Sabe o adepto comum como se vive o futebol nos bastidores? Apesar da informação voar à velocidade da luz na era da internet e redes sociais ainda há muitas verdades escondidas habilmente em cofres fortes no meio das montanhas. Em FOUL! The Secret World of FIFA, o investigador britânico Andrew Jennings expõe ao público vários episódios que deixam a imagem da FIFA em serviços mínimos. Um livro fundamental para compreender que no mundo do futebol, às vezes, o futebol conta muito menos do que se imagina.

Depois da polemica sobre a reeleição de Sepp Blatter como presidente da FIFA, a leitura de FOUL! (Jogo Sujo na edição portuguesa) torna-se ainda mais pertinente.
Depois de denunciar a corrupção na Scotland Yard e no Comité Olímpico Internacional, o jornalista escocês Andrew Jennings passou oito anos a estudar a organização da FIFA. E o que descobriu não foi, de todo, uma surpresa. Antes de tudo, uma confirmação. Tal como sucedia no universo olímpico, também o órgão que gere o futebol a nível mundial surge neste retrato como um microcosmos de uma família mafiosa de um qualquer filme de Hollywood. A diferença é que a ficção hollywoodesca, no caso de FOUL! desaparece por detrás dos factos que Jennings denuncia.

Blatter, o rosto da corrupção

Único jornalista considerado persona non grata por um organismo de prestigio internacional como a FIFA, Andrew Jennings é um dos rostos do programa Panorama e colunista do britânico Daily Mail. Atualmente mantém uma página web onde denuncia regularmente a corrupção que encontra nas principais organizações desportivas mundiais. E é também o maior pesadelo de Sepp Blatter.
Na obra, publicada pela primeira vez em 2006, Jennings expõe o presidente da FIFA como uma das personalidades mais corruptas da atualidade. Acusações de suborno, fraude nas várias eleições ganhas por Blatter desde 1998, dinheiro resgatado dos cofres da FIFA para uso pessoal e, sobretudo, a criação de uma corte de subordinados que tem governado (ou melhor, desgovernado), o futebol mundial nos últimos anos, são apenas os pontos mais quentes do livro.
Com um ritmo de novela policial e um tom mordaz profundamente britânico, Jennings vai ainda mais longe e enumera datas, nomes, dados e cifras que provam que a teia de corrupção em que vive a FIFA hoje em dia remonta à chegada do brasileiro João Havelange ao trono do futebol mundial em 1974. O livro arranca nesse momento chave para a definição do futebol profissional contemporâneo. A partir daí a viagem leva-nos a um mundo que o adepto comum pode até nem querer conhecer. A ignorância, no fundo, pode ser uma bênção. Mas não para Jennings!

O poder das multinacionais na FIFA

Ler FOUL! é, essencialmente, um acto de coragem. Coragem para acreditar que o fair play e a verdade desportiva são, sobretudo, mitos.
O livro permite-nos descobrir como os últimos Mundiais de Futebol têm sido entregues, sem escrúpulos, a candidaturas dispostas a pagar debaixo da mesa valores exorbitantes. Também deixa a nu a atuação da FIFA como um estado dentro dos estados. Blatter não tem problemas em exigir que países abdiquem de alguns dos direitos sociais mais básicos para submeter-se, durante o mês de prova, à ditadura da organização. Ao mesmo tempo é um rosto omnipresente no apoio directo a vários ditadores africanos ou a directivos condenados e suspeitos de fraude.

Entre os seus homens de confiança, Jennings aponta, o presidente da FIFA distribui milhões gerados pelos contractos publicitários com as grandes multinacionais que, até hoje, têm mantido a organização economicamente. Jennings arranca a sua obra – com uma recente edição brasileira – relembrando como a FIFA entrou no mundo do profissionalismo global e mediático com o apoio inequívoco das empresas Adidas, Coca-Cola e McDonalds (desde os anos 70 os patrocinadores oficiais do organismo e dos seus principais torneios) graças à mão de João Havelange. A figura de Blatter, secretário-geral do brasileiro durante 16 anos, está intimamente ligada com o mundo das multinacionais. Afinal, Blatter foi formado no meio pela Adidas, colocado na organização da FIFA por Horst Dassler, e entrou na FIFA a trabalhar diretamente com os administradores da Coca-Cola.

Jennings cita colaboradores, documentos oficiais e o próprio presidente da FIFA para tecer o retrato de uma figura que se assemelha mais a um “príncipe” de Maquiavel do que a um dirigente de uma organização desportiva. De Blatter a obra passa para uma análise mais certeira a outros elementos da sua habitual entourage (todos eles investigados pelas autoridades policiais ao longo dos últimos anos como Ricardo Teixeira, Jack Warner, Julio Grondona, Mohamed Bin Hamman) e relembra casos como a falência da ISL, a compra de votos na atribuição dos últimos Mundiais, as polemicas decisões da FIFA em branquear a venda ilegal de bilhetes e os direitos televisivos das suas competições e a vendetta organizada pelo presidente contra as associações que, desde 1998, não têm apoiado as suas sucessivas candidaturas.

FOUL! também passa ao outro lado do espelho e mostra um retrato certeiro, se bem que desalentador, daqueles que ousaram desafiar o império FIFA. Directivos de pequenas associações, jornalistas, figuras do sistema jurídico e empresas vitimas de fraude por parte de Blatter e companhia dão a sua visão sobre o reinado do suíço nos últimos 13 anos à frente dos destinos do futebol mundial.

Em suma, FOUL! é um livro sobre futebol que não dedica uma só linha ao desporto. Explora sobretudo o lado mais obscuro da mais poderosa organização mundial – com mais membros que a própria ONU – e a forma como o jogo jogado vive constantemente castrado pelas decisões dos directivos da FIFA em Zurique. O progressivo afastamento dos adeptos, a mediatização dos principais torneios, a corrupção, os crimes, as suspeitas, imagem negra e profundamente negativa de uma realidade que está aí mas que consegue permanecer debaixo do radar da imprensa diária. Mergulhar na obra de Andrew Jennings é, sobretudo, mergulhar no lado mais realista e nefasto do futebol. Mas também é um exercício fundamental para perceber como se movem as peças de xadrez da próxima vez que uma noticia aparentemente sem contexto se cruze com o seu olhar num qualquer pequeno almoço informativo.

2.877 / Por
  • olegario rebenque

    Blatter…..¿El “Chiquito de la Calzada Suizo”?