Na África do Sul do virar do século XX a injustiça social contra as minorias étnicas levou um jovem advogado de ascendência hindu a liderar um movimento de resistência passiva. Chamava-se Mohandas Karamchand Gandhi. Um líder espiritual que marcou século XX e que utilizou o futebol como uma das suas principais armas de luta social.

O profeta da resistência pacífica

“Resistam, mas resistam sem violência, passivamente. A nossa hora chegará ”.
A mensagem era simples, era clara mas era de difícil concretização. E no entanto, era tão ousada que durante anos ninguém soube muito bem como contrariá-la. A resistência pacifica de Gandhi libertou um gigantesco país do império britânico. Sem um tiro disparado, sem um golpe militar. As suas longas caminhadas, reuniões e manifestações pacificas fizeram ruir as bases do império britânico. A jóia da coroa, a sua Índia natal, ganhou vida e forma com os seus ensinamentos. Mas a luta do homem a quem chamaram Mahatma mais tarde começou sob os mesmos princípios mas a largos quilómetros de distancia de casa. E com uma bola de futebol como ator principal. Uma bola que se cruzou na vida de Gandhi pela primeira vez quando este embarcou rumo a Inglaterra, rumo a uma educação universitária privilegiada que lhe iria permitir conhecer a fundo as bases desse império, as suas gentes e os seus costumes.

Na fria e chuvosa Inglaterra universitária, Gandhi apaixonou-se pelo cricket, Gandhi apaixonou-se pelo ciclismo. Mas, sobretudo, apaixonou-se pelo futebol, pelo jogo que já não era das elites e que desenvolvia sobre um terreno de jogo o mesmo ideal comunitário e pacifico – ao contrario do rugby – que ele viria a proclamar durante toda a sua vida. Desde essas tardes que o futebol entrou no coração do homem que roubou o coração do mundo. Nunca mais saiu e foi fundamental para a primeira etapa na sua transformação política e social. No nascimento do profeta espiritual da não-violência.

A luta política desde um campo de futebol

Em 1893, com o curso debaixo do braço há poucos meses, cruzou a África do Sul para defender o caso de um cidadão indiano em Pretoria. O comboio partiu desde Durban e a meio caminho, quando o revisor reparou que Gandhi, um indiano, estava instalado na carruagem destinada aos bilhetes de primeira classe, exclusivo da população branca. Fazendo valer a sua autoridade, exigiu que este se passasse para o último vagão, o dos negros, o dos ímpios. Recusou, pacificamente, relembrando a sua cidadania britânica e o seu bilhete comprado e pago. Acabou a noite numa estação fria, perdida no meio do país.

Foi a sua primeira lição sobre a base da desigualdade social do império britânico. Foi também o pontapé de saída para a sua luta. Na década seguinte percorreu o país defendendo as minorias étnicas, promovendo políticas de combate à segregação racial. Nesse luta, nesse contexto, o futebol revelou-se um aliado inseparável. Com uma bola debaixo dos braços, apelou às massas, apaixonadas pelo jogo, que se inspirassem na filosofia do jogo para combater unidas. Ghandi fez mais do que criar analogias futebolísticas. Criou três clubes de futebol em Durban, Pretoria e Joanesburgo, todos com o mesmo nome: Passive Resisters Soccer Club.
Nesses clubes, o importante não era ganhar em campo, era demonstrar que a luta continuava por todos os meios que fossem possíveis. O líder indiano tinha sido um futebolista amador, não demasiado talentoso, e nunca chegou a jogar oficialmente um encontro com os clubes que ajudou a fundar. Mas ajudava na sua gestão, atrás da secretária, e sempre que podia assistia, desde as bancadas, aos jogos. Sofrendo como um adepto qualquer. O futebol, evidentemente, era o pretexto. Os jogos eram usados para distribuir jornais, panfletos e discursos para multidões improvisadas. Mas era também uma paixão que se revelava extremamente útil para o jovem advogado e o seu movimento. O dinheiro ganho com os bilhetes vendidos era quase sempre destinado a pagar as fianças aos manifestantes que acabavam presos por defender o movimento de resistência passiva. O circulo encerrava-se sobre si mesmo.

A herança de Gandhi no futebol sul-africano

O trabalho de Gandhi ligado ao futebol sul-africano não se ficou por ai.

Além de fundar clubes, o indiano ajudou a desenvolver ligas para as comunidades segregadas, a implementar os valores desportivos de fair-play ao mesmo tempo que predicava a defesa da resistência passiva. A base cultural do futebol no país – o desporto das elites Boers permanecia o rugby – nasceu com as suas iniciativas que se prolongaram durante os anos mais duros do Apartheid. A aventura acabou vinte anos depois de ter começado. Em 1914 Ghandi trocou a África do Sul pela sua Índia natal. Seria um dos momentos mais importantes da história do século XX. No imenso gigante asiático o futebol não tinha ainda praticamente expressão, um parente pobre do cricket e a mesma estratégia social utilizada em África estava destinada a fracassar. Os seus clubes rapidamente desapareceram sem o seu mentor ainda que vários movimentos posteriores tenham bebido das suas origens para continuar a luta social. Em 1997, o primeiro campeão da Premier League sul-africana, o Manning Rangers, completava a história de Ghandi no país. Fundado em 1927 por vários dos seus discípulos e antigos nomes ligados aos Passive Resisters Soccer Clubs, o clube tinha sido um baluarte na luta social contra a segregação.

Uma luta que tinha durado largas décadas mas que finalmente prosperava. Na Índia, por sua vez, Ghandi acabou por se afastar definitivamente do mundo do futebol, à medida que a luta pela independência da Índia tomava um rumo distinto. Mas ainda que a sua missão política na sua aterra natal não tenha utilizado o beautiful game da mesma forma que sucedeu em África, a bola nunca saiu do coração do Mahatma. Sempre que podia, Ghandi não resistia a ver um esférico mover-se entre os mais pequenos, sem esboçar um sorriso que habitualmente antecedia uma entrada abrupta em jogo para voltar a sentir o sopro da juventude. Se nem com Gandhi a Índia despertou para a magia do futebol não foi por falta de paixão. A arma política do jovem advogado indiano em terras africanas tinha-se tornado, sem que ele suspeitasse, também parte da sua essência eterna.

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