Em 2008 o mundo do futebol parecia preparado para render-se à selecção holandesa. Uma geração que tinha sido preparada para devolver o país aos triunfos, vinte anos depois, tinha acabado de completar mais uma fase de grupos memorável e era o máximo candidato ao título continental. Como sempre, no jogo seguinte, a Holanda foi eliminada. Mais ainda, esse jogo foi o canto de cisne não só de uma geração mas de uma matriz de jogo holandesa. Depois desse momento o país disputou a final de um Mundial e alcançou em 2014 umas meias-finais mas nunca mais se reencontrou com a sua identidade e como consequência não houve geração que tomasse o testemunho da anterior. Hoje o futebol neerlandês vive a triste saga de uma geração sem rumo, perdida, e sem porto de embarque à vista.

Uma ideia de jogo sem herdeiros

Wesley Sneijder, Rafael van der Vaart, Arjen Robben, Robbie van Persie, Dirk Kuyt e até Ruud van Nistelrooy, nomes que evocavam estética, beleza, eficácia, sacrificio e talento puro numa mistura tão sui generis como holandesa. No dealbar do final da geração dos anos noventa, a dos títulos continentais do Ajax e das grandes prestações da Oranje, sempre interrompidas no momento decisivo por um gesto do destino, estes eram os nomes que soavam para seguir o mesmo caminho traçado décadas antes por Rinus Michels e Johan Cruyff. Os holandeses podiam perder, podiam ganhar, mas todos sabiam o que representava a sua matriz de jogo e esses atletas, fossem formados no Ajax, no PSV ou no Feyenoord, com as suas particularidades históricas, entendiam essa identidade colectiva de jogo. Eram uma das melhores gerações internacionais dos 2000 e a carreira individual de cada um deles, com os seus altos e baixos, fala do seu valor como futebolistas e da sua identidade como desportistas holandeses. Hoje são apenas a lembrança de uma era que se perdeu pelo caminho, o seu e os que eram os seus supostos sucessores. Se Sneijder, van der Vaart, Robben ou van Persie sucederam aos Overmars, Bergkamps, Kluivert ou De Boers que, por sua vez tomaram o testemunho dos Gullit, Rijkaard, van Basten, Koemans e Winters num ciclo que se pode recuar até aos anos sessenta, quem realmente seguiu esta icónica tradição no país onde cada centimetro de relva ganho ao mar é um triunfo? A resposta está na própria realidade do futebol holandês moderno…ninguém.

Como o futebol moderno matou o jogo holandês

A grande crise do futebol holandês começou da hierarquia para a base mas foi igualmente reflexo da metamorfose cultural e económica do jogo. O Ajax foi, em 1995, uma equipa que deslumbrou o mundo mas que evocava outros tempos. A Champions League, os seus milhões e a Lei Bosman desmontaram o projecto ao pouco do seu nascimento e salvo por um brilharete do PSV em 2005, nunca mais uma equipa holandesa esteve sequer perto de conseguir uma gracinha na máxima competição de clubes europeu. As equipas de topo na Holanda esvaziaram-se rápido de talento, o ciclo de formação do atleta foi-se reduzindo em anos á medida que os grandes tubarões das principais ligas se iam interessando por promessas cada vez mais jovens. A cadeia de montagem de uma matriz de jogo foi alterada pela mudança dos ritmos de vida do futebol moderno. Em vez de sair de Roterdão, Eindhoven ou Amsterdão já dentro de uma maturidade competitiva, como tinha acontecido sempre no passado, as jovens promessas holandesas deixaram cedo a sua casa para ir beber outras culturas que contrariavam muito o modelo da sua formação. Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália ofereciam outras coisas, é certo, mas afastavam os atletas da sua origem demasiado cedo. Ao mesmo tempo, o ciclo encurtava-se também no aspecto competitivo. As equipas holandesas deixaram de ser equação na Europa e pagaram o preço a nível financeiro. A Eredevise deixou de ser um campeonato atractivo e a qualidade colectiva de jogo das equipas, desde o topo à base, sofreu inevitavelmente com isso. No dealbar do ano 2000 essa alteração ainda não era totalmente visivel mas com o avançar da década fez-se evidente e quem pagou o preço não foi a geração lançada no início do novo milénio, cuja formação tinha ainda surgido nos anos de bonança, mas sim os seus herdeiros que cresceram já com a certeza de que mais cedo que tarde teriam de emigrar e não haveria tempo para empapar-se do jogo tão holandês nos seus clubes de origem. O desfase emocional foi-se agravando e as consequências fizeram-se sentir de imediato.

2006, o ano em que a Holanda vendeu a alma ao diabo

A necessidade de vender dos clubes a jogadores cada vez mais jovens aliou-se à política de converter a formação num processo de vitórias em vez de aprendizagem. Perdeu-se a cultura do treino do jogo de posição a favor de uma abordagem mais pragmática de forma a ter os jogadores cada vez mais cedo na equipa principal para entrarem no ciclo de vida económico que significava a sua venda imediata. Deixou de existir tempo para a falha, para o erro e para a aprendizagem de conceitos de jogo. As equipas principais deixaram de aplicar em campo esse modelo histórico a favor de planos de jogo cada vez mais virados para o resultado e a base começou a treinar exactamente os mesmos principios. De repente, de um momento para o outro, a formação holandesa, a nível transversal, mas com principal incidência nos grandes clubes, atirou borda fora trinta anos de evolução por um punhado de euros mais.

A grande reviravolta chegou em 2006 com a chegada de um conjunto treinado por Marco van Basten ao Mundial da Alemanha. van Basten tinha sido um dos mais elegantes e fantásticos atletas do modelo de jogo holandês e ironicamente acabou por ser ele a dar o toque de mudança de guarda no conceito de jogo. Apesar de contar com uma geração brilhante, a selecção Oranje mudou o seu enfoque do jogo de posse e criatividade a uma abordagem mais física e intensa, reflexo do jogo praticado na década, trocando o eterno 4-3-3 por um mais comum 4-2-3-1. O mitico duelo de Nuremberga contra Portugal deixou claro que os holandeses já não eram uma selecção que apostava na estética, ganhando ou perdendo. Foi um duelo violento, sem prisioneiros, onde se estabeleceu um novo recorde de expulsões e que deixou um amargo sabor de boca que se ia prolongar nos anos seguintes. Salvo por um breve parentesis de quatro jogos no Europeu de 2008 – um triunfo categórico no grupo da morte seguido por uma derrota tão épica como holandesa frente à inesperada Rússia nos quartos-de-final – a Holanda que viajou em 2010 até à África do Sul não era tão diferente daquela que jogara o Mundial anterior. A sua abordagem física, seca e pragmática permitiu o país celebrar uma terceira final do Campeonato do Mundo mas nem o próprio Johan Cruyff foi capaz de esconder a sua repulsa com o estilo de jogo demonstrado contra uma Espanha que, paradoxalmente, tinha feito o caminho inverso e abraçado a escola holandesa, precisamente como consequência da influência de Cruyff. Derrotados, os holandeses insistiram na ideia de abandonar o belo pelo vitorioso e foram dois anos depois escorraçados na fase de grupos do Europeu sem deixar um só vislumbre do seu ADN. Paralelamente os seus clubes sofriam humilhação atrás de humilhação nos palcos europeus com jogadores cada vez menos completos, mais limitados e mais jovens a serem atirados aos leões antes do tempo. Van Gaal, um dos pais da mecanização do jogo holandês, surgiu ao resgate com mais uma versão defensiva do jogo posicional holandês em 2014 e com ela levou uma equipa extremamente limitada em talento até ás meias-finais. Uma vez mais não houve troféu a celebrar a mudança de filosofia e o falhanço do apuramento para o primeiro Europeu de vinte e quatro selecções colocou a nu a ausência não só de uma ideia de jogo holandesa como de interpretes para essa ideia à medida que os van Persie, Sneijder ou Robben iam entrando na sua última etapa da vida desportiva. O processo, iniciado mais de uma década antes, não tinha trazido triunfos nem fortunas. Apenas se limitou a descaracterizar um dos modelos de jogo mais reconhecidos do mundo, sem recompensa visivel.

A incapacidade de formar jogadores de elite

A ausência de resultados, tanto a nível de selecções como de clubes, ficou ainda mais patente com a perda de uma geração de atletas de elite. Desde 2006 até 2016 passou uma década sem que o futebol fosse capaz de encontrar um só jogador de primeiro nível formado no futebol holandês. Se Robben ou Sneijder – e em menor medida van Persie – foram elementos fundamentais das suas equipas e parte do conceito de elite mundial no seu apogeu competitivo, aqueles que estavam a destinados a suceder-lhes fracassaram por completo. Klas Jan Huntelaar, Royston Drenthe, Ryan Babel, Ibrahim Afellay, Kevin Strootman ou Daley Blind numa primeira etapa e Quincy Promes, David Klaasen, van Ginkel, Oussama Aissadi, Zakaria Bakalli, Vincent Janssen e sobretudo Memphis Depay  no presente são hoje reflexos de ideias de um futebolista que já não existe na prática com um potencial promissor na sua juventude que nunca chegou realmente a cumprir-se na elite mundial. Eles são no entanto apenas a cara visível de uma ideia que é também um problema colectivo. Hoje o futebol holandês é incapaz não só de produzir um jogador de elite mundial, nem sequer um atleta de nível médio alto. É igualmente incapaz de gerar futebolistas de nivel em cada uma das posições no terreno de jogo, particularmente naquelas onde o cuidado com o esférico e a leitura de jogo são determinantes.

Não há passadores holandeses de referências, interiores com leitura de jogo nem sequer defesas com boa saída do esférico do mesmo modo que deixou de haver extremos determinantes e avançados com espírito de predador na área contrária. A lentidão do modelo de jogo praticado na Eredevise e a absoluta ausência de trabalho físico é também um dos principais problemas que os jogadores formados localmente encontram quando jogam contra outras selecções, clubes ou simplesmente mudam de liga. Há mais espaço e tempo e menos contacto físico num jogo da liga holandesa do que em qualquer outra liga de topo na Europa. Pura e simplesmente não há exigência e sem exigência constante não pode haver um salto formativo qualitativo. Não é casual que em 2010 a liga holandesa estivesse entre as dez mais importantes do mundo para a IFFHS. Actualmente ocupa a vigésima terceira posição na mesma lista. Nunca nenhuma liga perdeu tantos lugares em tão pouco tempo.

Um reflexo de um abandono de uma ideia na etapa formativa que agora se faz evidente e que, pouco a pouco, vai sendo alterada. No entanto, como em tudo na vida, construir demora sempre muito mais tempo a destruir e por muito que os clubes holandeses e a sua federação tenham começado a entender o erro que cometeram, será talvez necessário esperar ainda um par de gerações para voltar a encontrar, adaptados aos tempos modernos, esse perfil de futebolista e essa matriz de jogo da escola holandesa que todos conhecem. Mesmo o êxito do jovem projecto do Ajax de Amsterdam na sua última reencarnação, uma ideia preparada por um Johan Cruyff que não a pôde ver concretizada em vida, carece ainda de base e solidez, algo que só o tempo é capaz de dar. Tempo que os clubes holandeses não têm, como a necessidade de vender e a incapacidade de atrair jogadores de nivel para a Eredevise, têm deixado latente.

O oásis da geração perdida

No futuro imediato ninguém pode esperar o despontar espontâneo de uma geração holandesa de êxito. Da mesma forma que os jogadores que começaram a ser curtidos na elite a meados dos anos sessenta só atingiram o apogeu na década seguinte, o mesmo passou com a geração campeã europeia em 1988 e a que levou o Ajax a um título histórico em 1995 e a Oranje a disputar entre 1988 e 2000 os seus melhores anos como selecção internacional. E em todo esse período de mais de trinta anos o fio da continuidade manteve-se sempre ligado ao cordão umbilical do jogo. Hoje, depois de uma década perdida, é necessário encontrar formas de ultrapassar o tempo perdido e começar a trabalhar desde a base o que significa que os jogadores que hoje estão a começar a beber de novo esses conceitos têm ainda uma outra década pela frente antes de atingirem a sua maturidade competitiva. Até lá a Holanda que todos conheceram nos últimos anos continuará a ser apenas uma lembrança e a poucos surpreenderá, apesar da sua história, a sua dificuldade para manter-se competitiva na elite continental, superada por países que sim fizeram bem o seu trabalho desde a matriz original de jogo e desde a base como os seus vizinhos belgas são o perfeito exemplo. A ausência de lideres carismáticos e de treinadores de referência – outro problema importante para um país habituado a exportar técnicos de elite por esse mundo fora – não facilita a aceleração do processo de regeneração e resta igualmente saber se os poucos sinais positivos vistos nos últimos anos têm força suficiente para aguentar os primeiros sinais de temporal que possam cruzar-se pelo caminho. A geração perdida do futebol holandês não tem volta atrás e apenas um golpe do destino pode permitir o reunir das condições perfeitas para que a mistura de atletas de distintos periodos da história do futebol neerlandês sejam capazes de gerar uma equipa competitiva. O que essa equipa jamais será, no entanto, é fiel a uma ideia de jogo que muitos deles nem sequer beberam na sua etapa formativa. Para recuperar a sua identidade o futebol holandês tem de desprender-se desses jogadores e olhar para o futuro. O oásis vê-se ao longe mas a caminhada ainda será longa e árdua. É o preço a pagar pelo dia em que a Holanda decidiu deixar de ser a Holanda.

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