Gibraltar, o rochedo desafiante

Há poucas crises políticas tão complexas de resolver no concerto europeu que o caso de Gibraltar. E no entanto, se a UEFA quiser, a situação pode chegar a um extremo que só o futebol permite. Gibraltar quer ter uma seleção oficialmente reconhecida. Espanha ameaça com boicotar as provas da UEFA. O imbróglio está servido. A decisão final é daqui a dois meses.

A colónia que os espanhóis não reconhecem

Para os espanhóis, Gibraltar é mais do que uma pedra no sapato.

É uma dor de cabeça que nunca passa. Em 1704 foi ocupada pelos exércitos britânicos durante a guerra da sucessão espanhola. E mais de 300 anos depois os britânicos ainda aí estão. O território pertence-lhes, oficialmente, partindo da base do tratado de Utrecht, que definiu as condições da paz europeia à época, mas para os espanhóis isso não importa. Sentem que esse pequeno pedaço de terra, 7 km2, à volta do rochedo que os antigos conheciam como “Colunas de Hércules”, lhes pertence por direito. E desde então têm feito de tudo para o recuperar. Sem êxito.

Gibraltar é, oficialmente, uma colónia do Reino Unido. Tem um governo autonómico e recentemente um referendo confirmou a vontade dos gibraltenhos de manterem-se vinculados à coroa britânica. Não é portanto um país, oficialmente reconhecido como tal, mas isso não os impede de sonhar. E há duas décadas que o sonho passa por tornar-se uma nação reconhecida oficialmente pela FIFA e pela UEFA e poder assim disputar provas internacionais do calendário de futebol. Nos terrenos de jogo e nos gabinetes tem-se travado uma das maiores batalhas diplomáticas da história moderna. E parece que, pela primeira vez, os homens do Rochedo, como é conhecida a região, estão perto de marcar um golo decisivo.

Membro provisório

A 1 de Outubro do passado ano Gibraltar foi aceite pela UEFA como um membro provisional. Isso significa que as seleções jovens da colónia podem participar em provas da confederação mas a seleção principal terá de esperar para ver se a provisionalidade se converte em permanência definitiva. Em Espanha tudo têm feito para evitá-lo. Vários dirigentes políticos e desportivos têm reivindicado a impossibilidade do “Rochedo” ser aceite na UEFA ao não ser um país reconhecido pela ONU. O seu problema real é outro. Se Gibraltar for aceite, é uma vitória para os movimentos nacionalistas da Catalunha e do País Basco que há vários anos pedem o mesmo tratamento à UEFA que Escócia, Irlanda do Norte e o País de Gales têm. Por esse motivo Espanha não reconhece oficialmente o Kosovo (como país e como seleção) e também por isso se tem negado a devolver a Marrocos as cidades de Ceuta e Melilla, reclamadas pelas entidades marroquinas sob as mesmas bases que os espanhóis reclamam Gibraltar para si. As pressões espanholas funcionaram, mas só até certo ponto. A UEFA realizou um sorteio condicionado nas fases de apuramento para os Europeus de sub-17 e sub-19 para evitar que as duas seleções se cruzassem. Mas caso Gibraltar seja aceite definitivamente, tudo passa a ser possível.

E no entanto, se há algo que a cidade-colónia pode presumir de ter, é uma paixão pelo futebol que só uma zona ibérica administrada por ingleses poderia ter. Há mais de 107 clubes registados nos 7 km2 de terra que ocupa o rochedo e uma primeira e segundas divisões perfeitamente organizadas onde competem profissionalmente 32 equipas. Os clubes ingleses regularmente visitam Gibraltar para amigáveis com a seleção local que também tem disputado vários encontros internacionais com outras seleções que a FIFA não reconhece.

Dentro do micro-cosmos do futebol europeu, Gibraltar não estaria só. Selecções como San Marino, Andorra, Ilhas Faroe, Liechtenstein ou Luxemburgo têm um perfil similar e as suas ligas nacionais são, em alguns casos, menos organizadas que o caso gibraltenho. Afinal de contas, a diferença dos 28 mil habitantes da colónia para os 32 mil habitantes de San Marino ou 36 mil do grão-ducado de Liechtenstein não é muita. Em 2011, num amigável contra as ilhas Faroe, a seleção de Gibraltar venceu por 3-0 deixando claro que, num hipotético confronto oficial, não tem razões para sentir-se envergonhada.

Sonhar com ser o 54º membro da UEFA

A aceitação da pré-candidatura de Gibraltar abriu uma guerra surda dentro da própria UEFA. O lobby dos dirigentes espanhóis é extremamente forte mas o apoio que o Reino Unido tem dado à candidatura de Gibraltar tem sido importante.

A decisão final do comité executivo da UEFA terá lugar no próximo mês de Maio, quando se realize em Londres – ironicamente – o próximo congresso da organização. De um lado do ringue está uma das mais antigas federações do mundo (fundada em 1893) e do outro uma potência inquestionável do futebol europeu que quer ajustar contas nos gabinetes o que não é capaz de fazer nas reuniões diplomáticas.

Os habitantes de Gibraltar estarão pendentes do futuro que lhes espera. Sonham poder jogar contra a seleção de Inglaterra mas também contra a campeã do Mundo no seu pequeno mas moderno estádio nacional. Com ser o 54º membro de uma UEFA que começa a ter cada vez menos argumentos para rejeitar a sua candidatura. Um desafio que se transformou num sonho que nunca esteve tão perto de se tornar realidade.

2.641 / Por
  • Rodrigo Teixeira

    Ótimo texto. Tenho apenas uma dúvida, creio que a cidade de Tânger é marroquina e não tem nenhum vínculo com a Espanha a não ser a proximidade geográfica.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Rodrigo,

      Obrigado pela correcção. Efectivamente, Tânger fez parte do império português e espanhol mas pertence ao reino de Marrocos. A segunda cidade em questão é Melilla.

      um abraço