Há futebolistas que procuram ser algo mais do que meros desportistas. Utilizam a palavra e as ações para deixarem a sua marca na sociedade. En Futbolistas de Izquierdas, o jornalista Quique Peinado recolhe num livro fascinante alguns desses nomes próprios que ajudam a entender o futebol como algo mais do que um simples jogo de bola.

Homens de princípios

Alguns quiseram lutar pela independência dos seus países. Outros pela dignidade das suas famílias. Todos tinham uma causa, um objectivo na vida para lá de brilhar nos relvados. Para a maioria dos adeptos eram jogadores excêntricos. Para os políticos personagens perigosos, incapazes de alinhar pela velha máxima de que não se deve misturar política com desporto (não vá o diabo tecê-las). Para a posteridade ficaram como futebolistas com voz.

Ao contrário do velho chavão que diz que os futebolistas são repetitivos e não sabem comunicar, este leque de jogadores prova que ás vezes o problema está na pergunta e não na resposta.

Para Lucarelli, o profeta comunista de Livorno, era comprar um Ferrari ou a possibilidade de jogar no clube da sua vida. O clube que existe como uma mensagem de resistência. O seu compatriota, Sollier, o Ho-Chi Min do futebol italiano, trocou a sala de montagem da FIAT pelos relvados de Perugia para espalhar a filosofia vermelha de um mundo igualitário. Em Espanha, onde o escritor naturalmente se sente mais cómodo – o que nem sempre é sinal de se poder dizer tudo aquilo que se quer – viajamos à velha relação entre o futebol e as causas separatistas basca e catalã ou os heróis forjados na resistência depois da fratricida guerra entre republicanos e falangistas.

Mas esta narrativa, que se lê de um sopro tal é a sua capacidade de conquistar o coração ao leitor, não se fica pela Europa do Sul. Viaja à Alemanha por onde andou um guarda-redes estivador, ao deserto argelino em que Mekhloufi converteu a sua paixão numa nação. Não se esquece dessa imensa figura que é Sócrates e todos os jogadores que sobreviveram ás ditaduras militares no Brasil, na Argentina e no Chile. E, inevitavelmente, cada um dos jogadores que despiu o equipamento e vestiu a pele de defensor dos direitos de igualdade racial.

Recriar o passado

Futbolistas de Izquierdas é um desses livros fundamentais.

Para muitos as histórias já são conhecidas. Basta ser espaços como este. Mas a forma como os velhos contos são recriados por Peinado merecem uma segunda oportunidade. Há vida nas palavras que se conjugam para entender que o mundo do futebol é algo bastante mais complexo do que pode parecer à primeira vista. Entre os milhões que se movem, as tatuagens, brincos, penteados, carros desportivos e modelos, há jogadores que utilizam o seu poder social para defender aquilo em que acreditam. Sobretudo, para não se calarem perante as injustiças que os rodeiam.

As suas vidas e os seus gestos são também parte do esqueleto mágico deste desporto. Graças a Peinado e o seu mais recente livro – que os leitores portugueses podem adquirir desde a sua página web – as gestas não cairão no esquecimento.

2.007 / Por