Frank O´Farrell, o homem que não sobreviveu à sombra de Busby

Matt Busby marcou uma era em Old Trafford. Por duas vezes o Manchester United procurou substitui-lo. Sem sucesso. Frank O´Farrell foi a vitima da reencarnação de sir Matt numa segunda viagem ao passado. A sua carreira nunca mais foi a mesma. Foi-lhe impossível sobreviver à sombra do primeiro grande manager.

Um mito chamado Busby

Em sonhos a angustia apoderava-se dele.

A imagen de um mito vivo era demasiado pesada para suportar. Cada decisão que rondava a sua cabeça embatia contra um muro infranqueável. Que faria ele, pensava Frank. Constantemente. Que faria o homem que nos ensinou a todos a fazer as coisas bem. Durante duas décadas o Manchester United e Matt Busby tornaram-se sinónimos. A tragedia de Munique tinha unido o destino de clube e treinador de uma forma trágica mas inevitável. Busby não tinha sido só responsável por criar três das mais míticas formações da história dos Red Devils. Devolveu-lhe estima, amor próprio. Lançou as bases de uma política desportiva que se prolongou no tempo, um espaço onde a formação e os jogadores consagrados eram tratados da mesma maneira, sem contemplações. O clube estava por cima de todos. Menos de sir Matt.

Sair de um avião em chamas e deixar para trás a equipa dos seus sonhos para voltar a fazer tudo outra vez, transformou o manager escocês na primeira personagem bigger than life do futebol británico. Antes de Bill Shankly, antes de Brian Clough.

Busby tornou-se tão fundamental para o clube como o diabo no emblema, o vermelho no corpo e o cimento nas entranhas de Old Trafford. O título europeu conquistado em 1968, uma década depois da primeira tentativa ter esbarrado com a morte na pista de aterragem de Munique, significou o seu crepúsculo sonhado. Estava cansado e sentía-se deslocado de uma década que tinha revolucionado tanto o futebol como a sociedade británica. O seu adeus era tão inevitável como dramático para o clube que tinha vivido da sua inspiração desde que o Mundo saira da II Guerra Mundial.

A oportunidade perdida de Jimmy Murphy

O desejo de sir Matt era ser substituido pelo seu tenente, o seu homem de confiança. Jim Murphy era o sangue nas veias do clube. O amigo dos jogadores, o confidente dos adeptos. Falhou a viagem a Munique porque partilhava o papel de treinador de campo em Manchester com o cargo de selecionador de Gales. Ele era o Bob Paisley de Busby. Mas o seu carácter não lhe permitia asumir o protagonismo. Tinha sido convidado pelo Arsenal, pela Juventus e até pela seleção do Brasil para assumir o papel de treinador principal. Recusou sempre, ainda quando as ofertas eram milionárias. Em Munique tinha ficado a geração que ele tinha treinado desde os quatorze anos. Com Best encontrou uma reencarnação de Edwards. Não estava disposto a viver o seu já quase inevitável e trágico fim.

Quando Busby disse que ia embora, a caminho do fim da época de 1969, Murphy rejeitou ser o seu sucessor e abriu caminho para o número três do clube, o veterano Will McGuiness. Estava claro que era uma solução temporal, de transição, enquanto Busby, como director-geral do clube, desenhava o futuro. Durante ano e meio os acontecimentos precipitaram-se, o balneario de veteranos saciados como Charlton e de jovens rebeldes como Best, entrou em descontrolo e Busby foi quase forçado a voltar. Em 1970 assumiu de novo a liderança da equipa. Foi apenas durante um ano. O suficiente para perceber-se que o seu sucessor estaba amaldiçoado à partida.

O´Farrell, a escolha inesperada

Enquanto o Manchester United se coroava rei da Europa, o inexperiente Frank O´Farrell chegava a Leicester para resgatar das sombras a uma equipa que tinha entusiasmado o futebol inglês nos anos anteriores. A mágica formação de 1963 tinha-se desintegrado, o clube despromovido e agora penava na segunda divisão inglesa.

Com quarenta anos, o técnico irlandés dava o salto do obscuro Torquay para uma equipa de renome. A sua carreira podía ter ficado por aquí. Mas dois anos depois de ter aterrado em Filbert Street, o antigo jogador do West Ham United viu o seu trabalho dar frutos e os Foxes foram promovidos à First Division. Jogavam um futebol atrativo, vertical e que entusiasmava e o seu nome começou a ser mencionado para varios cargos nos clubes da primeira linha do futebol inglês. Mas ninguém pensava nele para um lugar tão sagrado como Old Trafford. Ate que a noticia caiu como uma bomba para os adeptos num 8 de Junho. Sem um só ano de experiencia na elite, seria ele o primeiro homem de fora do clube a suceder a Busby.
Sem a ajuda de Murphy – que preferiu retirar-se para trabalhar apenas como olheiro – e com sir Matt no palco dos directores, a missão de O´Farrell era difícil à partida. Estar à altura de uma lenda viva não era tarefa fácil. Ainda assim, a principio, as dúvidas desvaneceram-se rapidamente.

Uma série de vitórias consecutivas levaram os Red Devils ao primeiro lugar da tabela antes do Boxing Day com dez pontos de vantagem sobre o Leeds United. George Best parecía estar de volta à sua melhor versão. Kidd, Charlton e Law marcavam golos regularmente e os adeptos estavam genuinamente entusiasmados. A partir do Inverno, tudo se torceu. Frank era um homem duro que temia que os jogadores e Busby falassem de si nas suas costas. Cortou relações com um errante Best e decidiu criar um esquema de reuniões com os jogadores no seu gabinete com horas marcadas días antes pela sua secretária.

Não falava com eles sem que se cumprisse o protocolo estabelecido. Perdeu o balneario e a equipa caiu em picado na classificação, foi eliminada precocemente das taças e a contestação começou a fazer-se sentir em Stretford End. Best foi desaparecendo entre copo e copo, mulher e mulher, e Charlton anunciou os seus planos para retirar-se. O Man Utd acabou o ano em oitavo lugar – a mesma classificação dos dois anos anteriores – e O´Farrell manteve o lugar mas com a exigencia de apresentar resultados evidentes na segunda tentativa.

O cheiro do charuto de Busby, ao fundo do corredor do seu gabinete, deixava o treinador irlandés inquieto. A sua sombra, a de um novo regresso, continuava a pairar. E por uma vez a época arrancou mal. Tão mal que em Novembro os Red Devils estavam perto dos últimos lugares da tabela. Era questão de horas. Os campeões europeus, cinco anos antes, tinham-se esfumado no ar. A 19 de Dezembro, uma goleada imposta pelo Crystal Palace (5-0) acabou de vez com O´Farrell. O irlandés foi despedido a caminho de Manchester e rendido no banco por Tommy Docherty. Um ano depois, o clube tinha sido despromovido rompendo com trinta anos consecutivos de presenças regulares na First Division. Desde a chegada de Busby.

O peso das lendas em Old Trafford

O´Farrell tornou-se num fantasma andante.
Foi incapaz de voltar a ser visto com credibilidade no meio do futebol inglês. Tinha passado tudo demasiado depressa. Dois anos antes estava a lutar pela promoção na Division II. Agora era o homem que saía de cabeça baixa do Teatro dos Sonhos. Atrás de si, na janela, Busby olhava para um futuro incerto e cinzento. Durante quase quinze anos o clube pairou mais do que existiu. Seguiram-se os treinadores mas a sensação de vazio permaneceu. Até â chegada de Alex Ferguson, escocês, como Busby. E um novo ciclo começou capaz de rivalizar nos livros de história com o primeiro. Um ciclo onde não havia espaço para lembrar homens como O´Farrell.
O irlandés voltou a treinar um ano depois os modestos galeses do Cardiff City.

O trabalho durou apenas meio ano até que apareceu em cena o Irão. O país de Reza Parlhavi estava determinado a confirmar-se como a maior potencia asiática e quería alguém com pedigree británico para orientar o seu futuro. A má experiencia de Manchester não foi um handicaap e durante dois anos Frank viveu em Teerão. Os resultados chegaram mas a paciencia de viver isolado no coração do continente asiático foram demais. E O´Farrell fechou o circulo regresando ao Torquay em Agosto de 1976.

Dez anos depois da sua estreia no clube. Nunca mais saiu do clube. Era o seu lugar, longe, bem longe da exigencia dos gritos eufóricos dos adeptos de Old Trafford que tinham provado a ambrósia da glória do copo sagrado de Busby. Suceder a uma lenda nunca é tarefa fácil. Em Manchester é mais do que isso. É missão impossível!

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