Na era da máxima repressão sexual da era vitoriana, os institutos e colégios ingleses tornaram-se fundamentais no desenvolvimento do futebol como desporto de elites. Mas também na aposta firme em modelos de juventude profundamente cristãos, fisicamente ativos e afastados das primeiras experiências sexuais. Edward Thring foi o mentor dessa revolução de comportamentos e o seu irmão John Charles Thring quem aplicou a sua teoria à génese do futebol. Juntos, são o rosto perfeito de como o futebol moderno nasceu, uma insuspeita arma contra a sodomia, masturbação e qualquer comportamento social que a Inglaterra Vitoriana era incapaz de aceitar.

Eixo central do sistema educativo vitoriano

O futebol tem muitos pais e mães e muitas origens geográficas mas Inglaterra sempre foi uma ilha onde o pontapé na bola conquistou adeptos nas várias faixas sociais. Uma espécie de futebol quase letal foi proibido por Eduardo II, por prejudicar o treino dos arqueiros ingleses, e durante o século XVII e XVIII manteve-se vivo em pequenas comunidades. Mas foi o papel fundamental dos colégios para elites a partir da segunda década do século XIX que transformou o jogo num fenómeno sem paralelo na história da humanidade. E esse passo foi dado de forma paralela pelos irmãos Thring.

Edward Thring é, ainda hoje, um dos elementos mais importantes da história do ensino inglês. Reverendo ultra-conservador, defensor acérrimo dos ideais vitorianos que fizeram escola na sua época, era um dos homens mais temidos pela juventude inglesa. Em Uppingham School, onde era o reitor, desenhou as bases da política do medo que moldaria o sistema educativo inglês das décadas seguintes. O seu objectivo primordial era preparar os futuros líderes do Império, os futuros homens que viajariam da Indía ao Canadá espalhando a mensagem de Deus e da Imperatriz. Para tal, Thring acreditava que o moto latino “mens sana in corpore sano” fazia mais sentido que nunca e portanto a introdução de ginásios e desportos colectivos era parte fundamental da sua filosofia. O exercício deveria ser utilizado não só para manter os corpos em forma mas, sobretudo, para os manter cansados e portanto afastados dos perigos do sexo.

A era vitoriana foi um período histórico de profunda repressão sexual. Ideólogos como os Thring estiveram por detrás dessa ideologia que criminalizava os comportamentos homossexuais, a prostituição e a masturbação juvenil. O medo de cair numa sociedade similar à francesa pré-Revolução deu à sexualidade um papel inesperadamente protagonista nesta ideologia social e o desporto surgiu, como a guerra mais tarde, como o antídoto perfeito. Edward Thring estimulava ao mesmo tempo a denúncia dos comportamentos pecaminosos dos alunos e a sua implicação em desportos de grupo, capazes de transformar meninos efeminados em homens do Império. No futebol encontrou o seu melhor aliado.

JC Thring e a organização do futebol colegial

O irmão de Edward, J.C. Thring, cresceu debaixo da influência moral do irmão e, de certa forma, seguiu o seu pensamento messiânico na forma como explorou as bases de um jogo que começava a popularizar-se em todo o sistema educativo britânico. Nele caiu, involuntariamente, a responsabilidade de organizar o panorama institucional que tinha levado ao desenvolvimento de distintas variantes do jogo de instituição para instituição. Celebres ficaram as suas disputas com Frederic Temple, director do colégio de Rugby, que significariam mais tarde a cisão histórica entre os dois desportos.

JC Thring trabalhou a ideia do “simplest game” e criou as dez regras básicas do jogo, uma forma de padronizar ao máximo as variantes que se desenvolviam nas distintas escolas. Depois de passar por Cambridge foi em Uppingham, a escola dirigida pelo irmão, onde encontrou a sua inspiração moral no caminho de distanciamento progressivo do “folk football” do inicio do século até ao “association football” que seria a base do jogo como hoje o conhecemos. Em 1863 os irmãos Thring  promoveram uma reunião num pub de Londres, que para a história ficaria como o Freemason´s Arms, onde a formalização ideológica do futebol ficou definitivamente estabelecida. O jogo evoluiu com lentidão em muitos sentidos. Durante largos anos o jogo com a cabeça não estava permitido, a figura do árbitro era inexistente, não se praticavam passes laterais e era hábito – até à entrada em cena dos clubes de operários – jogar uma parte com regras de Rugby e outra com regras idealizadas pelos Thring no que diz respeito ao poder pontapear ou não os adversários e jogar com as mãos.

A complexa relação entre o futebol e o sexo

Mas para Edward Thring, mais importante que estabelecer uma conduta escrita, o importante era a forma como o sistema educativo podia utilizar o futebol como veículo para a sua ideologia. Ficaram celebres os seus severos castigos a alunos seus da sua equipa de colégio, proibidos de jogar por denúncias de outros companheiros sobre os seus hábitos e práticas sexuais na instituição. Uma vez, num duelo contra Shrewsbury, o  reverendo que exercia igualmente de treinador, mandou retirar a sua equipa quando soube que do outro lado jogaria um aluno conhecido na escola pelas suas inclinações homossexuais. Um comportamento que hoje escandalizaria qualquer um mas que na segunda metade do século XIX era aplaudido de pé nos salões e salas de aula.

E olhando para a evolução do jogo não se pode dizer que os irmãos Thrings tenham falhado na sua missão. O futebol é um desporto que conjuga mal com a sexualidade. Em pleno século XXI poucos jogadores admitem a sua homossexualidade por genuíno pavor a represálias, dentro e fora dos seus clubes. Técnicos e presidentes conceituados falam na impossibilidade crónica de que existam jogadores não-heterossexuais no mundo do futebol. As relações antes dos jogos são ainda vistas com suspeitas e em Inglaterra o estilo de jogo mais físico responde bem a esse estereótipo idealizado no circuito educativo vitoriano.

Quando Ruud Gullit descreveu a seleção portuguesa como uma equipa que jogava um futebol “sexy” numa transmissão televisiva inglesa a maioria não entendeu que relação positiva poderia ter o jogo dos Thring com a insinuação quase erótica do circulação de bola entre Figo, Rui Costa e João Pinto. Essa incapacidade para soltar-se no terreno, desdobrar o corpo em mil movimentos e explodir   em cada golo como se de um orgasmo se tratasse, parafraseando o avançado portuense Fernando Gomes, é um dos traços mais característicos do futebol inglês. Do quadro de 10 leis de JC Thring muitas coisas evoluíram até aos dias de hoje. Do ideário moral do seu irmão Edward demasiadas coisas continuam na mesma. De certa forma a sua luta teve os seus frutos e o sexo e o futebol são ainda terrenos de muitos tabus.

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