa noite quente, às 20h00, os leões mediram-se com um combinado de jogadores da cidade de Budapeste, em digressão para escapar dos conflitos políticos na Hungria. Puskas, Budai, Kocsis, Palotas, Boszik mediram-se a Vasques, João Martins, Juca ou Carlos Martins num jogo que entraria para a história. O primeiro jogo nocturno do futebol português. Uma novidade tecnologia que iria mudar para sempre a história do beautiful game e que chegava, como era habitual, com significativa atraso a Portugal. Depois de meio século de falsos arranques, os jogos à luz de holofotes transformaram-se nos anos cinquenta numa tendência geral em todas as grandes ligas europeias. Mas nem sempre as inovações tecnológicas que permitiram a instalação dos circuitos eléctricos seguiram ao mesmo ritmo da aprovação das autoridades internacionais. Durante trinta anos jogar mais além da luz das estrelas tornou-se num dos mais intensos conflitos da história do jogo. Um momento que ajudou a definir à posteri a passagem do futebol à sua idade moderna.

Uma inovação no Século XIX

O primeiro jogo disputado debaixo de luzes artificiais teve lugar em 1878 nos verdadeiros primórdios do Football Association em Brammall Lane, a casa do Sheffield United, um dos clubes mais influentes da época. À volta do estádio foram erguidas pequenas torres de madeiras que suportavam os holofotes ligados a um circuito interno de geradores com potencia suficiente para iluminar o terreno de jogo em questões de condições atmosféricas adversas.  Mais de 20 mil pessoas assistiam a esses jogos nocturnos. Meses depois a experiência saltou a muralha de Adriano e em Glasgow começaram a ser disputados os primeiros jogos nocturnos. Até ao final do século XX todas as federações das Home Nations – bem como países como a Nova Zelândia, Austrália, Canadá ou Estados Unidos – tinham sancionado a disputa jogos à noite com iluminação artificial. A experiência, no entanto, durou pouco tempo. Pressões da federação inglesa colocaram um travão na inovação. Da mesma forma que, paralelamente, o cinema começava a realizar as primeiras provas com o som e a cor que os estúdios acabariam por banir, décadas antes de ambas novidades se tornarem na norma da indústria cinematográfica, o mesmo sucedeu com os holofotes e a iluminação nocturna. Nos anos trinta o pioneiro Herbert Chapman voltou a defender a sua utilização para aliviar os calendários de jogos com encontros disputados à noite ou debaixo de mau tempo e novamente encontrou-se com os mesmos obstáculos políticos. Chapman logrou que fossem instalados holofotes à volta de Highbury Park e muitas vezes planeou sessões de treinos debaixo de luz artificial. Mas nunca conseguiu transformar o seu sonho em realidade.

Europa, os pioneiros dos holofotes

Fora de Inglaterra as restrições eram bem menores. Graças ao desenvolvimento tecnológico e a construção de novos recintos, preparados para as cada vez mais crescentes multidões de adeptos que estavam a transformar o futebol no verdadeiro jogo do povo, os holofotes nos estádios começaram a ser uma realidade. Em 1924 a primeira experiência em Viena, num duelo entre o First Vienna e o FAZ acabou mal, com os adeptos a terem de segurar tochas na segunda parte quando a instalação sofreu um curto-circuito. Nos anos seguintes a situação normalizou-se e jogos nocturnos eram já uma realidade em Amesterdão, Bucareste ou Budapeste nos anos trinta. Nessa mesma década começaram-se a instalar holofotes nos estádios brasileiros (o clube pioneiro, como em quase tudo, foi o Vasco da Gama) e argentinos. Em 1937 a Copa América tornou-se na primeira competição oficial a contar com jogos disputados à noite.

Em 1950, em vésperas do Mundial, os países europeus reclamaram contra a possibilidade de disputar jogos à noite – estádios como o Maracanã já estavam preparados para essa possibilidade – por falta de prática. A FIFA aceitou e o primeiro jogo nocturno da história dos Mundiais acabou por suceder apenas na década de setenta. Por essa altura o sucesso das noites europeias e dos jogos a meio da semana para as ligas nacionais era já uma realidade absoluta.

A vitória dos clubes ingleses sobre a Federação

Em Inglaterra a luta entre os clubes – que pretendiam obter mais receitas de bilheteiras com jogos entre-semana – e a F.A prolongou-se durante os anos cinquenta.  Em 1951 os clubes triunfaram e o Southampton disputou no The Dell, contra as reservas do Tottenham, o primeiro jogo oficial debaixo de luz artificial. Cinco anos depois foi a vez do Wembley estrear-se com uma vitória categórica dos Pross sobre a seleção espanhola por 4-1. No ano seguinte disputou-se o primeiro duelo oficial num jogo da First Division, um Portsmouth vs Newcastle que acabou com vitória dos locais. Rapidamente os clubes começaram a procurar as melhores formas para adaptar os seus estádios à novidade. A maioria optou por grandes torres posicionadas entre as bancadas. Outros colocaram linhas de iluminação nas cobertas de forma horizontal para dar visibilidade ao terreno de jogo.

Os sucessos dos jogos do Wolverampton Wanderers no Molineux, transmitidos pela BBC, ajudaram ainda mais a popularizar a novidade e uma das condições da UEFA para a participação na edição inaugural da Taça dos Campeões Europeus era, precisamente, que o clube representante de cada país devia ter instalados holofotes nos seus estádios. Por esse motivo foi o Hibernians e não o Glasgow Rangers – campeões em titulo – o primeiro representante escocês. Em Portugal não havia ainda nenhum estádio adequado para a nova era e por isso o Sporting teve de disputar o seu primeiro jogo no Jamor. No ano seguinte, já com o sistema de iluminação ativo no José de Alvalade, o futebol português entrou também, oficiosamente, na idade moderna.

O inicio da idade moderna do futebol

A introdução dos holofotes abriu uma nova era na história do futebol.

A paisagem desportiva mudou por completo. Os jogadores tiveram de se habituar aos rigores físicos da noite, a jogar com os focos de luz mas também a suportar alguns cortes de correntes que chegaram a ser responsáveis por adiamentos de vários encontros. A inovação implicou também uma alteração estética significativa. O material desportivo passou a ter de se adaptar a esta nova realidade, a cor das bolas iniciaram a sua metamorfose do couro castanho para o branco e negro de fora a fazerem-se mais visíveis. A melhoria das condições de iluminação obrigou, também, com o tempo, à instalação de novas torres e pontos de iluminação artificial o que, indiretamente, levou à própria renovação de muitos dos mais emblemáticos estádios do futebol mundial. A pouco e pouco as imensas torres foram substituídas por focos de luz integrados diretamente nas estruturas base dos recintos.

Hoje em dia é impensável pensar num grande evento desportivo e não pensar, muito por culpa da pressão das televisões, em jogos disputados debaixo de luz artificial. Os holofotes foram a verdadeira revolução tecnológica de um jogo que passou de ser disputado nas tardes livres do proletariado a transformar-se nas versões populares e modernas das noites na ópera da velha burguesia. A mudança dos velhos costumes chegou de noite e debaixo de uma coroa de luz intensa que apontava para o futuro de um jogo cada vez mais global.

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  • Tiago Cardoso

    «os leões mediram-se com um combinado de jogadores da cidade de Budapeste, em digressão para escapar dos conflitos políticos na Hungria. Puskas, Budai, Kocsis, Palotas, Boszik mediram-se a Vasques, João Martins, Juca ou Carlos Martins num jogo que entraria para a história.» – se faz favor, agradecia saber, se possível, o resultado do jogo. 😉

    • Miguel Lourenço Pereira

      O Sporting perdeu por 0-3 com o combinado húngaro com golos de Puskas (2) e Kocsis!

  • Tiago Cardoso

    Obrigado pela resposta! 🙂