Futebolistas falidos, a decadência dos milionários dos relvados

Ganham milhões, são ídolos dos adeptos e um seguro de vida financeiro para os clubes. Mas muitos dos futebolistas acabam falidos. Maus investimentos, fraudes, vidas sem controlo, tudo vale para dilapidar em poucos anos a fortuna assegurada sobre os relvados.

Milionários modernos

Cada vez mais a sequência se torna famíliar para os adeptos.

Um futebolista, talvez uma estrela no seu tempo ou, pelo menos, um jogador que abandonou o futebol com bastantes recursos, aparece numa notícia de jornal. Não é uma reportagem sobre a sua nova glamourosa existência. Quase sempre, conta uma história triste, repleta de problemas e desilusões. E acaba com a elementar consciência de que esse homem que ganhou tanto dinheiro como jogador agora está falido.

Uma história contada vezes sem conta desde que o futebol é futebol. No entanto, há uma grande e significativa diferença entre esses contos sombrios e deprimentes de velhas glórias como Garrincha e os relatos de hoje. Até aos anos noventa, mesmo as grandes estrelas, ganhavam muito, muito pouco dinheiro em comparação com o que hoje facturam os seus sucessores.

Só nos anos sessenta começaram a desaparecer os limites salariais que na prática faziam com que os futebolistas fossem pior pagos que muitos trabalhadores dos serviços e da indústria. Para as gerações anteriores à década de sessenta, o final da carreira de futebolista não era o início de uma vida de glamour mas sim um problema sério que acabava por ser resolvido continuando no meio – como treinador, directivo ou assistente – ou montando um pequeno negócio famíliar, muitas vezes com o apoio do clube. Cada carreira terminava com um jogo de homenagem do qual saía um prémio significativo para o jogador com os ingressos de bilheteira e esse era o único dinheiro que o futebolista levava consigo para a reforma.

A década de noventa trouxe consigo os milhões pagos pelos patrocinadores e pelas televisões para o mundo do futebol. É a década da Champions League, a década da Lei Bosman e o seu descontrolo salarial. A partir desse momento já não era necessário a um jogador ser uma estrela para amealhar uma pequena fortuna. Como diria um velho dirigente do Real Madrid ao ver sair do centro de estágio do clube o lateral-direito Christian Pannuci ao volante de um Ferrari novo, “Quando os defesas começam a andar de carros desportivos descapotáveis sabemos que perdemos o controlo”!

Os casos mais sonantes

Mas com o dinheiro chegaram também os empresários, os amigos e as fortunas perdidas da noite para o dia. Vários jogadores entregaram os seus rendimentos aos seus agentes ou a conselheiros que entre desfalques e péssimos conselhos de investimentos, os milhões esfumavam-se no ar.

Segundo um estudo publicado recentemente pela associação benéfica XPro, 3 em cada 5 futebolistas da Premier League estão oficialmente falidos num período máximo de cinco anos depois da sua retirada do futebol profissional. Futebolistas como o mítico Paul Gascoine, dono da maior fortuna pessoal do futebol inglês dos anos 90 que gastou todo o dinheiro que acumulou nas suas estadias em clubes ingleses, italianos e escoceses nas suas adições ao álcool e drogas, até se ver sem recursos para pagar os seus próprios tratamentos de reabilitação.

Gazza no entanto é só o caso mais mediático. O capitão da seleção da Escócia nos anos noventa, o central Colin Hendry, ou o internacional Lee Hendrie declararam publicamente que tinham perdido todas as suas poupanças desde que abandonaram os relvados. Nos seus casos, foram investimentos imobiliários, aliados às suas respectivas adições, que aceleraram o fim das suas fortunas.

O norte-americano Brad Friedel, atual guarda-redes do Tottenham Hotspurs, viu um amigo investir todas as suas poupanças em negócios que correram mal durante a sua etapa ao serviço do Aston Villa o que o levou a procurar sair livre do clube de Birmingham para recuperar parte do dinheiro assinando como jogador livre com o clube londrino.

Excentricidades das estrelas

Na Premier League – onde o salário médio ronda os 180 mil euros ao mês – a situação é verdadeiramente dramática e o estilo de vida de muitos dos seus jogadores ajuda a explicar a situação.

A jovem promessa inglesa Matthew Etherington confessou numa entrevista que gastava todo o salário do mês em apostas desportivas, chegando a necessitar de empréstimos de amigos e famíliares para poder alimentar-se.

O italiano Mario Balotelli, na sua estadia no Manchester City, gastava cerca de 400 mil euros semanalmente tendo numa ocasião dado mil libras em dinheiro a um sem-abrigo com quem se cruzou nas ruas. Carros desportivos, mulheres, álcool  festas, propriedades, tudo serve para gastar os milhões que os clubes pagam para manter as suas estrelas e os seus agentes contentes.

Mas o futebol inglês não é um caso único. Pelé e Diego Armando Maradona, rivais dentro e fora de campo, ironicamente podiam também ter disputado o estatuto de estrela que mais depressa destroçou a sua fortuna, milionária para a época. O brasileiro perdeu-a em investimentos imobiliários enquanto que os problemas de Diego com as drogas são uma das principais razões para que os seus problemas com o fisco italiano o tenham afastado da sua amada cidade de Nápoles durante tantos anos.

Famílias e amigos, de solução a problema

A falta referências famíliares – em muitos dos casos – levam os jogadores, principalmente os mais jovens, a gastar muitas vezes mais do que aquilo que ganham. Noutros casos, mais dramáticos, são as próprias famílias que incentivam o seu estilo de vida e procuraram lucrar-se com eles.

Nos últimos anos, os divórcios milionários têm sido mais um quebra-cabeça para muitos desportistas de elite, como sucedeu recentemente com Thierry Henry. Nas situações mais extremas, são as adições pessoais – álcool, apostas, droga, mulheres – as que acabam por destroçar as contas bancárias dos futebolistas.

Casos como os dos portugueses Vitor Baptista, Chalana e Vitor Baía ou do brasileiro Mário Jardel soam diretamente aos espectadores portugueses mas são apenas o reflexo mediático de um mundo muito mais sombrio.

12.223 / Por