Num país de ídolos de pés descalços, Friedenreich é um herói dificil de catalogar. Numa época onde o racismo ainda dominava o futebol brasileiro, foi o primeiro a quebrar a barreira psicológica dos jogadores mulatos. Sem vídeos que confirmem os registos lendários que sempre o acompanharam, Friedenreich abriu caminho para a saga mágica do futebol canarinho.

O herói mulato

Poucos jogadores na história marcaram tantos golos como Arthur Friedenreich. Se consideramos que em vinte e cinco anos apontou 1329 golos mas disputando menos golos que qualquer outro dos membros do top 20 dos melhores marcadores da história, então é fácil imaginar o impacto que o “Tigre”, como era conhecido, causou no seu tempo.

Mas a sua lenda tem contornos ainda maiores se pensarmos que Friedenreich era mulato. Um crime na sociedade brasileira dos anos vinte quando se referia ao mundo do desporto. Filho de um emigrante alemão e uma lavadeira negra, era o exemplo perfeito do que se tinha tornado o Brasil, um país forjado à base de emigração e onde a mistura de culturas e genética iria produzir um resultado espantoso.

A principio, alguns tentaram disfarçar a condição de mulato de Arthur com pó de talco mas o truque não funcionou. O seu talento acabou por fechar qualquer debate sobre a sua validade. Desde o primeiro dia que disputou um encontro oficial deixou claro que para ele o jogo importado dos ingleses não tinha qualquer segredo. Com um faro de golo desconhecido até então em toda a América Latina, Friedenreich deu início a uma série de futebolistas capazes de driblar o mundo ao ritmo do samba, marcando golos impossíveis perante o olhar atónito do público brasileiro. O génio de Leónidas, Vavá, Heleno, Pelé, Rivelino, Careca, Romário e Ronaldo começou a forjar-se nas chuteiras do avançado paulista.

O Mundial que nunca ganhou

Nascido em 1892, com dezassete anos, o jovem avançado já tinha disputado os seus primeiros encontros oficiais com a camisola do Germânia, o clube dos emigrantes alemães em São Paulo. Durante quase uma década, mudou várias vezes de clube, uma situação normal num país onde o futebol ainda era um desporto amador e de elites e em que as carreiras se faziam saltando de um emblema para o outro. Em todos eles distinguia-se pelo seu drible rápido, as suas fintas inesperadas e os seus golos. Os seus muitos golos. Em 1919, Friendenreich apontou o único tento da final da Copa América, disputada entre o Brasil e o Uruguai, torneio que voltou a vencer dois anos depois, consagrando-se como a primeira grande estrela individual do futebol sul-americano.

Herói da Copa América de 1919, para muitos a Friedenreich estava destinado o trono mundial na primeira edição do torneio idealizado por Jules Rimet. Apesar de contar com 38 anos, ainda era o goleador no ativo mais prolifero do futebol brasileiro quando o mundo se reuniu no Uruguai para disputar o primeiro Mundial. Mas na comitiva brasileira não estava o idolo dos adeptos paulistas. Desavenças entre as federações do Rio de Janeiro e de São Paulo levaram a que só fossem convocados jogadores cariocas. Arthur ficou de fora, o Brasil veio cedo para casa e até aparecer Pelé, o sonho do título ficava adiado.

A confusão dos números

Precisamente foi com o génio de Santos com quem Friedenreich travou o seu maior duelo, a mais de três décadas de distância. A polemica de quem era, de facto, o maior goleador do Brasil durou anos. Uns confirmam os números atribuídos oficialmente ao jogador – 1329 golos – enquanto que outros citam fontes da época para refutar essa teoria. Entre golos em jogos amigáveis, marcadores exagerados e jogos que nunca existiram na realidade, acredita-se que a cifra pode ter sido inflacionada para lá dos mil. Uma queixa que, anos depois, também se fez relativamente ao próprio Pelé, curiosamente.

Independentemente do número real de golos apontados, a verdade é que ninguém nos anos vinte e trinta era tão eficaz frente à baliza como Friedenreich. Não há imagens que permitam comprovar as assombrosas descrições do seu talento. Com a camisola do São Paulo tornou-se no grande fantasma dos centrais do futebol brasileiro. Quando o clube efectuou em 1925 uma digressão pela Europa, sem perder um jogo, o seu talento maravilhou os jornalistas europeus. Houve propostas para transferir-se para o futebol espanhol, italiano e austríaco, mas Arthur preferia as praias de Santos e o estilo de vida de São Paulo às exigências do futebol europeu. A sua colecção de títulos não teve igual no futebol sul-americano durante décadas. Quando morreu, a finais de 1969, o seu Brasil já era bicampeão do Mundo e preparava-se para assinar debaixo do calor do México a sua obra de arte. Um quadro no relvado que deixaria orgulhoso a um jogador que criou uma lenda a partir da sua capacidade inata de sambar com um esférico nos pés, de olhos postos na baliza e com os braços no ar, preparados para a celebração do golo que já tinha desenhado na sua cabeça-

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  • Lilian

    Belo texto! Eu sou são paulina! Ele e Leônidas (memórias) são queridos por nós. O São Paulo acabou de lançar uma camisa retrô que homenageia o Leônidas. É linda! Acho que o São Paulo tem sabido homenagear os seus ídolos, os grandes nomes que fizeram e fazem a história do clube. Eu sou jovem e sei o quanto Friedenreich foi importante. Ah, e também morei por um bom tempo perto de um clube estadual que levava o nome dele.

    Valeu!

    • Miguel Lourenço Pereira

      Não se pode esquecer também que o Friedenreich foi um dos desportistas mais implicados com a causa paulista, alistando-se no exército paulista na guerra constitucional de 1932, com muitos outros futebolistas e atletas olímpicos. Esse gesto, já na etapa final da sua carreira, ganhou ainda mais o coração do povo paulista!