A Guerra Santa de Cracóvia, as claques mais violentas da Europa de Leste

Não há mais intensa e violenta rivalidade no futebol do leste da Europa. A Guerra Santa de Cracóvia dura à mais de cem anos. Em cada lado da barricada, os dois grandes emblemas da cidade polaca. Uma luta emocional que muitas vezes se transforma numa verdadeira viagem aos infernos.

Católicos contra Judeus

Poucas rivalidades clubisticas saltam para o mundo da música. Mas quando a banda polaca Andrusy decidiu plasmar a sua devoção clubistica por um dos clubes de Cracóvia, fê-lo através de um tema logicamente baptizado como “Holy War”. Porque é precisamente isso que a cidade tem vivido nos últimos cem anos. Uma guerra emocional intensa entre os adeptos do Wisla e do KS Krakow, os dois míticos clubes do futebol polaco que nasceram e vivem a poucos metros de distância.

Hoje os estádios de ambos clubes estão separados por pouco mais de um quilometro. A distância já foi menor. Desde 1908 que os dois clubes disputam a mais antiga rivalidade do futebol polaco. E da Europa de Leste. Somam mais de cento e oitenta jogos entre si, nas várias competições. Alguns deles fazem parte do ADN emocional do futebol polaco.

Ambos têm títulos e memórias a que acudir em sua defesa. O KSKrakow é o clube mais antigo do país, um orgulho que gostam de relembrar sempre que podem. Os seus vizinhos mais novos, o Wisla, são o mais bem sucedido clube polaco a par do histórico Legia de Varsóvia. Com os anos superaram sucessivamente os seus meios-irmãos no palmarés nacional a ponto de atualmente os dobrarem em títulos. Uns têm o prestigio do passado, outros o sucesso do presente. Ambos vivem unidos pelo mesmo cordão umbilical que desatou por diversas vezes a raiva dos céus sobre a cidade de Cracóvia. Nos anos vinte, o internacional polaco de ascendência judia, Ludwik Ginkel, declarou que a rivalidade entre os dois clubes era o mais parecido que ele conhecia a uma “guerra santa”. O mote ficou. Até hoje. Ginkel sobreviveu ao Holocausto e morreu em Israel, com setenta anos. Atrás de si deixou uma cidade esvaziada da sua herança judaica mas com um clube, o SK, historicamente associado à comunidade hebraica. Uma divisão religiosa e social que se transformou com os anos numa batalha sem quartel.

O Derby mais violento da Europa de Leste

Os confrontos entre adeptos nos jogos entre KS Krakow e Wisla remontam aos anos trinta. Já nessa altura os jornais registavam choques entre seguidores, invasões de campo e distúrbios depois de cada encontro. Com a ascensão do fenómeno hooligan na Europa de Leste, na década de setenta, a violência organizada tomou controlo dos duelos e levou-os a uma escala de conflito superior. As claques organizadas dos clubes – os Ultras Shark do Wisla e os Anti-Wisla – são das mais temidas da Europa.

Quando os restantes grupos organizados do país se juntaram em Poznan para assinar um pacto de não-violência nos estádios, incluindo a proibição do uso de armas brancas em confrontos agendados fora dos campos, os dois clubes de Cracóvia foram os únicos que não apareceram. Jogam uma liga própria onde vale tudo. Vários dirigentes das claques rivais têm sido assassinados ao longo dos anos por membros do clube contrário. Os confrontos durante os derbys de Cracóvia são habituais mas são as batalhas de rua antes e depois dos jogos que têm verdadeiramente transformado a “Guerra Santa” num dos acontecimentos mais traumáticos do futebol polaco. Em 1948, com o país já nas mãos do regime comunista, deu-se a primeira grande batalha organizada de adeptos. Ambos clubes chegaram ao final da temporada empatados em pontos e goal-average e foi organizado um encontro em campo neutro para decidir o campeão. O Wisla – clube apoiado pela polícia – ganhou o título. Os adeptos do FS desforraram-se ganhando a batalha campal que se seguiu e saldou com vários detidos e feridos.

Com os anos setenta chegaram os combates pré-combinados. O FS tinha perdido força e sido despromovido mas ocasionalmente as equipas encontravam-se em jogos da Taça da Polónia. Para os adeptos era pouco. Ambos grupos de seguidores uniram-se, por uma vez, para persuadir as direções dos clubes a criar um torneio amigável anual entre ambas as equipas. Era apenas um pretexto para continuarem com os seus habituais confrontos. A competição, mesmo assim, manteve-se até que o movimento politico Solidarnosk começou a questionar os cimentos do domínio comunista. Foram dias tensos no país, não só nos estaleiros de Gdanks onde Lech Walesa travava a sua luta. A polícia tinha ordens para ser o mais dura possível contra multidões e em 1982, num dos duelos entre as duas equipas, os agentes atacaram indiscriminadamente seguidores dos dois clubes. As claques uniram forças, devolveram a carga e não só expulsaram a polícia do estádio do Wisla como a encurralaram no consulado soviético na cidade. Foi um dos momentos altos da luta contra o regime tutelado por Moscovo no país. Os duelos foram banidos até à queda do Muro de Berlim mas ganharam proporções míticas junto dos adeptos mais novos.

A Guerra Santa no século XXI

Atualmente o Wisla Krakow continua a fazer parte da elite do futebol polaco mas com o passar dos anos a sua rivalidade com o Légia de Varsóvia tem substituído progressivamente os confrontos periódicos com os seus vizinhos. Ainda assim, o renascimento desportivo do KS nos últimos anos permitiu ao clube saltar da terceira divisão de novo para a elite do futebol polaco. E com essa recuperação histórica regressaram também à Ekstraklasa – a Primeira Divisão Polaca – os míticos duelos da Guerra Santa.

Duas vezes ao ano a cidade e o país param para testemunhar à mais intensa rivalidade da Europa de Leste. Numa das cidades mais violentas do continente, passar ao lado desta rivalidade é quase missão impossível. Desde muito cedo os jovens são obrigados a tomar partido, habitualmente por questões famíliares, e a partir de aí a sua vida circula à volta da sua identidade de pertença a um ou outro clube. A proximidade geográfica da casa de ambos clubes, numa das zonas mais pobres da cidade, é apenas mais um pretexto para confrontos diários, não só entre as claques organizadas mas também entre adeptos comuns que utilizam o futebol como pretexto para ajustar contas do quotidiano.

Em 2006, no duelo que celebrou o centenário de confrontos entre as duas equipas, oito adeptos morreram e trinta foram detidos. Houve centenas de feridos. Nada de novo para quem conhece bem as entranhas desta guerra. Neste mundo, o futebol é apenas um pretexto. A batalha nunca acaba quando o sol se põe.

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