Há maus filmes, há péssimos filmes e depois há péssimas ideias. Goal!, a saga patrocinada pela FIFA para conquistar o mercado cinematográfico, não podia ter sido pior. Uma trilogia desenhada para fracassar que consumou o divórcio definitivo entre Hollywood e o beautiful game.

É impossível filmar futebol?

Os erros factuais, as sequências retiradas de uma curta-metragem universitária e o mais improvável argumento que alguém poderia imaginar podiam ser motivos suficientes para fazer de Goal! uma experiência negativa para qualquer espectador. Mas a saga que a FIFA procurou vender como a primeira aposta a sério da indústria cinematográfica à volta do universo do futebol foi mais longe ainda. Demonstrou que era impossível sonhar alguma vez com uma adaptação realista, tecnicamente conseguida e narrativamente atrativa do que significa o universo futebol.

Até 2004 os filmes realizados sobre o mundo do futebol contavam-se pelos dedos das mãos. Normalmente produtos da indústria britânica, eram filmes que partiam da base de uma história de heróis anónimos que encontravam no futebol a sua redenção. Tudo era fictício, tudo era surreal. Como se podia juntar no mesmo espaço os dois mais importantes fenómenos culturais e sociais do século XX?

O problema das licenças era a desculpa preferencial dos produtores. Como fazer um filme sobre um jogo que move tantos direitos, tanto dinheiro e tentar sacar de aí um lucro importante? E claro, depois havia a velha questão de Steven Spielberg. O cineasta norte-americano afirmou um dia que não havia nada mais difícil de filmar que um jogo de futebol, uma coreografia de ballett com vinte e dois bailarinos que se moviam sem sentido lógico no campo, sem coordenação em grupo. Spielberg, um dos máximos gurus da indústria cinematográfica, esquecia-se que outros desportos como o futebol americano, também ele uma orquestra de multidões, tinham tido nos anos noventa o seu apogeu com filmes como Any Given Sunday, The Titans ou Jerry Maguire. Tal como o baseball, o basketball ou os desportos automóveis. Todos eles parte da cultura americana. O oposto do futebol.

Para os que desesperavam por um filme capaz de reproduzir a mesma emotividade de qualquer um desses produtos de Hollywood mas com o futebol como pano de fundo, estava claro que seria preciso contrariar essa tendência. Foi a FIFA quem avançou com a peregrina ideia de uma aventura cinematográfica onde as licenças não fossem um problema, onde o mundo do futebol pudesse contribuir ativamente para mudar esse cenário. O problema? Tudo o resto.

A trilogia dos enganos

Goal é uma aventura repleta de despropósitos do primeiro frame do primeiro filme ao último segundo do derradeiro. Goal! III nem sequer estreou nas salas de cinema, enviado diretamente para o mercado de dvd com o título de candidato a um dos piores filmes de sempre. Um sério candidato ao prémio. Os dois antecessores não eram radicalmente muito diferentes.

A saga produzida pela FIFA procurou uma história capaz de atrair o público americano e inglês ao mesmo tempo. Começou a saga com um imigrante mexicano clandestino que é descoberto em Los Angeles por um olheiro inglês que o leva para Newcastle onde se torna, da noite para o dia, na estrela da equipa. De aí viaja para Madrid onde triunfa como Galáctico antes de acabar às portas do sonho de disputar o Mundial que os ingleses voltarão a perder. Tudo dentro dessa premissa é uma soma de disparates, um ataque direto à alma do jogo. Não há o menor respeito pelas competições, pela congruência real dos acontecimentos, pelas equipas que entraram neste esquema e os seus protagonistas. A tentação de criar uma vida paralela de futebolistas de elite com as suas mulheres, festas, carros desportivos choca com a necessidade fácil do melodrama da emigração clandestina, dos amores impossíveis, das famílias reencontradas e até da morte em campo, um tema tabu no mundo do futebol.

Os números da saga

Goal! foi um fracasso de bilheteira desde o primeiro momento. The Dream Begins, a história que relata a primeira aventura de Santiago Munez custou 10 milhões de dólares e rendeu apenas quatro milhões na bilheteira, metade do qual foi conseguido no primeiro fim-de-semana, antes de saírem as críticas negativas ao filme.

Os seus sucessores fizeram ainda pior. Goal!! Living the Dream custou sensivelmente os mesmos 10 milhões de dólares mas recolheu 800 mil dólares em quatro meses de exibição. De tal forma que Goal III, que foi rodado de forma paralela ao segundo filme, incluindo imagens exclusivas do Mundial da Alemanha, acabou por ser lançado diretamente para o mercado de dvd.
Pelo meio fica claro que a família FIFA cumpre o seu papel. Goal! é, antes de tudo, um veículo de propaganda extremamente útil para empresas como a Adidas – omnipresente em cada frame – e para os seus principais clubes associados. Não é por casualidade que os clubes elegidos são o Newcastle United e o Real Madrid. Por aí desfilam jogadores reais como Shearer, Beckham, Raul, Zidane, Casillas (todos eles jogadores Adidas) e personagens fictícias inspiradas em figuras reais (como Wenger, van Gaal, Valdano). Os estádios são reais, os adeptos também mas tudo o resto tresanda a marketing de loja de esquina, completamente separado do padrão de exigência que um produto com a marca FIFA deveria exibir. O fracasso era mais do que inevitável, especialmente quando pensamos que entre as imagens reais de jogos aparecem sequências com as personagens fictícias protagonizadas com uma falta de realismo que transforma Shaolin Soccer num filme da escola neo-realista italiana.

Cinema e futebol reconciliados

Goal! fez muito mais do que desiludir os adeptos do futebol que continuavam a pedir um filme à medida da importância do seu desporto. O seu fracasso foi de tal forma esmagador que Hollywood confirmou as suas suspeitas e fechou definitivamente as portas a uma aventura cinematográfica no universo do beautiful game. O filme que ia criar uma escola na indústria acabou por gerar ainda mais suspeitas e criticas entre produtores, críticos e espectadores.

Pouco depois, quando o nome de Goal! ainda ressoava na cabeça de quem se lembrava desta soma de despropósitos, começaram a aparecer nas salas os primeiros grandes filmes devotados ao jogo. Filmes que renegavam do protótipo original do amadorismo e anonimato mas que se recusavam a alimentar a máquina mediática contemporânea. Como com a música, os argumentistas, produtores e realizadores desejosos de levar o cinema ao grande ecrã encontraram nos biopics o propósito ideal para cumprir esse velho sonho. Filmar histórias do passado, com condições de outros tempos mas mantendo a velha aura mitológica do jogo era a alternativa perfeita.

Da mesma forma que a música e tantos outros desportos encontraram nos seus ídolos de outros tempos veículos cinematográficos perfeitos, o mesmo sucedeu com o futebol. O drama dos Busby Babes em United, a adaptação dos 44 dias mais longos da vida de Brian Clough em The Damned United, o sonho da equipa alemã campeã mundial em The Miracle of Bern ou a vida de Heleno de Freitas são apenas o principio. O futebol começa a sentir-se cómodo no meio cinematográfico a partir do momento em que driblou a marcação cerrada dos problemas logísticos que se lhes cortava o caminho do golo. Já a saga que prometia ser um blockbuster, essa, ficará para sempre como o exemplo perfeito de como o marketing barato, a publicidade gratuita e a falta de ideias estão condenados ao fracasso, mesmo quando associados ao maior fenómeno de popularidade da história contemporânea.

5.285 / Por
  • Nuno Passos

    Ótimo artigo 🙂 Já agora, e mantendo-nos na sétima arte, que tal um artigo sobe um tema mais dark – os hooligans? Abraço!

    • Miguel Lourenço Pereira

      Nuno,

      Obrigado pelo feedback.
      Dentro do arquivo tens a possibilidade de consultar um artigo sobre a génesis do fenómeno hooligan, a história do próprio Edward Hooligan. Há ainda reportagens sobre algumas das mais ferozes e polémicas claques do mundo como os Irriducibli. De qualquer das formas, como é normal, o hooliganismo será sempre um mundo a explorar e existe um belo filme que aborda essa temática ;-)!

      um abraço

  • Nuno Passos

    Vou ver as sugestões com calma, sem dúvida. Muitos parabéns pelo projeto e pela escrita, bem cativante e diferente. Força nisso!

  • Miguel Barros

    Olá Miguel, mais um excelente artigo, como sempre. Parabéns. Sobre este em particular devo assinar por baixo tudo o que disseste sobre este filmezeco. Para mim foi um atentado à essência do jogo, e sobre ele mais não digo.

    No entanto, e um pouco no seguimento deste teu texto, no que concerne à tentativa de aguçar o apetite dos norte-americanos pelo soccer, ou pelo menos de uma forma mais vincada como a FIFA e outras máfias ligadas ao futebol querem, devo dizer-te, e tu já o deves conhecer, pois claro, que há um filme capaz de prender a alma dos “yankees” ao belo jogo.

    Um filme que mostra o lado romântico, puro, do futebol. Um filme que em poucas palavras mostra o amor que este jogo é capaz de atrair até si, mesmo para os aparentemente desinteressados norte-americanos.

    “The Game of Their Lives”, assim se chama um dos meus filmes favoritos, senão mesmo o preferido, que aborda o futebol, e neste caso um facto real do soccer dos States: a vitória da amadora seleção norte-americano sobre a poderosa Inglaterra no Mundial de 1950.

    Um filme que retrata sobretudo um facto histórico, é certo, mas que foi capaz de despertar a paixão do soccer em terras onde ele ainda é por vezes olhado como um ser estranho.

    Abraço

    • Miguel Lourenço Pereira

      Miguel,

      Um excelente filme, com esse ritmo que exige uma adaptação sobre algo que envolva o drama das grandes gestas futebolisticas. O problema é que a conexão nos “States” com a época áurea do seu próprio “soccer” é praticamente nula e o filme passou desapercibido a muito boa gente!

      um abraço

  • Just Do It

    Foi um filme interesante mas o grande problema é a congruência dos factos.

    Na época em que o filme se realiza 2005_2006 o Real foi eliminado nos oitavos pelo… Arsenal.