Foram a carta de apresentação de Zdeněk Zeman ao futebol italiano. Na época dourada do Calcio um clube modesto do sul de Itália transformou-se numa das equipas mais excitantes da Serie A. A saga do Foggia escreveu-se com golos memoráveis e uma eterna nostalgia pelo sol da Apúlia.

 Os diabos de Foggia

Durante três longos anos a cidade de Foggia viveu um especial estado de euforia. O modesto clube local, uma equipa sem qualquer expressão na rica história do Calcio, parecia estar a desafiar toda a lógica. Eram de uma cidade modesta, não tinham dinheiro nem um grande investidor. Faltava-lhes tradição e até mesmo uma grande base de apoio. Mas do nada o Foggia transformou-se de uma equipa de meio de tabela da Serie C numa das revelações da Serie A. Uma ascensão meteórica que não aconteceu por acaso. Os pequenos “diavolos” do sul tinham participado na Serie A pela última vez a meados da década de setenta após se ter estreado na elite a principio dos anos 60, quando a entidade já tinha quarenta anos de uma anónima história ás costas. Foi no entanto Zeman quem mudou para sempre o rosto tímido da cidade e arrancou-lhe um sorriso. Dois anos de intensa loucura nas entranhas do Vesúvio do futebol italiano selaram duas sucessivas promoções do Foggia desde as catacumbas da Serie C até á elite. Tudo conseguido com um futebol frenético, ofensivo, intenso e extremamente atrativo que levou os mais cépticos a abraçar sem hesitação a bandeira do clube.

No seu primeiro ano na Serie A depois de um longo deserto – em 1991 – a equipa esteve entre as mais goleadores e também as mais goleadas, registos que se tornariam habituais na carreira de Zeman. 58 golos a favor cancelavam os 58 golos sofridos e uma mais do que meritória 9 posição na tabela classificativa de uma liga de estrelas. Muitos podem ter ficado na cabeça com o histórico triunfo do AC Milan no pequeno Pino Zacherria por 8-2, mas essa foi a equipa que nesse ano garantiu três empates conquistados a ferros contra gigantes como Nápoles, Inter e Fiorentina, todos eles candidatos ao titulo. Pontos de ouro no fim de contas conseguidos com um estilo de jogo que nunca renunciava ao golo como única solução.

Zemalandia, o outro lado do Calcio

Se havia algo que transformava o Foggia em algo especial era sem dúvida a vocação ofensiva da equipa. Zeman, um treinador de origem checa que tinha chegado a Itália graças á ajuda do seu tio, Cestmir Vycpale, então treinador da Juventus, tinha imprimido o seu gosto pelo futebol declaradamente de ataque. Numa liga como a italiana onde durante três décadas tinha dominado a figura defensiva do libero e tradição clássica do “catenaccio” a proposta parecia mais do que arrojada, suicida. Mas esses eram os anos de ouro do Calcio, anos em que a memoria do velho Torino era acarinhada e recuperada por uma legião de talentosos estrangeiros que davam um cunho profundamente estético e ofensivo ao jogo colectivo. Sem abandonar, é certo, a sua natureza defensiva, a liga italiana recheou-se de grandes goleadores internacionais e virtuosos do nível de van Basten, Gullit, Maradona, Careca, Voeller, Klinsmann, Laudrup ou Mathaus. Eram já a segunda geração de estrangeiros de quilate em poucos anos, a prova de que algo mudava. E esse algo sentia-se na natureza do próprio Foggia onde o 4-3-3 de Zeman encontrava espaço para a velocidade de Francesco Baiano, um prolifero avançado que apontou quase quarenta golos em setenta jogos com o clube, e para o talento de Roberto Rimbaudi.

Ambos secundavam na linha de golo uma das mais flamantes promessas do futebol italiano de então, um jovem adolescente que dava pelo nome de Giuseppe Signori e que, anos depois, convertia-se no avançado titular da “Squadra Azzura” depois de alcançar a notoriedade com a camisola da Lazio de Roma. A carreira goleadora de “Beppe” começou nessas tarde de sol na Apulia, aprendendo diretamente de Zeman a arte do golo. Nos seus anos com o Foggia apontou meia centena deles. Acompanhados do talento quase corporativista do romeno Dan Petruscu, do russo Igor Shalimov e do holandês Brian Roy, o polémico mas sempre irreverente treinador encontrou uma fórmula de sucesso difícil de repetir em qualquer tipo de circunstancia.

Do céu ao inferno da Apúlia

A memorável temporada de estreia do Foggia ficou na memoria de todos os que viveram esses vibrantes anos na abandonada cidade ao sul de nenhum norte. A celebração durou pouco. Como uma borboleta. Zeman tornou-se na grande sensação dos bancos da Serie A e foi rapidamente assediado pelos gigantes do Calcio.

Aguentou durante mais duas temporadas, tempo em que cunhou o termo “Zemanlandia” que, a partir de então, passou a ser a qualquer louco optimista que desafiasse as convenções do futebol transalpino. Nesses três anos o Foggia manteve sempre, contra qualquer expectativa, a categoria, terminando a metade da tabela com honra e engenho. Em 1995 a despromoção tornou-se inevitável. Zeman – já sem ovos disponíveis face ás sucessivas vendas dos seus melhores jogadores para tapar o buraco financeiro que o clube tinha acumulado no meio de tanto optimismo – partiu. Optou por assinar pela Lazio seguindo a sua própria carreira com os seus inevitáveis altos e baixos mas sempre fiel á sua filosofia. Signori transformou-se numa estrela por direito próprio na liga dos nomes mitológicos e os seus companheiros de ataque também acabaram por sair, procurando novos desafios. Nesse cenário desolador de ressaca absoluta, o clube nunca mais voltou á elite, deambulando entre as mesmas realidades paralelas onde vivia antes de ter transformado a cidade num dos mais belos “miracolos” do futebol italiano.

A memória desses anos loucos dos rossoneri do sul continua aí, como um suspiro que se sente sobre a brisa quando roça com as árvores que guardam memorias de tardes de golos e beijos roubados.

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