Heia Bortelaget, a primeira “anti-claque” do Mundo

Durante mais de uma década o Rosenborg dominou de forma totalitária o futebol da Noruega. A hegemonia do conjunto de Trondheim asfixiou a competição nacional de tal forma que gerou, dentro da própria cidade, um movimento de contestação. O grupo Heia Bortelaget nasceu como algo único do Mundo. Eles garantem que todos os jogos há adeptos a torcer contra o Rosenborg nos jogos disputados em casa. A casa que também é sua.

 O reino do Rosenborg

Trondheim é a capital futebolística da Noruega.

Num país que viveu o seu curto apogeu na década de noventa, Oslo conta muito pouco. É na cidade natal do Rosenborg que se celebram, habitualmente, os títulos desde meados dos anos noventa. O clube beneficiou da entrada no circulo vicioso da Champions League para perpetuar a sua hegemonia. Com o apuramento directo praticamente garantido graças ao ranking UEFA do país – que entre 1990 e 2000 participou em dois Mundiais e um Europeu – os vikings de Trondheim acumulavam capital suficiente para reforçarem-se todos os anos com as jovens promessas dos seus rivais ou alguns estrangeiros de nível. Graças a essa política o clube perpetuou-se no poder do futebol nacional, ganhando liga atrás de liga.

Ocasionalmente derrotado pelo rival Molde, a superioridade do Rosenborg tornou-se preocupante até para os próprios adeptos do clube que viam como a qualidade da liga noruega piorava a cada ano que passava. Com o fim das recorrentes expedições norueguesas na Champions League – o fim da época dourada da Noruega coincidiu com o aumento das prés-eliminatórias que foram relegando os nórdicos para as primeiras rondas de apuramento – travou o processo mas o domínio assegurado de mais de uma década ainda era suficiente para manter as distâncias. Trondheim parecia ser uma fortaleza inexpugnável até que alguns dos seus decidiram tomar partido pelos rivais.

 Heia Bortelaget, os resistentes de Trondheim

Em 1992 o fenómeno começava já a preocupar um grupo de estudantes de engenharia da universidade local. O grupo começou a protestar pela forma como o clube e a Tippeligaen eram geridos. Fundaram uma associação que reivindicava outra abordagem à gestão do clube. O grupo começou a reunir-se às portas do Lerkandel, mostrando a sua insatisfação. Rapidamente tiveram outra ideia que começaram a por em prática na temporada seguinte.

O sucesso perenial do Rosenborg desmotivava muitos adeptos rivais a viajarem até Trondheim para apoiar as suas equipas em jogos que davam por perdidos. O grupo de adeptos, agora baptizado como Heia Bortelaget, decidiu informar a cada rival do Rosenborg que eles garantiam o apoio aos visitantes, contra o seu próprio clube.

Quinzenalmente, na bancada destinada aos adeptos visitantes, os membros da Heia Bortelaget surgiam com as suas cores – rosa e negro – e elementos decorativos a nome da equipa rival que aplaudiam com o mesmo fervor que os poucos resistentes que faziam a viagem a Trondheim à espera de um milagre. De forma original e expontânea nascia a primeira “anti-claque” organizada do Mundo. A popularidade do grupo na cidade foi crescendo. Entre adeptos descontentes do Rosenborg e aqueles que nem prestavam particular importância ao futebol, o número de membros da associação aumentou à mesma velocidade que o Rosenborg coleccionava títulos. As suas coreografias e formas de protesto tornavam-se cada vez mais espetaculares a cada ano que passava de tal forma que, passado o espanto inicial, até os próprios adeptos fanáticos do clube começaram a respeita-los.

“Boa sorte na próxima”, a resposta do Rosenborg

Os métodos de apoio da Heia Bortelaget não podiam ser mais origens.

Depois de inovarem em coreografias e dispositivos visuais nas bancadas, o grupo criou troféus para entregar às equipas que saiam vencedoras dos duelos contra o Rosenborg e também um prémio especial para os árbitros que tomavam decisões polemicas a favor dos visitantes com a inscrição “Obrigado por ter tido coragem no Lerkandel”. Em contrapartida, a cada vitória dos locais – o cenário mais do que habitual – os adeptos do Rosenborg oferecem à claque uma série de “tifos” humorísticas que acabam sempre com a mesma mensagem: “Boa sorte na próxima”.

O movimento que começou por congregar duas dezenas de adeptos alcançou já mais de 3000 inscritos oficiais que em muitos casos enchem por completo o espaço preenchido ás claques rivais no estádio. De certa forma, numa cidade que vive exclusivamente do sucesso desportivo do Rosenborg, o Heia Bortelaget transformou-se no segundo clube dos locais, uma forma divertida e critica de olhar para o futebol norueguês como algo mais que uma soma de paixões inegociáveis pelas cores de um eterno campeão.

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