A 3600 metros de altitude o futebol ainda é futebol? Quando a densidade do ar transforma a respiração num puzzle interno e destroça a mais resistente força muscular, superam-se os limites da ética do jogo? No estádio Hernando Siles, em La Paz, os futebolistas não jogam apenas contra o rival. Lutam também contra o seu próprio corpo.

O fator casa

Para a seleção nacional da Bolívia cada jogo em casa é um momento especial.

Não só pelo espetáculo e pelo mediatismo que gera receber equipas como o Brasil, a Argentina ou o Uruguaio. É algo mais prático e polémico também. Para a Bolívia, jogar em casa é talvez a única forma que têm de poder ganhar o direito a participar num Mundial de futebol. Jogar no seu reduto não faz com que os seus jogadores, habitualmente futebolistas modestos dentro do circuito sul-americano, sejam melhores. Mas transforma profundamente a forma de jogar até os melhores jogadores do Mundo. Os vómitos de Lionel Messi, as tonturas de Ronaldo, os passos lentos de Diego Armando Maradona tornaram-se num símbolo da resistência dos bolivianos no cume dos Andes. Em La Paz, há que jogar e sobreviver. Só depois se pode pensar em ganhar.

Apesar das criticas de dirigentes, desportistas e adeptos, a FIFA tem permitido à federação bolivariana de manter agendados os seus duelos em casa no Hernando Siles. Para eles é um mecanismo de defesa como outro qualquer, uma ajuda suplementar oferecida pela natureza. Para os restantes não deixa de ser um truque, uma forma de ultrapassar as regras e ganhar vantagem num confronto desigual.

Os dirigentes do organismo mundial preferem agora abster-se da polemica, reconhecendo a dificuldade de jogar em La Paz mas não a responsabilidade da seleção da Bolívia de atuar na sua capital, independentemente da sua localização. O debate sobre a ética de jogar a 3600 metros de altitude não é novo, mas nem a cada vez mais cientifica preparação desportiva consegue encontrar forma de contornar a sombra dos Andes.

Problemas de altitude

É saudável jogar a 3600 metros de altitude?

Para os jogadores bolivianos o problema não se coloca. O país, instalado no coração norte da cordilheira dos Antes vive, recortado, entre vales e montanhas. Os desportistas estão habituados desde nascença a coabitar com uma altitude que para muitos é asfixiante. La Paz, a capital do país, desenha-se sobre escarpas e picos no topo dos Andes e o estádio nacional, Hernando Siles, encontra-se num desses pontos altos da cidade.

Para quem não está habituado, a sensação pode ser infernal.

Fatiga, dores no peito, enxaquecas e vómitos são apenas alguns dos mais evidentes efeitos de competir a quase quatro mil metros do nível do mar. Para todos aqueles jogadores habituados a jogar em clubes de cidades costeiras ou de pouca altitude, o esforço é suplementar e as consequências imprevisíveis

Cientificamente não há nada que impeça a alta competição a grande altitude. Muitos atletas de topo de vários desportos aproveitam, inclusive, os períodos de descanso para treinar em locais montanhosos e reforçar a sua resistência e massa muscular. Mas em noventa minutos de competição com um rival que está habituado a mover-se onde o ar não se mexe, a situação é diferente. A densidade do ar – e não o volume do oxigénio – é menor e isso arrasta reações em cadeia no organismo.

Igualdade de circunstâncias

O Hernando Siles é um dos estádios mais altos do mundo. A nível internacional é o local a maior altitude onde se disputam jogos da máxima exigência competitiva. Quando os desportista de elite estão expostos a esta realidade geográfica, habitualmente dispõem de um período de adaptação. Mas o apertado calendário futebolístico não dá mais do que dois ou três dias para os jogadores se aclimatizarem ao espaço. Os resultados estão à vista. As últimas campanhas da Bolívia em casa saldaram-se sempre com resultados surpreendentes contra equipas com maior prestigio.

A seleção andina falha regularmente os jogos fora, quando passeia pelo continente, mas em La Paz é capaz de golear a Argentina repetidas vezes, bater o Brasil, Uruguai e Colômbia com facilidade. Poderia fazê-lo noutro cenário?

Os resultados fora de casa deixam a resposta. Para responder às queixas das restantes federações, a seleção boliviana aponta que eles também sofrem com a alta humidade na Colômbia e Venezuela, do ambiente hostil e violento dos “hinchas” na Argentina ou dos jogos disputados em locais áridos no coração do Brasil. E que nesses casos ninguém se queixa, ninguém se preocupa que a geografia desempenhe o seu papel. Razão essencialmente para que a FIFA tenha recuado na sua primeira e polemica decisão. Em 2005, depois de mais uma queixa da federação argentina, o organismo proclamou um decreto que proibia os jogos a mais de 2500 metros de altitude por questões de segurança.

O presidente da Bolívia  Evo Morales, respondeu com a realização de um amigável, do qual ele fez parte, no topo da montanha mais alta do pais…a 6500 metros acima do nível do mar. O mundo não evitou um sorriso e a FIFA recuou na sua original ideia que abriria um perigo precedente institucional e plasmaria legalmente que há locais certos e errados para a prática de um desporto que, afinal, é universal.

Até que a situação mude, Messi, Neymar, Suarez, Falcao e companhia continuarão a ter de padecer as exigências do Hernando Siles, a última esperança dos homens de Azkagorta para repetir o feito de 1994 e disputar assim o terceiro Mundial da sua história. Enquanto uns se queixam e sofrem, para eles, o futebol a 3600 metros de altitude é o único que sabem fazer!

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