Guy Roux, o treinador que mais anos liderou um mesmo clube Foram 53 os anos de ligação do treinador ao Auxerre, um recorde nas grandes ligas mundiais. Passou para a história como figura chave do futebol francês

Foram 53 anos, uma das mais longevas histórias de amor a um clube que a história do futebol já conheceu. Durante seis décadas Guy Roux e o Auxerre transformaram-se em sinónimos mas com o passar dos anos o mítico treinador acabou por converter-se num ícone cultural ao mesmo tempo que se afirmou como o avô do futebol europeu levando a sua aura de maestro à condição de lenda.

As mil e uma aventuras do treinador mais longevo do futebol

O homem que subornou um policia para ver treinar Pelé e que percorreu milhares de quilómetros num carro a cair as pedaços para ver o Mundial da Argentina e depois os melhores clubes brasileiros treinar foi, ao mesmo tempo, uma das figuras mais reverenciadas do futebol europeu. Para muitos era o avô do futebol francês mas a sua longevidade e o êxito na etapa final como técnico escondeu o facto de ter sido, durante muitos anos, um dos personagens mais sui generis e especiais do beautiful game. Formou-se voluntariamente com um dos maiores treinadores britânicos de sempre, serviu de caseiro a vários jogadores adolescentes e foi ainda parte activa na realização do primeiro filme francês dedicado ao futebol. A sua fama foi tal que, quando em 1993 chegou ao território francês o primeiro simulador de futebol do ponto de vista do treinador, o célebre Championship Manager, foi baptizado como Guy Roux Manager. Algo extraordinário tendo em conta que, até esse momento, o técnico nunca tinha conquistado um troféu nacional.

A vida de Guy Roux deu, efectivamente, para muito e no entanto é só a sua imagem envelhecida no banco de suplentes do Abbé-Deschamps que parece resgatar memórias. No entanto, o técnico alsaciano, como Arsene Wenger, foi muito mais do que isso.

Por ele passaram alguns dos mais promissores jogadores do futebol gaulês e todos reconheceram, mais tarde, o papel fundamental do técnico na sua afirmação como profissionais. Num clube sem ambição mais do que ser um formador o que Roux logrou foi extraordinário. Quando chegou ao clube este militava na terceira divisão – o Championat – e era plenamente amateur. Com Roux ao comando o Auxerre não só se estabeleceu como figura habitual na Ligue 1 como conquistou também títulos, inesperados e maravilhosos títulos, desde quatro Coupes de France até ao surpreendente campeonato nacional de 1995-96. A cereja no topo do bolo mas também apenas um episódio mais na lista de gestas inesperadas logradas por um dos mais influentes gestores humanos da história do futebol europeu.

De jogador amateur a treinador ambicioso

Roux nasceu longe de Auxerre apesar de parecer a dia de hoje que saiu de dentro das pedras duras e rochosas que saem dentro da cidade. Foi em Colmar, uma cidade alsaciana perto da fronteira com a Alemanha que o jovem Roux começou a dar os primeiros passos. Aí sofreu na pele os anos da II Guerra Mundial, conflito que o apanhou com um ano de vida e com o pai como prisioneiro de guerra num campo militar alemão durante quase todo o conflito. A doença grave da mãe e o destacamento do pai na Indochina francesa (Vietname) levou-o a viver os duros anos da reconstrução com tios paternos. Trabalhou em diversos ramos ainda como adolescente ao mesmo tempo que estudava para exercer como mestre escolar. Pela mesma época começou a encarar o futebol como algo mais sério e em 1954 estreia-se com a camisola do Auxerre. A sua família paterna vivia na zona e uma vez que o jovem Roux estudava nas redondezas, a sua relação com o clube ficou rapidamente definida desde tenra idade. Quando no ano seguinte os seus estudos levaram-no ao Limousin, Roux abandonou o Auxerre pelo Limoges, primeiro, e pelo Poitiers, depois, mas em 1960 voltou às origens da forma mais surpreendente possível. Tinha realizado, ainda como jogador do Poitiers, um curso de preparação Arthur Rowe, então técnico do Crystal Palace, e um dos grandes formadores e tácticos da época.

De regresso a França, ao assistir a um amigável entre o Auxerre e o Crewe Alexandra, utilizou o seu fluente inglês para jogar pelos visitantes na segunda parte uma vez que a lesão de um dos jogadores os tinham deixado sem reservas. No final do encontro o presidente do clube, reconhecendo o jovem que antes tinha passado pelo escalão de formação, ofereceu-lhe a possibilidade de voltar. O jovem sabia que o seu futuro não estava sobre o terreno de jogo e sim no banco e a sua resposta foi clara. Aceitaria sim, mas ocupando o cargo de jogador-treinador. A negociação foi dura, chegando inclusive o futuro técnico a ter de apresentar um trabalho de dez páginas à direcção justificando as bases do seu projecto. No final chegou a bom porto e Roux voltou a casa. O AJ Auxerre, clube da capital do Yonne e uma das cidades mais emblemáticas da Borgonha, a 400 kms da sua cidade natal, era um clube modesto mas a sua ligação familiar traçada ainda na adolescência fê-lo ficar toda a vida na instituição ainda que provavelmente não o soubesse. Estávamos em 1961 e Roux tinha apenas 23 anos de idade.

A lenta revolução de Roux

Pouco depois de chegar Roux é forçado a deixar o clube para cumprir brevemente o serviço militar mas ao seu regresso começa a assentar as bases do projecto. Leva-o primeiro à III Divisão e depois em 1979-80 vence o título da Ligue 2 superando todas as expectativas propostas pela direcção. Por essa época já era um dos treinadores mais veteranos nos bancos e além do mais era conhecido pelo seu trabalho formador, não só trabalhando jovens promessas que acabavam por destacar noutros clubes na etapa profissional como também formando-se ele próprio.

O caso mais sintomático foi o do jovem Ferreri, contratado com apenas 14 anos e, na ausência ainda de um centro de estágio como tal, hospede do próprio Roux nos seus primeiros anos na cidade. Em 1970 Roux também já tinha feito das suas ao viajar ao Mundial do México, pagando do seu próprio bolso a viagem e subornando aí o vigilante do centro de estádio da selecção brasileira para assistir a um dos treinos de Mario Zagallo. Repete a jogada oito anos depois, não só vendo vários jogos do Mundial na Argentina como aproveitando para conhecer as infra-estruturas de vários clubes brasileiros na sua viagem de regresso. A viagem, num carro com frequentes problemas mecânicos, exemplificou a sua fome de conhecimento e aprendizagem em qualquer situação. Ao seu regresso a casa ofereceu ao cineasta Jean Jacques Annaud as instalações do clube e a presença dos seus jogadores como figurantes para o celebre filme Coup de Tete, o primeiro grande filme gaulês dedicado ao futebol. Quando o filme estreou o Auxerre ia a caminho pela primeira vez na sua história para a elite do futebol nacional e a disputar a sua primeira final da Coupe de France, perdida em Paris contra o todo-poderoso Nantes. O dinheiro do prémio da presença na final marcou o destino do clube.

Os dirigentes queriam utiliza-lo em contratações mas o hábil Roux convenceu-os a apostar num centro de formação único na zona. Seria a base do sucesso sustentado do clube e assim o foi. Com a promoção no ano seguinte à Ligue 1 e o centro de estágio inaugurado pouco depois o Auxerre e Roux encontraram as condições perfeitas para fazer história, algo que seria recorrente nas duas décadas seguintes.

Ao quarto ano de presença na elite o Auxerre terminou em lugares europeus, eliminado pelo Sporting de Portugal na sua primeira tentativa continental. O clube tornou-se presença regular no topo da tabela durante os anos oitenta e também aplicou o centro de formação para lançar jovens promessas para a elite tais como Basile Boli, Jocelyn Angloma, Laurent Blanc e, sobretudo, Eric Cantona. Com o jovem marselhes Roux consegue estabelecer uma relação profundamente emocional e logra sacar o que de melhor tinha já Cantona como jogador sem deixar que a sua polémica persona o afectasse no terreno de jogo. Graças ao génio gaulês o Auxerre volta à Europa em 1989 e na viragem dos anos noventa dá um novo salto de qualidade ao eliminar o campeão em título da Taça UEFA, o Ajax ,nos quartos-de-final da prova em 1993. Era o prelúdio da idade de ouro.

A idade de ouro, o título do Auxerre

O mundo do futebol reconhece Roux como um dos grandes da história sobretudo pelo logrado nos anos noventa apesar de que, já na altura, o técnico levava três décadas como treinador principal do Auxerre e o seu papel como sumo-sacerdote do futebol gaulês era inequívoco. Presidente do sindicato dos treinadores desde 1971, foi um dos grandes defensores da profissão e da importância de formar melhor os técnicos para que estes pudessem, por sua vez, trabalhar melhor os seus jogadores. O trabalho realizado na formação do Auxerre começou a dar os seus frutos a principio dos anos noventa e atingiu o seu apogeu no final da década seguinte. Entre a geração de Boli, Blanc e Cantona e aquela lançada na viragem do milénio onde se destacavam Philiph Mexés, Djibril Cissé ou Olivier Kapo chegaram os triunfos.

Em 1994 a equipa conquistou a sua primeira Coupe de France, algo absolutamente inimaginável quando Roux aterrou no clube. Dois anos depois o feito foi superado com uma histórica dobradinha, uma nova vitória na Taça seguida da conquista da Ligue 1, até hoje o único titulo conquistado pelo clube. Foi uma das vitórias mais surpreendentes da história do futebol europeu, fruto do trabalho de base de Roux e da mentalidade de clube que criou ao largo dos anos. Capaz de sobreviver à pressão do PSG, Monaco, Bordeaux e Nantes, quatro grandes nacionais – e aproveitando a complicada situação do Marseille nos anos pos-Tapie – o Auxerre soube ser a equipa mais eficaz e regular do ano e o triunfo abriu também as portas à estreia na Champions League. Superada a fase de grupos o clube acabou por cair nos quartos-de-final contra o Borussia Dortmund, que já tinha sido o seu carrasco nas meias-finais da Taça UEFA, três épocas antes, e que acabaria por sair vencedor da edição. Em 2000 chegou o parêntesis.

Roux estava cansado, física e mentalmente. Tinha já 62 anos e dois terços da sua vida tinham passado no banco do clube. Tentou dar o salto a um posto mais cerimonial como director desportivo mas a angustia de ver-se longe do relvado pesou mais e na época seguinte voltou ao activo. Talvez a afirmação de uma nova e excitante geração serviu de estimulo e o certo é que ao voltar o Auxerre alcançou o terceiro lugar da Ligue 1 de 2001-02, a última vez que logrou alcançar o pódio da competição. Foi o apogeu definitivo do trabalho de Roux.

A necessidade de vender as suas jovens pérolas e a entrada de milhões em vários clubes rivais foi minando o excelso trabalho do Auxerre e apesar da equipa se ter mantido na parte alta da tabela nos anos seguintes, em 2005 Roux anunciou o seu abandono definitivo da liderança do clube. A sua despedida não podia ter sido mais simbólica. Em 1979 a derrota na final da Coupe de France mudou a história do Auxerre. Quinze anos depois a vitória na competição abriu caminho à sua idade de ouro. Agora um novo título – o quarto – servia de despedida exemplar do técnico mais longevo da história das grandes ligas continentais.

Monsieur Foot, o avô do futebol francês

Roux tinha perdido em 1998 a possibilidade de suceder a Aimeé Jacquet como seleccionador – a sua tensa relação com a federação desde os seus dias como presidente do sindicato de treinadores não ajudou a sua candidatura – e houve inclusive um breve regresso aos bancos, no banco do RCD Lens, mas que não durou mais do que um mês e meio. Na prática o mundo do futebol tinha-se despedido do grande técnico naquela noite em que o Auxerre bateu o Sedan na final do Stade de France. A viagem tinha sido inesperadamente larga e surpreendemente bem sucedida. Na hora do adeus ao maestro, vitima em 2015, com 77 anos, de um problema cardíaco, poucos se lembravam já do jovem de Colmar que começou a forjar a sua lenda no submundo modesto do futebol francês. Era a lenda de velho sábio que prevalecia na memória colectiva. A lenda de um homem que não precisou de ganhar para converter-se em imortal.

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