Gamper, o suíço que fundou três clubes

Na época em que o futebol dava ainda os primeiros passos, um punhado de homens estabeleceu as bases do universo dos clubes que hoje conhecemos. Mas alguns foram mais ativos que outros. No espaço de seis anos, o suíço Hans Kamper fundou três clubes. A história recordou-o pelo mais famoso dos três e mudou-lhe o nome para a posteridade.

Quando Hans Kamper se transformou em Joan Gamper

Todos os Verões, desde 1966, a cidade condal de Barcelona engalana-se para celebrar o seu torneio estival de futebol. Um jogo que, com o passar dos anos, se transformou na apresentação mediática dos blaugrana da cidade aos adeptos. Ao mundo. O torneio pode contar pouco para um palmarés que conta com todos os títulos que se possam imaginar. Mas o Troféu Joan Gamper é a forma mais especial que o FC Barcelona tem de homenagear o seu fundador. O homem a quem a cidade mudou o nome para colocá-lo no panteão das personalidades mais influentes da história do jogo.

Em 1899, nos suspiros finais do século XIX, Joan Gamper colocou um anúncio na revista “Los Deportes” convocando entusiastas do “foot-ball” para disputar um encontro amistoso no sábado seguinte. O grupo de doze homens que se reuniu à sua volta não se limitou a chutar uma bola. Fundaram um clube. Fundaram um projeto que era mais do que um clube. Nos cento e quinze anos seguintes o FC Barcelona transformou-se num dos maiores ícones do desporto mundial. Venceu todas as provas em que participou, coleccionou alguns dos mais emblemáticos jogadores e treinadores da história e em sucessivas encarnações apresentou versões da sua equipa que podiam optar ao título de melhor equipa da história. A decisão de Gamper não podia prever este futuro brilhante.

Quando chegou a Barcelona, nesse mesmo ano, Gamper ainda era Hans Kamper. Um homem de negócios suíço de ascendência judaica que encontrou na calorosa cidade mediterrânica o refúgio perfeito da sua cinzenta terra natal. Na Cidade Condal Kamper tornou-se numa personagem influente dentro do mundo desportivo. Escreveu artigos, organizou torneios e 29 de Novembro de 1899 ajudou a fundar o primeiro clube local de futebol. Numa formação que misturava parte da elite local e parte da comunidade estrangeira, Kamper fez um pouco de tudo. De jogador a secretário, de treinador a presidente, cargo que ocupou em várias ocasiões a partir de 1908. Para as cores do equipamento do clube Kamper – que já era Gamper, a sua própria versão catalã – decidiu-se pelo azul e grena. As cores do FC Basel. A sua primeira aventura como dirigente desportivo.

O homem que revolucionou o futebol suíço

Seis anos antes de chegar a Barcelona, Hans Kamper era um adolescente vigoroso e dinâmico que vivia na fervilhante cidade de Basileia. Com dezassete anos, era um desportista completo que dominava o boxe, o ténis, o ciclismo e o futebol. Foi este último desporto que verdadeiramente capturou o seu coração. A Suíça tinha sido um dos primeiros países da Europa continental a conhecer a exportação britânica. Muitos dos professores dos colégios internos helvéticos, célebres por toda a Europa, eram ingleses. Professores que levavam para as salas de aula os livros e para os pátios do recreio as bolas de futebol que assaltaram o coração da Europa. Foi nesse mundo que Kamper encontrou o seu destino.

Desejoso de dar forma prática à sua paixão, Kamper juntou-se a um grupo de colegas de colégio na ideia de fundar um clube na cidade dedicado à prática do futebol. Os jovens seguiram o protocolo habitual de colocar um anúncio no jornal local e esperaram pela resposta positiva dos seus concidadãos. A 15 de Novembro, três dias depois do anúncio ter sido publicado, o número suficiente de respostas positivas tinham levado à formação do FC Basel. Kamper foi um dos fundadores e o primeiro capitão da equipa. Durante três anos viveu para o seu clube mas a vida levou-o a mudar de cidade, para a vizinha Zurique. Uma vez aí, o jovem Hans não resistiu a procurar na cidade um novo clube onde jogar. Descobriu três mas não ficou satisfeito com a organização de nenhum. Utilizando a sua experiência e a sua popularidade no meio desportivo, persuadiu os fundadores dos modestos FC Excelsior, FC Viktoria e FC Turicum a abandonarem os seus projetos a favor da criação de um só clube para a cidade, o FC Zurich. Três anos depois de ter fundado o principal clube de Basileia, Kamper repetiu a fórmula em Zurique. Ambos clubes escreveriam a letras de ouro o seu nome na história do futebol da Suíça. Ambos podiam traçar a sua origem genealógico a um dos seus primeiros jogadores, capitães e presidente. Mas a sombra do seu meio-irmão catalão acabou por ofuscar os dois projetos pioneiros do seu fundador.

A transformação política do FC Barcelona

Kamper chegou a Barcelona via Lyon depois de completar a sua educação universitária na Suíça.

Tornou-se tão popular na cidade que a comunidade catalã o fez mudar de nome para o mais prosaico Joan Gamper. De certa forma, o suíço tornou-se o símbolo de uma nova Barcelona, uma cidade orgulhosa das suas origens catalãs mas que se mostrava aberta ao mundo. O seu FC Barcelona queria ser o exemplo da integração desta mistura cultural. A fórmula de Mes que un Club, forjada nesses primeiros dias, não foi, como mais tarde se procurou vender pelo movimento nacionalista catalão. Era, pelo contrário, a formula perfeita para enquadrar a fusão de gentes tão distintas que encontrava na cidade o seu porto de abrigo. Durante anos Gamper batalhou por essa filosofia. O seu clube era de todos e para todos os que acreditavam na cidade e nas suas gentes. Não apenas para os autóctones e defensores à ultranza do nacionalismo. Mas o avanço dos movimentos extremistas politicas acabaram com a sua ambição pacifica e neutral. Quando Primo de Rivera subiu ao poder, graças a um golpe de estado, encontrou-se com a férrea resistência dos nacionalistas catalães e bascos.

Vinte e cinco anos depois da sua fundação, o FC Barcelona já era um dos símbolos sociais e culturais mais importantes da cidade. Já era um dos grandes nomes do futebol europeu, superior em prestigio ao seu histórico rival de Madrid e apenas superado pelo Athletic Bilbao dentro de Espanha. Os adeptos do clube, cada vez mais distantes da velha ideia do desportivismo amador tão acarinhada por Gamper, utilizaram os jogos em casa do clube para manifestarem as suas posições políticas. O presidente – que já ia pelo seu quarto mandato, acabando de doar o dinheiro necessário para construir o campo de Les Corts – não teve outro remédio que secundar esse apoio. A resposta do movimento militar de Primo de Rivera foi a sua destituição como presidente do clube a que se seguiu uma ordem de exílio. Era o preço a pagar pelo sonoro coro de assobios dos adeptos ao hino espanhol num amigável com uma equipa inglesa (cujo o hino foi vitoriado) e pelo posicionamento ideológico do clube. Gamper voltou a ser Kamper durante os meses que esteve na Suíça. Não o seria por muito tempo. Indultado, regressou a Barcelona mas já não era o mesmo. Distanciou-se do clube e de todos os que faziam há largos anos parte do seu circulo mais intimo. Não por vontade própria. Era a condição para voltar.

Foram cinco anos de sofrimento que acabaram com um suicídio com um tiro de pistola que mergulhou o futebol mundial em estado de luto. Kamper tinha deixado uma obra que superaria largamente a sua pessoa. Mas para lá do seu filho catalão, é impossível não reconhecer a grandeza mitológica de um homem que fundou três clubes diferentes que ainda subsistem e enchem o coração de milhões de adeptos. O jovem gentleman suíço não podia estar mais orgulhoso de si mesmo!

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