Durante décadas os grandes desportistas foram, ao mesmo tempo, reconhecidos amantes dos prazeres da vida. O tabaco ocupava um lugar especial e foi companheiro de carreira de alguns dos melhores futebolistas da história. Até que chegaram os anos noventa e com eles a demonização do tabagismo e a sua progressiva extinção no mundo da alta-competição.

O dinamarquês que fumava antes de marcar um penalti

14 de Outubro, 1984. Sem olhar para trás, por se a terra se ia desmoronando a cada passada, Preben Elkjaer Larsen continuou a correr. Um pé descalço, sem chuteira, acariciava a bola. O outro, pisando fortemente a relva, seguia-o. Metros mais à frente, sem perseguidores à vista, o esférico adormeceu nas redes da baliza defendida por Tacone e Elkjaer, como se nada ,continuou a correr, desta vez para os seus tiffosi. Nesse instante a ninguém lhe pareceria surpreendente se o bisonte dinamarquês sacasse um cigarro da meia empapada de suor para desfrutar do momento. Afinal de contas era o que sempre fazia no intervalo.

Corria até a lenda de que uma vez, durante uma série de grandes penalidades, o dinamarquês fumou tranquilamente o seu cigarro antes de caminhar até ao ponto pintado a branco e marcar o seu golo. Essa imagem hoje seria condenada como um sacrilégio moral para um desportista mas na década de oitenta era habitual. Desportistas de elite e o tabaco viviam uma relação próxima e apaixonada, ainda que já se começassem a fazer públicos alguns dos graves inconvenientes desse casamento. Preben Elkjaer Larsen e o clube dos futebolistas fumadores demonstravam, semana sim, semana também, nos grandes santuários do futebol que a eles nada parecia afetar.

De Platini a Cristiano Ronaldo, a transformação da imagem do futebolista perfeito

A imagem do desportista de elite perfeito hoje está encarnada por homens como Cristiano Ronaldo. Abdominais perfeitos depois de milhares de sessões caseiras, músculos tonificados, hábitos hiper-saudáveis à mesa, horas de sono acumuladas e um cuidado extremo com as mais pequenas moléstias físicas para evitar problemas no futuro. É a imagem que encaixa perfeitamente com os estereótipos desta idade moderna onde os vícios do passado se converteram nos crimes do presente.  Depois de ter expulsado o cigarro da vida quotidiano, a imagem de desportistas a fumar tornaram-se quase tão exóticas como as pinturas rupestres de Foz Coa. Houve um tempo, não demasiado distante, em que o desportista de elite podia render ao mais alto nível sem que isso significasse abandonar pequenos prazeres como fumar. Eram, seguramente, outros tempos, politicamente mais incorretos aos nossos olhos, menos asfixiados por legislação centralizadora e castradora aos desejos individuais. Hoje criou-se a mitologia de que para dar exemplo aos mais pequenos – pobres crianças dos anos setenta e oitenta – os futebolistas devem rodear-se de vegetais, legumes e bebidas isotónicas.

Nos dias de hoje Preben Elkjaer e vários futebolistas da sua geração que também eram apaixonados do tabaco continuariam seguramente a ser jogadores de elite. Mas também seriam alvos preferenciais da sociedade e das suas batalhas morais. E isso mesmo tendo em conta que nos seus dias de atletas profissionais já se sabe os possíveis efeitos nefastos que o tabaco teria nas suas prestações. Conta a lenda que uma tarde, depois de mais uma vitória da Vecchia Signora no velho Comunale de Turim, o sagaz “Avocatto” Agnelli, o sangue que corria nas veias da Juventus, baixo ao balneário para aplaudir a equipa e encontrou-se com Michel Platini, recém-saído do duche, toalha à cintura, a fumar o seu cigarro calmamente.

Gianni Agnelli, homem de princípios estritos, colocou a mão sobre o ombro de “Platoche” e disse-lhe, com voz preocupada, “Michel, não gosto de ver a fumar, podes magoar os teus pulmões” ao que o gaulês lhe respondeu com o seu habitual ar de serenidade que só se devia preocupar se ele, apontando o dedo a Giuseppe Furino – começasse a fumar. Furino era o homem que corria por Platini em campo, o seu Sancho Pança no relvado. O único no meio-campo bianconerro que tinha de levar uma vida saudável para manter uma espécie de equilíbrio natural. Platini sabia-o e não era o único. Nos anos oitenta a maioria dos jogadores eram ao mesmo tempo génios nos relvados e consumados fumadores fora deles.

Poucos encarnaram esse espírito libertino como Preben Elkjaer. O dinamarquês que chegou tarde ao Olimpo – depois de um passo pelo Lokeren belga – cometeu a proeza de fazer do Hellas Verona campeão de Itália. Uma tarefa hercúlea, mais complexa inclusive da que logrou Maradona – outro que nunca se separava dos seus charutos cubanos, entre outras coisas – com o Napoli. Preben começou a jogar em Copenhague, uma cidade onde os futebolistas viviam tanto os jogos no campo como no bar. Quando Sepp Piontek, o alemão que revolucionou o futebol dinamarquês dando forma à celebre Danish Dynamite, chegou ao cargo de selecionador o primeiro que descobriu foi que em vésperas de jogos internacionais os seus jogadores passavam a noite num pequeno bar do centro a beber cerveja e a fumar.

Fê-los prometer que se queriam manter esse ritual tinham de ganhar ao dia seguinte, caso contrario as saídas ficavam proibidas. E assim foi. Cada vitória era celebrada entre Heinekens e Camels e nada bebia e fumava com tanta voracidade como Larsen. Chegava aos treinos e saía deles, em Verona, sempre com um cigarro na boca. E como passava com a maioria dos jogadores da época nem tentava disfarçar. Dava tudo o que tinha em campo – que era muito – e isso era suficiente para adeptos e dirigentes.

A longa história dos futebolistas fumadores

A conexão entre o futebol e o tabaco era mais antiga ainda do que se podia supor. Os guarda-redes jogava regularmente com um cigarro na boca até bem tarde no século XX e nos primeiros anos dos heróis proletários como Billy Meredith, fumar era caso uma obrigação social. Muitos começaram nos anos vinte a protagonizar anúncios para tabaqueiras como sucedeu com Dixie Dean. Anos mais tarde o genial Stanley Matthews foi pioneiro a dar a cara por uma marca concreta ainda que tenha confessado posteriormente que era raro fumar. Jogou até aos cinquenta. Di Stefano, que com o seu pulmão e meio inventou o futebol moderno, também foi um desses símbolos e a sua devoção pelo tabaco não prejudicou a sua carreira. O slogan publicitário “Di Stefano joga com mais ganas porque fuma Caravanas” foi extremamente popular nos anos cinquenta em Espanha ainda que no dia a dia a sua marca de eleição eram os Lucky Strike. Nem é necessário falar das imagens icónicas de George Best ou Gigi Meroni, rebeldes sem causa dos anos sessenta, ou desse cigarro que passou pela boca dos irmãos Charlton antes de chegar a Jimmy Greaves no intervalo da final do Mundial de 1966 em Wembley.

Fumar no futebol também podia ser sinónimo de rebelião. No Brasil, país amordaçado ao longo de décadas, a imagem de Sócrates e os seus cigarros e charutos eram também a imagem de provocação ao sistema. Com Sócrates o tabaco deixou de ser um vicio para transformar-se num ideal político. Não podia existir “Democracia Corinthiana” sem um copo de cachaça e um cigarro acendido. Sócrates, que era licenciado em Medicina, fumava quase quarenta ao dia. Quando chegou a Itália para jogar na Fiorentina pensou que ia ser o seu primeiro cavalo de batalha com os dirigentes do seu novo clube quando descobriu que o ídolo local, Antognioni, também era um fumador compulsivo. Com o romano Ancelotti, o veronês Larsen, o napolitano Maradona, o genovês Vialli e o juventino Platini, o clube dos ilustres futebolistas fumadores do Calcio parecia estar completo.

Cruyff e a luta anti-tabagista

Se calhar não houve outra grande figura mediática que tivesse feito tanto pela publicidade contra o tabaco no desporto como um dos seus mais fieis defensores na juventude. Johan Cruyff fumava vários maços ao dia. Nos treinos semanas que consistiam em largas corridas pelos parques de Amesterdão, tinha o hábito de sprintar ao inicio para ganhas distancia sobre o pelotão e depois esconder-se atrás de umas árvores para fumar os cigarros que trazia escondidos nos calções, antes de voltar a juntar-se ao grupo. O cheiro do balneário desse mítico Ajax misturava suor e tabaco em doses proporcionais e esse velho hábito voou com o holandês para Barcelona. Anos mais tarde, já como treinador, a Cruyff foi-lhe detectado um problema cardíaco grave. O seu médico disse-lhe, claramente, que tinha de decidir se preferia a vida ou o tabaco.

Cruyff trocou o cigarro pelo “Chupa-Chups” e protagonizou um anuncio televisivo mítico em que dava, literalmente, um pontapé ao tabaco. Foi o principio do fim. O fenómeno não desapareceu totalmente – génios dos anos noventa como Zidane ou Ronaldo eram fumadores constantes ainda que, como Platini, mais tarde arrepiaram caminho – mas os futebolistas fumadores passaram a ser forçados a fazê-lo ás claras. Ocasionalmente algum é apanhado em momentos de ócio e diretamente destroçado na praça pública. Ao menor sinal de baixo rendimento desportivo essa fotografia com o cigarro na boca torna-se na primeira arma de arremesso.

Fumar já não é sinónimo de masculinidade e elegância como foi nos dias de Di Stefano ou Elkjaer e os milhões que entraram em jogo no mundo do futebol despertaram a paranóia dos clubes, agentes e marcas publicitárias. Para o adepto, que vive desesperado a pensar no triunfo de amanhã, qualquer elemento externo que o possa impedir transforma-se num alvo. É praticamente impossível voltar a ver um gigante como Preben Elkjaer Larsen a engolir a relva com um cigarro imaginário na boca. A sua é uma raça mitológica, extinta, um reflexo de dias que estão destinados apenas aos livros de história.

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