Freddy Adu, o prodígio fictício

Foi aclamado como o novo Pelé. Antes de brilhar nos relvados foi estrela de jogos de computador. E no final o jogador que ia revolucionar o futebol nos States e tornar-se no ícone moderno do jogo revelou-se um prodígio fictício. Esta é a história de Freddy Adu.

O sonho americano

O jogador que assinou o seu primeiro contrato profissional com 14 anos no meio de pompa e cerimónia joga atualmente no modesto Philadelphia Union, uma das franchises mais modestas da Major League Soccer. Parece a história de uma longa carreira, a soma de dezenas de episódios, sucessos e desaires de um veterano do mundo do futebol. Podia ser, mas está bem longe disso.

Adu tinha 14 anos quando o DC United, um dos principais nomes da reestruturada MLS, decidiu fazer dele uma estreia. Agora tem 23. Apenas e só. Idade para ser internacional olímpico, idade para dar o salto para um grande do Velho Continente. Idade para sonhar. Mas no seu caso particular, sonhar foi a única coisa que Freddy Adu pôde fazer com relativo sucesso.

Não só muitos hoje questionam a sua verdadeira idade como a sua afirmação profissional. Quando surgiu o nome do jogador, a MLS procurava desesperadamente uma forma de catapultar o sucesso logrado pela seleção norte-americana no Mundial de 2002, onde chegou até aos Quartos de Final depois de bater Portugal na fase de grupos e eliminar o México nos Oitavos  de Final. Ainda não tinhamos entrado na era da emigração massiva de veteranos europeus para os Estados Unidos e o “soccer” queria explorar uma fórmula de sucesso mediático para atrair a atenção do público norte-americano. Adu foi a melhor resposta que conseguiram arranjar.

O jovem filho de emigrantes ganeses tornou-se no símbolo dessa nova era para o beautiful game nos States. Ninguém questionou então a sua verdadeira idade – um problema habitual com as seleções africanas – apesar da sua aparência física distar muito de um adolescente de 14 anos. Como estrela do futebol juvenil, o seu nome começou a fazer parte da lista dos olheiros americanos. A sua equipa colegial bateu várias formações europeias em torneios internacionais e sempre com a contribuição fundamental do jovem que em 2003 se tornou, oficialmente, cidadão norte-americano. Era o passo que faltava para que a organização da MLS fizesse dele o mais jovem desportista americano a entrar num draft profissional. À sua volta criou-se um espetáculo mediático que o futebol americano não tinha ainda visto. O DC United, clube de Washington, foi o seu destino, mas a ambição da equipa por detrás de um jogador que era já uma marca estava em exportá-lo rapidamente para a Europa.

A estrela mais precoce

Com 15 anos o jovem jogador estreou-se com a camisola do seu novo clube e abriu caminho para uma autêntica “Adumania”. Foi imediatamente convocado pela seleção de sub-17 dos Estados Unidos e assinou vários contratos publicitários com marcas de prestigio no mercado americano. Na Europa, sempre distante dos Estados Unidos no que diz respeito aos fenómenos futebolisticos, Adu fez-se notar pelo protagonismo inesperado que logrou com a edição de 2004 do simulador Championship Manager. A saga da equipa Sports Interactive tinha-se especializado há vários anos em ser um fiel medidor do potencial real e futuro de muitos jogadores desconhecidos. Os olheiros da companhia entusiasmaram-se com o potencial do norte-americano e transformaram-no numa das estrelas do jogo, tornando-o popular nos quatro cantos do Mundo. Sem ter vencido um só torneio, Freddy Adu já era uma estrela global.

A imprensa começou a apelidá-lo de “novo Pelé”, pela similiaritude física, pelo estilo de jogo e pela necessidade crónica de criar um estatuto de estrela a um jogador que em campo distanciava muito do que se escrevia fora dele. Entre 2004 e 2006, Adu disputou 86 jogos pelo clube de Washington apontando 11 golos. Tinha apenas 16 anos quando esteve à prova no Manchester United, interessado em explorar o mercado norte-americano depois da entrada dos Glazer na estrutura directiva do clube. Esteve apenas quinze dias em Carrington antes de ser devolvido a Washington com desdém.

De Washington mudou-se por uma temporada para Salt Lake City e no final de 2007 exibiu pela primeira vez o seu real potencial ao liderar a seleção norte-americana aos Quartos de Final do Mundial de sub-20, disputado no vizinho Canadá. Adu marcou um hat-trick contra a Polónia mas viu-se superado em protagonismo por outra estrela ascendente, Jozy Altidore. Num torneio por onde passaram futuras estrelas como Sergio Aguero, Adrian Lopez, Alexandre Pato, Giovanni dos Santos, Javier Hernandez, Luis Suarez ou Edison Cavani, a imagem do norte-americano distou muito do que prometia anos antes. Mesmo assim o torneio permitiu-lhe dar o salto para o futebol europeu mas não numa liga mediática como muitos esperavam. Adu assinou com o SL Benfica por 2 milhões de euros e estreou-se pouco depois, frente ao Kobenhavn, num duelo da Champions League. Só voltaria a vestir a camisola encarnada por dez vezes nos cinco anos seguintes.

A desilusão europeia do prodígio americano

Em Lisboa o verdadeiro valor futebolistico de Adu começou a vir ao de cima.

Apesar de contar apenas com 19 anos, o jogador demonstrava ter vários problemas para integrar-se num modelo de jogo tacticamente mais exigente e a sua afamada técnica parecia estar longe do que se podia comprovar na realidade. O clube encarnado não conseguiu atrair o retorno mediático que esperava com a contratação do norte-americano e depois de um ano desportivo para esquecer, Adu foi declarado transferível pelo clube. Sem compradores interessados, cientes de que o prodígio criado pela MLS era o mais parecido a um argumento de Hollywood que o mundo do futebol tinha conhecido, Adu acabou por ser emprestado de forma consecutiva a AS Monaco, Belenenses, Aris Salonica e Çaykur Rizespor. Em nenhuma destas aventuras obteve o mais minimo destaque. Apesar de já ser então internacional A pela seleção dos Estados Unidos – marcando presença nos Jogos Olimpicos de Pequim 2008 – o jogador perdeu a visibilidade no mercado da MSL, mais interessado agora em explorar os direitos de imagens de estrelas como David Beckham e Thierry Henry, e desapareceu progressivamente das convocatórias do selecionador Bob Bradley.

Com 23 anos, este filho do Gana, um país que nos últimos anos se especializou a exportar jovens jogadores de talento que mais tarde acabaram por revelar não ter nem a idade nem o valor anunciado, tem já quase uma década dividida por 200 jogos como futebolista profissional nas costas com apenas 33 golos marcados. Amparado pela popularidade de um jogo de computador de prestigio mundial e por uma campanha de marketing bem orquestrada desde o princípio, Freddy Adu é o espelho perfeito de como o futebol, especialmente num mercado tão competitivo como o americano, pode criar ilusões difíceis de cumprir. Nos Estados Unidos o avançado continuará agora a sua carreira mas o glamour e prestigio que se associavam ao seu nome desapareceu e agora Adu é um entre muitos. Um destino mais real e também mais cruel com aquele a quem muitos viram o mesmo génio que circula nas veias de nomes que escreveram com letras de ouro a história do futebol.

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