Num país orgulhosamente só, o futebol representou um papel fundamental num dos poucos gritos de revolta que conseguiram escapar ao lápis azul da censura. Foi em 1969, em consequência direta da revolta estudantil de Coimbra e o documentário Futebol de Causas permite-nos voltar a uma era onde os estudantes colocaram à prova a força do regime ditatorial português.

Preencher um vazio

No panorama português o vazio de livros e documentários sobre a realidade do nosso futebol para lá da eterna luta de poder dos três grandes é confrangedora. Entre os múltiplos episódios da história, a revolta académica da década de 60 e a sua consequência desportiva está, sem dúvida, entre um dos mais simbólicos e cinematográficos desses momentos. Talvez por isso a surpresa não seja a existência de um documentário como Futebol de Causas. A surpresa está no tempo que demorou a ser feito.

A obra de Ricardo Antunes Martins, à época estudante de jornalismo na mesma universidade que serve de pano de fundo para a sua obra, mergulha nesse período agitado do academismo coimbrão e de como o clube de futebol da Academia serviu como bandeira de uma luta que o poder político do regime salazarista tentou silenciar de outra forma. Com relatos na primeira pessoa de vários jogadores da equipa dos estudantes, mas também de personalidades políticas que, à época, eram figuras de proa do movimento estudantil e hoje encontram-se em cargos de poder, ironias da via, vemos montar-se um puzzle político, social e futebolístico entre questões como o Ultramar, o profissionalismo desportivo e a luta pela liberdade do movimento académico.

A crise estudantil de 1969

O documentário leva-nos numa viagem no tempo entre três datas fundamentais na história da Associação Académica de Coimbra e a sua relação com o movimento estudantil da cidade. Em 1962 conhecemos a origem do movimento que ganhará forma sete anos depois, o momento em que o clube se transforma na plataforma ideal de protesto mas também na porta de saída de jogadores originários de África que aproveitariam o início da Guerra Colonial para voltar a casa e liderar os respectivos movimentos independentistas. Em 1974, na ressaca de Abril, nos excessos da revolução, testemunhamos o fim da ligação umbilical entre clube e universidade, o que seria no fundo o final de uma era e o nascimento da Académica atual, um clube absolutamente profissional unido apenas por simbologia e nostalgia às instituições académicas.

Mas é em 1969, como não poderia deixar de ser, que se centra a narrativa. Uma história de como os estudantes ousaram roubar a palavra ao regime e, sendo calados, levaram a equipa de futebol, composta ela então na totalidade por jogadores-estudantes, do nível de Artur Jorge e Manuel António, a aderir de forma subtil mas desafiadora aos protestos. O culminar do movimento, que arrancou em Abril, sucedeu no mês seguinte, um ano depois das revoltas estudantis de Paris, com uma inesperada final da Taça de Portugal que reeditava o primeiro duelo final da história da competição. Em 1939 tinha ganho a Académica e uma nova vitória dos estudantes, representantes do luto académico, teria significado um sério desafio ao governo. Eusébio, inocente nestas lides, acabou por dar mais cinco anos de vida ao regime de Marcelo Caetano.

O futebol revolucionário

Como exemplifica o documentário, apesar da derrota, o movimento acabou por funcionar como catalisador social. O futebol, um dos três F´s do regime, serviu como plataforma de propaganda nacional para transmitir a mensagem de que algo estava a mudar. A Académica, para muitos o segundo clube de afetos, contribuiu no campo ativamente para a mudança de regime com o seu estilo criativo e desinibido e os homens por detrás do movimento estudantil aprenderam como o futebol podia ser uma arma social fundamental para ganhar uma guerra que seria mais longa que uma simples batalha.

O sóbrio trabalho de Ricardo Martins acerta no ritmo e mensagem, apesar de se notar em excesso a ausência de uma figura fundamental – Artur Jorge – e de ser evidente que mais do que um documentário jornalístico  Futebol de Causas é uma declaração de amor a um clube, uma cidade e um movimento social que lançou as bases do futebol como fenómeno político e social.

Da mesma forma que anos depois os dirigentes do FC Porto utilizariam o futebol como arma social de reafirmação do norte de Portugal. Da mesma forma que no Brasil, a Democracia Corinthiana desafiaria o regime político graças às mensagens dos jogadores do Timão, aqui também fica evidente que poucos fenómenos sociais podem ter tanta repercussão na história de um país como o futebol.

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