O desastre aéreo de Munique marcou uma geração do futebol britânico. Entre as chamas do avião que levava a casa os Busby Babes, depois de um apuramento histórico para as meias-finais da Taça dos Campeões, ficaram muitas das grandes promessas por cumprir do futebol inglês. Mas entre o desastre emergiu um herói, um homem que foi mais do que um guarda-redes único. Naquele fatídico dia, Harry Gregg provou ser um autêntico número um.

O drama de Munique

É curioso que uma longa e bem sucedida carreira desportiva fique para segundo plano quando se pensa em Harry Gregg. Foi provavelmente um dos melhores guardiões dos anos 50 e 60, um monstro nas redes tanto ao serviço do Manchester United como da seleção da Irlanda do Norte. Hoje poucos se lembram dele debaixo dos postes mas a história da sua ação heróica em Munique garantiu que o seu nome não cairá no esquecimento.

Foi num 6 de Fevereiro às 15h03 no meio de um imenso nevoeiro. Contra as indicações da equipa técnica – que tinha preferido seguir a viagem de autocarro até à Holanda, e aí atravessar o canal da Mancha de barco – o avião capitaneado por James Thain arrancou na gelada pista do aeroporto de Munique.

A pressa tinha um motivo. A Football League tinha lançado um ultimato a Matt Busby. Participar na recém-criada Taça dos Campeões Europeus tinha um preço. O Chelsea, no primeiro ano, tinha aceite a sugestão de Alan Hardaker, o xenófobo presidente da Football League mas o Manchester United estava determinado a reinar tanto em Inglaterra como na Europa. Como forma de desforra, Hardaker marcou vários jogos para menos de quarenta e oito horas depois de um duelo europeu. Não participar significava a perda de pontos, a multa financeira e uma possível suspensão. Se não fosse pelo braço de ferro iniciado em Outubro, talvez o desastre de Munique nunca tivesse acontecido. Mas Busby não tinha opção. O avião tinha de levantar voo custo o que custasse. O drama estava escrito nas estrelas.

Gregg, o anjo inesperado

A equipa tinha chegado de Belgrado, onde acabara de eliminar o Estrela Vermelha qualificando-se para as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus. Era um onze mágico, onde pontificava Duncan Edwards, e que era vista como a grande ameaça ao segundo titulo europeu do Real Madrid. Os jogadores vinham animados mas receosos do mau tempo. Depois de duas tentativas abordadas a equipa saiu do avião e voltou ao hangar. Vários dos jogadores pediram a Busby que cancelasse a partida e retomasse os planos originais, arriscando a suspensão que estava prevista. O manager dos Red Devils fez ouvidos moucos aos nervos da sua equipa. A ordem de arrancar foi dada. A terceira tentativa seria fatal.

O avião levantou do solo por breves instantes. Depois, a catástrofe.

Uma queda estrepitosa e um incêndio imediato consumiu o aparato. Sete jogadores – entre os quais Dennis Violett, capitão inglês, e Tommy Taylor – morreram de imediato com o impacto. Com eles, dois elementos da tripulação, três membros da equipa técnica e oito jornalistas não sobreviveram à queda.

No meio das chamas, Harry Gregg, guardião da equipa, teve a sangue-fria de carregar às costas com os colegas moribundos. Salvou Bobby Charlton, Jackie Branchflower, Dennis Viollet, Duncan Edwards e o técnico Matt Busby, todos gravemente feridos, particularmente das queimaduras produzidas pelo incêndio. Já com os sobreviventes fora do avião Gregg ouviu gritos de uma mulher. Era Vera Lukic, mulher de um diplomata jugoslavo que seguia no avião a caminho de Londres. Arriscando a vida, Gregg entrou no avião e resgatou-a, bem como à pequena filha que a acompanhava. Além da filha, Vera Lukic estava grávida de sete meses. O filho nasceu sem problemas. No total o guarda-redes salvou sete pessoas. Antes de cair, desmaiado, na pista de aterragem rodeado de óleo e sangue.

O herói da Irlanda do Norte no Mundial 58

De todos os colegas que resgatou, só Duncan Edwards não sobreviveu. Morreria poucos dias depois, vitima das graves queimaduras do acidente. Perdia-se o melhor jogador inglês da sua geração. Talvez o da história. Devastado mas resoluto, Matt Busby, que sobreviveu também por milagre, recuperou as forças e montou uma nova equipa ganhadora à volta de Bobby Charlton. E com Harry Gregg claro.

O guarda-redes irlandês tinha começado a sua carreira anos antes, na sua Irlanda natal.

Jogou no Linfield antes de se transferir para o Doncaster, em Inglaterra. Nascido em 1932, chegou em 1957 a Old Trafford. Era o guarda-redes que Busby queria para dar forma à sua equipa. Esteve nove anos em Manchester e ainda hoje é considerado por muitos como um dos melhores guarda-redes da história do clube. Em 1958 venceu a Liga Inglesa pela primeira vez e foi eleito o melhor guarda-redes do Mundial de 1958, diante de Lev Yashin, a mítica “aranha-negra”, e do brasileiro Gilmar. A Irlanda chegou ao torneio de forma inesperada depois de eliminar Portugal e a Itália na fase de qualificação. No torneio poucos davam algo pelos insulares mas as brilhantes exibições de Gregg e do capitão, Danny Blanchflower, permitiram aos norte-irlandeses superar a fase de grupos caindo apenas nos quartos-de-final contra a França de Kopa e Fontaine. Uma derrota dolorosa especialmente porque muitos dos titulares se tinham lesionado num play-off de apuramento na fase de grupos. Alguns nem subiram ao relvado enquanto outros, como Gregg, fizeram-no com limitações evidente. Ainda assim a campanha mundialista ficou na história de um país que não voltou a um Mundial até 1982, repetindo então o brilharete de ganhar á anfitriã Espanha para apurar-se para a segunda-ronda como vencedora de grupo.

No ano seguinte fez de novo parte da equipa campeã. Depois de 1963 uma série de lesões acabaram com a sua carreira. Alex Stepney substitui-o nas redes dos Red Devils e apesar de ter vencido mais duas ligas (1963-64 e 1966-1967), fê-lo apenas como suplente utilizado. No final de 1967 foi transferido para o modesto Stoke City. Nas vésperas do titulo europeu do Manchester Utd, o mesmo que lhe escapou naquela manhã fatídica em Munique.

1.753 / Por