FOUL, a primeira Fanzine

Na década de oitenta as Fanzines foram a resposta dos adeptos ingleses contra o caminho que o futebol estava a tomar. Mas o fenómeno cultural da década de oitenta começou uma década antes. Dois jovens estudantes de Cambridge apaixonados pelo futebol deram o tiro de partida para o fenómeno com uma revista que mudou a história.

A palavra escrita dos adeptos

Durou apenas quatro anos. O tempo que os seus autores aguentaram até ficar sem dinheiro para investir num projeto único e singular. Foi suficiente para deixar a sua marca. Quando, uma década depois, o fenómeno das Fanzine explodiu em toda a Inglaterra, os seus autores em conscientes que deviam tudo a FOUL!

Inspirados pela popular Private Eye, os estudantes de Cambridge que deram forma ao projeto FOUL decidiram criar do zero uma publicação que rompia com tudo aquilo que tinha sido feito até então. De forma a fintar as crónicas desportivas da época, colocaram a do outro lado do espelho. O lado do adepto. Em 34 números analisaram o futebol inglês até às entranhas sempre partindo de um ponto de vista  descomprometido e original. Criticaram tudo e todos, desde a federação aos clubes passando pelo emergente fenómeno hooligan. Quando ninguém se preocupava ainda com os grupos de adeptos violentos, os escribas de FOUL! denunciaram as primeiras excursões organizadas pelo país. Ninguém os levou muito a sério. A linha editorial da revista era clara. As suas páginas serviam para apontar o caminho que o beautiful game devia seguir.

A televisão tinha entrado em campo, com as primeiras transmissões em directo de jogos de campeonato e os programas de análise de fim-de-semana como o mítico Match of the Day. Treinadores célebres como Brian Clough, Don Revie ou Bill Shankly transformaram-se, brevemente, em comentadores televisivos. As equipas britânicas – depois do curto apogeu a finais dos anos sessenta – tinham deixado de triunfar na Europa e o atraso táctico para holandeses e alemães era cada vez mais evidente. A derrota contra os germânicos, nos quartos-de-final do Campeonato de Europa de 1972 marcou o definitivo render da guarda para a geração de Alf Ramsey. Foi nesse contexto de introspecção que os primeiros números chegaram à rua.

Os sucessores da primeira Fanzine

FOUL! começou como um projeto underground. Era dificil encontrar cópias de cada número. A tirada era reduzida e vendida em locais associados ao movimento estudantil em Cambridge, Oxford e, inevitavelmente, Londres. Demorou alguns meses até chegar ao norte do país, via universidades, sobretudo as de Yorkeshire. Por essa altura, no sul do país, os seus autores já eram pequenas celebridades.

A revista somava páginas de novidades, criticas e curiosas ilustrações. Com o passar dos números foi incorporando entrevistas, correios dos leitores e editoriais cada vez mais incisivo e críticos. O establishment inglês fez ouvidos moucos mas havia um pequeno público que estava disposto a ouvir. A jovem geração que cresceu com a FOUL!, nos quatro anos em que foi editada com regularidade, foi a mesma que uma década depois ajudou o fenómeno Fanzine a ultrapassar o mundo underground e a alcançar as grandes publicações de tiradas nacionais. Nesse período de tempo os adeptos de dezenas de clubes foram imitando o modelo e começaram a nascer as primeiras Fanzines dedicadas, a principio, exclusivamente aos clubes britânicos. A herança da aventura da FOUL! estava viva e tinha entrado nas entranhas emocionais dos adeptos e quando, em 1986, nasceu o projeto When Saturday Comes, o ciclo estava completo.

WSC conseguiu repetir a fórmula que a equipa original da revista FOUL! tinha predicado uma década antes. Um projeto dedicado para os adeptos sem nenhuma particular afiliação futebolística mas que pudesse servir de exemplo para os que procuravam uma forma alternativa, humana e critica de olhar para o futebol britânico. Se em 1986 o Hooliganismo era uma realidade, a crise financeira dos clubes evidente e a crise emocional do futebol britânico um sério problema, o facto de todos esses assuntos terem sido levantados mais de uma década antes pela FOUL! torna o projeto da primeira Fanzine ainda mais relevante.

Na década de setenta o fenómeno Fanzine assaltou a sociedade inglesa. A culpa foi do movimento Punk.

Entre 1974 e 1978 multiplicaram-se as publicações musicais escritas por críticos musicais amadores e agentes das bandas emergentes para divulgar o mais popular fenómeno musical da década. Eram revistas baratas, fáceis de fazer e que chegaram rapidamente ao grande público. O futebol apanhou a boleia no final da década, com o nascimento das primeiras publicações de clubes mas por essa altura o projeto FOUL! já tinha chegado ao fim.

Em 1976 a equipa editorial anunciou que o 34º seria o também o último número do projeto. Faltava dinheiro, sobretudo, para continuar. As equipas inglesas preparavam-se para assaltar as noites europeias e o jogo caminhava a passos largos para a sua etapa moderna, com a entrada dos primeiros patrocínios e a abertura de portas aos jogadores estrangeiros. FOUL! acabou de ser impressa no Outono de 1976. Mas a sua chama permaneceu acesa. A primeira Fanzine da história tinha aberto as portas para uma nova geração de apaixonados pelo futebol que iriam estabelecer o caminho a seguir para as gerações vindouras.

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