O 9 de Julho de 1987 nunca será esquecido por aqueles que vivem ardentemente o futebol platense. A reencarnação divina, recém-chegada de uma epopeia histórica no México, queria devolver a Copa América à Argentina. Maradona parecia invencível mas o jovem Enzo Francescoli deu um passo em frente e roubou para si todo o protagonismo. Foi a tarde em que o “Príncipe” uruguaio bateu o “Dios” argentino.

Enzo, o sucessor de Varela

Em 1987 não havia jogador no planeta futebol que se aproximasse do nível mágico de Diego Armando Maradona. O astro argentino tinha acabado de completar um ano absolutamente mágico. No Verão anterior tinha conquistado o Mundo como jurara a si mesmo que o faria nos seus dias de Villa Fiorito, fintando latas de refrescos e pedragulhos com a elegância de um artesão. Depois de devolver o ceptro mundial aos exultantes argentinos, “El Pelusa” atravessou o Atlântico e operou um verdadeiro milagre na baía de Nápoles. Foi o ano mais memorável da vida dos napolitanos. Sob a sombra única do Vesúvio, o dez dos azuis celestes liderou a armada de San Paolo rumo a um histórico titulo de campeão. Contra tudo e contra todos. Assim era Maradona, único e inimitável. O ano mágico terminava com um regresso a casa.

Pela primeira vez desde 1959 a Argentina organizava a Copa América. Um troféu que os “ches” não venciam desde essa mítica edição, aquela em que bateram o Brasil recém-sagrado campeão do Mundo. A edição em que Pelé caiu aos pés da armada platense. Campeões do Mundo em título, com Maradona ao leme, ninguém acreditava que podia haver outro desfecho para a competição que uma consagração maradoniana diante dos seus seguidores. Todos davam por consumado o título argentino. Era só uma questão de contar as vitimas que ficariam pelo caminho. Mas do outro lado do mar de la Plata houve sempre alguém capaz de encontrar a fórmula certa para neutralizar os rivais a sul. Nos anos vinte e trinta o Uruguai bateu sucessivamente a “Albiceleste” para converter-se na maior potência mundial. Em 1942, enquanto o Mundo andava em guerra, a mágica seleção argentina inspirada na “Maquina” do River Plate, foi igualmente derrotada quando menos esperava por um jovem Obdulio Varela. O mesmo que, oito anos depois, gestaria da sua alma o milagre do “Maracanazo”. O génio uruguaio tinha sucessor à altura. Chamava-se Enzo Francescoli e era um “Principe” por direito próprio.

O herói do Monumental de Buenos Aires

Pouco depois de Maradona ter trocado o Boca Juniores pelo Barcelona, chegou a Buenos Aires o jovem Francescoli. O seu destino era o fervilhante Monumental e a camisola dos “Milionarios”, o River Plate. Durante uma década foi o senhor absoluto do coração dos seguidores do histórico clube argentino. Tinha vinte e dois anos e um século de futebol uruguaio escondido nas chuteiras. Enquanto Maradona se transformava no jogador argentino mais admirado do Mundo, Francescoli era o futebolista mais respeitado na Argentina. Com o River venceu títulos colectivos e pessoais e coleccionou uma verdadeira legião de admiradores. Era o fiel reflexo de um Uruguai que já não existia. Os dias mágicos das décadas de vinte a cinquenta tinham acabado. A Celeste era uma sombra de si mesmo. Mesmo a vitória na Copa América de 1983 tinha sido celebrada sem grande entusiasmo em Montevideu. Mas disputar o torneio em casa do rival histórico dá outro sabor. Em 1987, coroado Bola de Ouro do futebol sul-americano, o “Principe” de Montevideo (e de Buenos Aires) liderou a comitiva de uma seleção repleta de jovens promessas desconhecidas para o mundo do futebol. Ruben Sosa, Pereira, Bengoechea ou Alzamendi estavam longe de serem as estrelas mediáticas que brasileiros (Muller, Romário, Careca, Raí) e argentinos (Cannigia, Brown, Giusti) alinhavam. E depois estava Maradona, de longe a estrela por direito da prova. Mas os uruguaios estavam habituados a vencer campeões anunciados.

Francescoli, que tinha passado ao lado do Mundial do México, com uma equipa trucidada pela flamante Dinamarca de Elkjaer Larsen e Michael Laudrup, e pela Alemanha de Mathaus e Rummenige, queria reivindicar-se definitivamente. E nada melhor que um mano a mano contra um mito vivo. Contra Diego.

O curioso formato da competição dava vantagem aos charrua. Três grupos de três equipas disputavam os lugares vagos nas meias-finais. Os uruguaios eram campeões em título e não precisavam de jogar a fase de grupos. Tal como em 1950 tiveram tempo para preparar-se. Enquanto os brasileiros eram humilhados pelos chilenos e os colombianos surgiam como a grande surpresa da prova, a Argentina cumpria calendário ao ritmo de genialidades maradonianas. Faltava agora o duelo que todos esperavam. E por uma vez Francescoli jogava em casa. No Monumental. Ou isso parecia. Quando as duas equipas subiram ao relvado, Diego deixou-se ficar propositadamente para trás. Entrou sozinho e ao coro de um ensurdecedor grito de “Maradona, Maradona, Maradona“. Francescoli podia ser o herói do River, mas o rei de Nápoles estava disposto a mostrar quem mandava ali.

O golo que eliminou Dios

O jogo entre velhos rivais e conhecidos foi intenso. Apesar de ser um dia de Inverno, esse 9 de Julho o sol brilhava com força para iluminar o duelo de titãs. Maradona manteve-se igual a si mesmo, determinante e vertical, procurando os poucos espaços que a defesa uruguaia deixava. Do outro lado do campo, Francescoli recebia, esperava e distribuia a bola com critério. Algumas vezes os dois génios cruzavam-se no coração do campo. Saltavam chispas de magia futebolística. Pouco mais. O jogo ia ser decidido por detalhes, uma especialidade de ambos. Maradona tentou todos os truques que tinha no livro. Nenhum lhe saiu. A Enzo bastou-lhe uma oportunidade para fazer a diferença sobre o terreno de jogo.

Ao minuto 43 um sprint pela esquerda de Ruben Sosa arrastou consigo a defesa argentina. No coração da área, Francescoli leu perfeitamente a movimentação do colega e acompanhou-o, oferecendo-lhe a única via de salvação possível no meio de florestas de pernas “ches”. Quando Sosa soltou a bola, Francescoli já sabia que pela direita aparecia, para dobrá-lo, o rápido Alzamendi. Não precisou de muito tempo para decidir. Quase em queda, fintando com o corpo o seu marcador, deu o toque mínimo necessário para prolongar o esférico até aos pés do número sete charrua. Diante de Batista, o uruguaio não falhou. Era o golo do Uruguai. O que gelava o Monumental como o de Ghighia tinha gelado o Maracanã. Especialidade charrua, já se vê. Foi também o único de todo o encontro. Maradona procurou na sua caixa de milagres mas já tinha usado todos os cartões mágicos. O poste, a impecável exibição de Gutierrez e o azar ditaram o resultado final. A Argentina caiu no torneio que estava destinada a ganhar. As coisas correram tão mal que até a inexperiente Colômbia saiu vencedora do intranscendente duelo entre o terceiro e quarto lugar. A hora de Francescoli, essa, estava por chegar. O Principe liderou a cavalgada rumo ao segundo título consecutivo na Copa América com uma exibição brilhante contra o Chile na final, três dias depois.

Dois anos depois da sua consagração definitiva como o alter-ego de Maradona na América do Sul, Enzo decidiu provar sorte no Mediterrâneo. Tinha passado por Paris, jogaria ainda no Cagliari, mas foi com a camisola branca do Olympique que deixou vivas as mais brilhantes memórias, os títulos e os gestos de pura magia que roubaram o coração a um jovem adepto chamado Zinedine Zidane. De tal forma que, muitos anos depois, a estrela gaulesa baptizou o nome do seu primogénito com o do seu idolo juvenil.

Zidane, como todos, sabiam que o melhor jogador do Mundo era Maradona. Mas Francescoli, naquele Julho, permitiu sonhar com uma realidade paralela. Uma dimensão única onde um “Príncipe” podia fintar o próprio “Dios” e sair vivo para contar a história. Uma história para a posteridade.

Ilustração: Daniel Nyari

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