É possível admirar para sempre um jogador que só tenhamos visto atuar num par de ocasiões? Sim, se esse jogador tiver defendido 4 penaltis do Barcelona numa final da Taça dos Campeões Europeus transformando para sempre a história do futebol a leste da cortina de ferro.

Quatro defesas para a História

Foi a 7 de Maio de 1986 que Helmuth Duckadam, guarda-redes do Steaua de Bucareste, defendeu quatro penaltis do Barcelona e ajudou assim a equipa de Valentin Ceausescu (filho do ditador Nicolae, da Roménia) a vencer o todo-poderoso conjunto catalão. O jogo, disputado em Sevilha perante 55 mil espanhóis e nem uma sombra romena, cujos adeptos estavam literalmente proibidos de viajar pelo regime, tinha terminado com 0-0 no final dos 90 minutos. Após o prolongamento tudo estava na mesma salvo por la ausência notada de Bernd Schuster, substituído pelo treinador inglês Terry Venables, e que, irracundo, depois de tomar banho apanhou um taxi para sair o mais longe possivel da sombra do Sanchez Pijzuan.

O deus até então desconhecido da baliza do Steaua (onde jogava também um tal de Laszlo Bölöni) já havia feito as defesas impossíveis da praxe frente a Schuster, Archibald e companhia, mas foi no desempate por penaltis que atingiu o estatuto mítico. Ainda me lembro do nome dos quatro jogadores do Barcelona que viram Duckadam negar-lhes o golo: Alexanco, Pedraza, Pichi Alonso e Marcos. O Steaua acabou por ganhar a Taça por 2-0, sendo Lăcătuş e Balint a converter os dois tentos da vitória.

A inexplicável lesão

O mais impressionante de tudo, no entanto, é que pouco tempo depois dessa inesquecível final, Duckadam, com apenas 27 anos, deixou de jogar futebol.

Segundo parece, depois de sofrer uma trombose que deixou parcialmente paralisado o lado direito do seu corpo. Houve na altura especulações acerca do que o regime de Ceausescu lhe teria feito para o impedir de se transferir para uma equipa de um país ocidental. Outros ainda alimentaram a lenda, nunca comprovada, que Helmut recusou dar ao filho de Ceausecu um dos prémios por ter sido campeão europeu, um carro desportivo de alta gama e este, em retaliação, ordenou aos seus seguranças que partissem as mãos do internacional.

A verdade é que Duckadam era uma figura chave mas não a única grande individualidade do futebol romeno da época. O Steaua de Bucareste, já com George Hagi na equipa, dois anos mais tarde alcançaria a meia-final da Taça dos Campeões (eliminado pelo Benfica) e em 1988/89 a final (derrota com o AC Milan).

Às figuras míticas só as lendas fazem justiça. Na verdade (e não há nada como a verdade para nos surpreendermos) Duckadam já estava com dores antes da final de Sevilha. Mas não contou a ninguém, claro, para pelo menos poder fazer esse jogo e entrar para a História do futebol. Tinha uma artéria pulmonar demasiado ampla para o sangue fluir para outros vasos sanguíneos e foi esse afunilamento que lhe provocou a lesão e o impediu de continuar a carreira profissional.

Em 1989 ainda voltou a fazer uns jogos, num clube da segunda divisão romena, o modesto Vagonul Arad, antes de pendurar definitivamente as chuteiras. Mas até isso torna ainda mais gloriosa aquela noite de 7 de Maio de 1986.

833 / Por