Os grandes desastres nos estádios de futebol na década de 80 provocaram uma profunda revolução na forma como os estádios foram repensados. A obrigatoriedade dos lugares sentados entrou em confronto com uma velha tradição e depois de duas décadas começam a ganhar força os grupos de adeptos que defendem um regresso às origens. Ver o futebol de pé tornou-se na nova utopia dos adeptos.

A alma do Westfallenstadion

As imagens do Westfallenstadion – ou Signal Iduna, como preferirem – impactam qualquer olho externo. O estádio do Borussia de Dortmund não só impressiona pela sua construção, no coração de um bosque verde do Ruhr, como também pela vida que é transmitida pelos seus adeptos. Coreografias altamente cuidadas, um apoio entusiástico e ensurdecedor e uma união com a equipa sem igual no panorama internacional. Curiosamente, muitos desses adeptos, fazem-no desrespeitando diretamente uma das leis sagradas dos estádios de futebol pós-anos 80. Longe de ocupar os seus lugares sentados, eles são os primeiros que lideram a luta para regressar atrás no tempo, à época do “peão”, aos dias em que o futebol se seguia e sentia estando de pé, num processo de comunhão colectivo inesquecível.

O estádio do campeão alemão não é só reconhecido por ter a maior bancada do mundo, a Subtribune, onde quinzenalmente, mais de 25 mil adeptos seguem a equipa de pé. O clube, sensível ao apelo dos adeptos, foi o primeiro em contrariar a tendência generalizada e a romper uma das regras sagradas das organizações futebolísticas  Criou um sistema que permite ao clube receber jogos domésticos com lugares de pé na mítica bancada. Para os jogos europeus, de forma a cumprir a normativa da UEFA, os assentos são recolocados. A capacidade do estádio oscila entre os 80 e os 68 mil espectadores, em ambos os casos. E está sempre cheio.

A legislação permissiva da Bundesliga abriu a porta para que o movimento de adeptos mais tradicionalista começasse a sua defesa ativa de um regresso ao passado. Queixam-se as associações de adeptos que a obrigação de um estádio ser composto exclusivamente de lugares sentados não foi mais do que um pretexto dos clubes para aumentar o preço dos bilhetes e excluir dos jogos muitos dos adeptos tradicionais, mais pobres, e assim tentar eliminar o problema do hooliganismo pela via financeira. Tornar o jogo um espetáculo exclusivo, quase uma ópera, para torna-lo mais seguro.

O Relatório Taylor, comissionado pelo governo inglês depois do desastre de Hillsborough, chegou à conclusão que parte do problema de segurança que tinha levado à morte de 89 adeptos do Liverpool estava no descontrolo que os lugares de pé originavam às autoridades. Com uma lotação garantida de lugares sentados a segurança seria mais fácil e desastres como esse evitáveis. De certa forma é certo que muitos dos grandes incidentes em estádios de futebol se deveram à sua sobrelotação. Mas como se provou este ano, o caso de Hillsborough, como o de Heysel ou Bradford, devia-se mais à negligência das autoridades organizativas e policiais do que ao excesso de adeptos.

O crescimento inflacionado das entradas

Olhando para os números é difícil não estar de acordo com esta ideia.

De facto o futebol viu os preços de bilhetes disparar nos últimos vinte anos. O primeiro pretexto dos clubes foi que a subida dos preços servia para pagar as melhoras ou a reconstrução dos seus estádios, cumprindo com a normativa. Mais tarde a desculpa passou a ser a ficha salarial dos jogadores de elite, para manter o padrão do espetáculo elevado. Por um caso ou por outro, os números nunca mais pararam de subir.

Em 1990, um adepto podia comprar um bilhete para ver um jogo de pé na mítica bancada de Stretford End, em Old Trafford, por 3,50 libras. Se tivermos em conta a inflação dos últimos vinte anos, o preço deveria ter subido, sim, mas para uns módicos 6,50 libras. Realmente, hoje em dia, nenhum bilhete para o estádio do Manchester United pode ser adquirido por valores inferiores às 30 libras. Não é só um número restritco de bilhetes (a média do estádio está nas 80 libras). É também um aumento de 700% entre 1990 e a atualidade.

Em Londres a realidade é ainda mais assustadora. A cidade da Europa com mais clubes na primeira divisão recebe anualmente vários derbys locais que nos anos 80 podiam ser visto a um preço médio de 5 libras, acessível a todos os quadrantes da sociedade. Era praticamente impossível encontrar um bilhete mais caro que 20 libras em qualquer um dos estádios da capital inglesa para ver jogar Arsenal, Tottenham, Chelsea, West Ham United, QPR, Wimbledon, Crystal Palace ou Charlton. Hoje a realidade é radicalmente diferente.

O Emirates Stadium tornou-se em 2010 o primeiro estádio inglês a cobrar 100 libras por uma entrada e é impossível conseguir qualquer bilhete a preços inferiores a 50 libras. Um incremento de 920 % em relação aos anos anteriores ao Relatório Taylor. Os lugares anuais, com todos os jogos da liga incluídos  chegam regularmente aos 900 euros em qualquer clube inglês.

Os clubes construíram novas casas, filtraram o público com uma nova política de preços e reduziram os problemas com os seus adeptos. Mas, a que custo?

Os clubes apoiam a remodelação

Apesar disso, particularmente no Reino Unido e na Alemanha, a maioria dos adeptos convencionais continuavam a seguir os jogos de pé, mesmo tendo um assento pago a preço de ouro. Era um desafio, é certo, mas pouco expressivo.

A Alemanha foi a primeira nação a abrandar a legislação. Fazia parte do plano da própria federação para a progressiva popularização de um desporto que começava a entrar em crise. Os clubes passaram a ter áreas para adeptos de pé, os preços foram baixando progressivamente e os estádios, semi-vazios na década de 90, voltaram a encher a tal ponto que hoje se encontram entre os mais lotados do futebol mundial. A iniciativa não supôs nenhum problema de segurança, ao contrário do que as autoridades anunciavam, e a pouco e pouco federações de adeptos em Inglaterra começaram a exigir à Premier League o mesmo tratamento.

Aston Villa, Sunderland e West Ham United foram os primeiros clubes a desafiar abertamente a directiva e a incentivar os seus adeptos a seguir os jogos das suas equipas de pé para recuperar o espirito mais apaixonado e intenso dos seus respectivos estádios nos jogos em casa. Ambas as directivas defendiam a criação de um modelo similar ao alemão, de prova, para garantir um regresso progressivo, em determinadas zonas do estádio, à situação pré-Hillsborough e ofereciam os seus estádios para o efeito.

A política de preços afastou dos estádios os mais novos e os mais idosos, transformou os públicos efervescentes do passado em espectadores de classe média alta, incapazes de recriar os ambientes que hoje os estádios alemães são capazes de proporcionar. Em Espanha é praticamente impossível ver um jogo com um rival de prestigio no Santiago Bernabeu ou no Vicente Calderon por menos de 50 euros, valores ligeiramente inferiores aos praticados no Camp Nou. Mesmo clubes modestos como o Getafe praticam políticas de preço que condenam as bancadas ao inevitável vazio de almas.

A importância dos novos assentos de metal

Os estádios na Alemanha utilizam um novo sistema de assentos de metal que permitem a sua retirada facilmente. Custam um pouco mais que os assentos convencionais de plástico mas também têm uma durabilidade maior e são quase impossíveis de ser utilizados como arma de arremesso pelos adeptos mais violentos. No caso do Hannover alemão, foram instalados no estádio em 2005 e até hoje não houve incidências com nenhum deles.

Sobretudo esta é a grande exigência do adepto moderno. A Football Supporter´s Federation tem batalhado nos últimos anos por conseguir uma abertura na legislação e há várias petições online que seguem o mesmo caminho. A base de apoio entre os adeptos é imensa e com muitos clubes a começarem a aliar-se a esta revolução, conscientes de ter mais a ganhar do que a perder, resta saber quando as autoridades vão começar a ceder na sua postura e o futebol de pé, com todo aquele simbolismo que o acompanha, volte a ser uma realidade a nível internacional.

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