Durante mais de meio século o mito do príncipe maldito do Rio esteve adormecido nos livros de história. Foi preciso um filme resgatar a sua lenda para que o grande público soubesse quem foi Heleno de Freitas, o homem que sonhava com ser Pelé antes do tempo…

 O boémio do Rio

O escritor brasileiro Nélson Rodrigues referiu-se ao “Hiroshima brasileiro”, referindo-se à mítica tarde que passou à posteridade como o “Maracanazo”. A surpreendente derrota de um Brasil que já se imaginava campeão do Mundo deixou o país em estado de profundo luto. Mas na Colômbia, um dos mais célebres brasileiros da sua era celebrou como nunca na sua vida. Porque se ele não podia estar no relvado, então o Brasil não merecia ser campeão. Esse homem era Heleno de Freitas.

Um jogador a meio-caminho entre Pelé e Garrincha, consumido pelos seus próprios excessos que o impediram de ser um dos melhores jogadores da historia. Era um excêntrico, numa época em que poucos futebolistas o eram. Não vinha de um passado pobre, proletário. Pelo contrário, era um filho bem estabelecido de uma classe aristocrática do interior carioca, que encontrou no futebol uma forma de viver a vida como queria: ao limite.

Não foi o primeiro. Desde os anos 20 que começaram a surgir, sobretudo na América latina, futebolistas famosos pelas suas conexões com o mundo da cultura, da música e da noite. Também não foi o último, mas talvez tenha sido o mais complexo destes futebolistas malditos. O seu ego foi a sua auto-destruição. Heleno vivia para ser Heleno, para a sua glória pessoal e a paixão pelo jogo era só uma forma de atingir a posteridade. Com o seu clube de sempre, o Botafogo mas, sobretudo, com a seleção do Brasil.

O goleador do Botafogo

Começou a sua carreira com 17 anos, descoberto na praia do Rio de Janeiro como tantas lendas. Por essa altura brilhava já a primeira grande geração de futebolistas brasileiros. Mas a derrota nas meias-finais do Mundial de 1938, a derrota dos Leónidas e Domingos da Guia, apenas fez crescer o pessimismo do adepto brasileiro, um pessimismo que rodeava a ideia de uma seleção maldita. Para Heleno a resposta era muito mais simples. Seria ele quem acabaria com a maldição porque o Brasil não estava destinado a vencer sem ele.

Não se pode dizer que as suas ideias não fossem seguidas por números, dados estatísticos e, sobretudo, gritos da multidão. Apesar do ego, Heleno era, realmente, o melhor futebolista da sua geração. Durante os anos 40 passou de uma promessa habituada à boémia do Rio a uma estrela nacional.

No Botafogo marcou 208 golos em 238 jogos oficiais e era um líder para o público. Mas no balneário era incapaz de entrar no “espírito colectivo” do jogo. Os seus colegas chamavam-lhe Gilda, nome da personagem temperamental de Rita Hayworth no filme do mesmo nome, e atrás de si não vinham só os golos mas também as noites perdidas em hotéis que acabavam em festas no seu quarto com cantoras e actrizes. E claro, a sua adição incontrolável ao álcool e ao éter, que aumentou à medida que uma sífilis que nunca quis tratar – com medo a que prejudicasse a sua performance no campo – o começou a consumir por dentro.

Heleno não acreditava em tácticas, era um profeta do espírito do “malandro”, o protótipo do jogador brasileiro que acreditava ser capaz de driblar e fintar o universo. Em 1945 viajou ao Chile com a seleção brasileira para disputar a Copa América. A Argentina, liderada pela “Maquina” do River Plate ganhou o torneio, mas Heleno ganhou o respeito do mundo. Melhor marcador, com cinco golos, voltou ao Rio mais popular que nunca. E também mais incontrolável. Nem sequer o seu casamento lhe levou a abrandar o ritmo de vida, a faltar aos treinos e, sobretudo, a culpar os colegas pelos títulos perdidos. Quando se anunciou que o Mundial de 1948 seria adiado para 1950, como consequência da II Guerra Mundial, desesperou-se ainda mais ao ver adiada a hora da sua consagração definitiva. O clube fartou-se, definitivamente, da sua atitude e decidiu vendê-lo ao Boca Juniores mas em Buenos Aires a sua experiência saldou-se por um fracasso.

A pistola que não estava carregada

Quando voltou ao Brasil, nenhum clube se arriscou a contratá-lo.

Depois de negociações tensas, assinou pelo Vasco da Gama, com quem ganhou o único titulo da sua carreira, a liga carioca de 1949. Essa equipa mítica, conhecida como o “Expresso da Vitória”, era dirigida por Flávio Costa, que também tinha sido eleito selecionador brasileiro. Tudo parecia encaminhar-se para a concretização do seu sonho. Mas depois de uma forte discussão com o técnico, Heleno tomou uma decisão que significou o seu fim. Uns dizem que a discussão foi sobre os seus atrasos aos treinos, outros pelos relatórios médicos que indicavam que a sífilis estava a piorar e exigia um tratamento sério. O certo é que Heleno saiu do estádio do Vasco depois da discussão e voltou com uma pistola que apontou à cabeça do técnico. Não estava, naturalmente, carregada, mas Flávio, que de um só golpe tinha desarmado o avançado, não teve com meias medidas. Exigiu a dispensa de Heleno e expulsou-o da seleção para sempre.

Sem clube, mais deprimido do que nunca, o canto da sereia da liga rebelde da Colombia levou-o ao Junior Barranquilla. Ironias do destino, ou talvez não, vinte anos depois foi precisamente aí onde se refugiou o seu sucessor no Botafogo, o mítico Mané Garrincha. E foi aí, num hotel da cidade caribenha, que Heleno soube que o Brasil que não o quis tinha perdido com o Uruguai. A sua vingança tinha sido consumada e algo dentro de si lhe dizia ainda que o sonho ainda era possível.

 O homem que comia pedaços de jornal

Mas a vida não lhe deu uma nova oportunidade.

A sifilis tinha começado a deteriorar o seu sistema nervoso. O corpo deixava de responder, os seus ataques eram cada vez mais habituais e no meio da paranoia em que se submeteu, Heleno voltou ao Brasil para assinar pelo modesto América. O sonho durou um jogo. Fisicamente destroçado, foi ingressado pelo irmão num sanatório do interior. Aí viveu os últimos oito anos da sua vida, envolto num estado de profunda depressão e loucura. Pouco antes de morrer, começou a ouvir o nome de um tal Edson Arantes do Nascimento, a quem começavam a chamar Pelé. Quando o Brasil finalmente rompeu a sua maldição e venceu o Mundial de 1958, em Estocolmo, Heleno não celebrou. O nome de Pelé não lhe saía da cabeça. Começou a engolir pedaços de jornais onde a jovem estrela aparecia destacada, e fê-lo até morrer, um ano depois, só com 39 anos.

Do principe maldito do Rio disse um dia o filósofo Eduardo Galeano que era “um cigano, o rosto de Rudolph Valentino e o temperamento de um cão selvagem”. O Mundo esqueceu-se dele, como habitualmente acontece aos que não ganham, até que o cinema, o rosto de Rodrigo Santoro o resgatou. Heleno de Freitas, perdeu a vida antes de morrer. Perdeu-a no terreno de jogo, quando o seu último remate não entrou na baliza, quando o público deixou de gritar o seu nome e quando o Brasil deixou de o tratar como o seu filho predilecto. A morte do corpo veio depois, mas a ele importava-lhe pouco. O futebol era tudo, e o futebol já há muito se tinha ido dos seus pés, para sempre.

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