Flavio Gomes é um dos nomes fundamentais do jornalismo automobilístico brasileiro. Largos anos a cobrir eventos que vão do Mundial de Fórmula 1 aos torneios brasileiros de karts. É também um apaixonado confesso da Portuguesa dos Desportos, clube com origem na colónica portuguesa paulista.

No seu blog fala sem papas na lingua sobre o estado atual do futebol brasileiro ao mesmo tempo que nos seduz com as suas crónicas automobilisticas e as suas aventuras como piloto com o carro de corridas baptizado pelos seus leitores como Meianov.

Ao Futebol Magazine o jornalista confessou o desencanto com a gestão desigual do dinheiro que move o futebol brasileiro e a sua paixão pelas camisolas clássicas da Lusa na década de 70.

Entrevista a Flávio Gomes

Porquê a paixão pela Portuguesa?

Por que não?.Sempre rebato a essa pergunta. Mas tem dia e local, o início dessa paixão. E começou num estádio, como deve ser, em 8 de agosto de 1971, quando meu pai me levou ao Pacaembu pela primeira vez. Como estamos numa era de links e que tais, aqui está essa história:http://flaviogomes.warmup.com.br/?s=QUARENTA. Simplesmente me apaixonei por aquele time que perdeu o jogo para o Palmeiras. Uma torcida menor, mais colorida, diferente. São essas coisas de criança que não se explicam, mas são as mais autênticas e sinceras. E time de futebol é assim: a gente escolhe um e vai até o fim, aconteça o que acontecer.

A origem da Lusa, como o nome indica, está na comunidade portuguesa. Gomes não é apelido nem alemão, nem espanhol, nem italiano por isso suponho que o Flavio tenha origens nessa comunidade. Hoje ainda se nota que a Lusa é o clube dos descendentes de portugueses em São Paulo ou essa tradição foi-se diluindo e o clube é absolutamente multicultural?

Sou descendente de portugueses, alemães e italianos, como muita gente no Brasil. Minha escolha não teve nada a ver com isso, mas indiretamente, sim. Afinal, meu pai é filho de portugueses e se torce para a Lusa, é muito por isso. E se me levou a um jogo da Portuguesa e não a um do Santos ou do Corinthians, a razão é essa. O clube ainda é muito ligado à colônia, sim. Mas é claro que se veem torcedores de todos os tipos. E não vejo mal nenhum em ser um time ligado a uma colônia. A Portuguesa não é um clube excludente, embora o nome e sua origem, evidentemente, restrinjam um pouco sua popularidade.

Li muitas reflexões suas criticas contra a gestão atual do futebol brasileiro. O jornalista Juca Kfouri escreveu um dia que Deus compensou o mundo dando ao Brasil os melhores futebolistas e os piores dirigentes. Há salvação para o modelo atual da liga brasileira?

Não há. Como a TV Globo define quem vai ganhar quanto, em função de seus interesses nos índices de audiência, o abismo entre os clubes que recebem mais e os que recebem menos só tende a aumentar. Os clubes não são unidos. O modelo de distribuição de renda é uma aberração. Deveria ser como na Inglaterra, com parte do dinheiro sendo dividido igualmente entre todos e parte proporcionalmente aos resultados e índices de audiência. Seria algo mais honesto. Do jeito que está, há um falso equilíbrio, uma ilusão de equilíbrio, elitização, morte dos chamados pequenos.

A desorganização da Serie A brasileira remonta aos remendos politicos das juntas militares dos anos 70 e 80. O que é preciso para reestruturar a divisão competitiva profissional do futebol brasileiro? Voltar ao modelo estadual, remodelar a Serie A, criar um modelo híbrido?

Não há mais problemas quanto a regulamento. Desde 2002 que não há virada de mesa, golpes jurídicos etc. O campeonato é razoavelmente organizado. O problema, mesmo, é essa distribuição desigual de verbas.

Move-se por dois desportos onde o Brasil sempre teve um papel histórico, o automobilismo e o futebol. No entanto o impacto dos brasileiros nos dois desporto tem diminuído. No automobilismo não há atualmente um piloto brasileiro de elite e a nivel futebolistico desde há uns anos para cá que o escrete (e mesmo os clubes) têm estado muito por debaixo do que é expectável? Na sua opinião porquê esta decadência?

No automobilismo, é fácil explicar. O Brasil não tem mais categorias de base, o kart está cada vez mais caro, tem cada vez menos gente correndo de carro. Menos quantidade, menos qualidade. Não há política definida no automobilismo. Virou brinquedo de gente rica, evento corporativo, essas coisas. Nenhuma preocupação dos dirigentes em formar bons pilotos como na época da F-Chevrolet, F-Ford, F-Renault. Os jovens milionários que entram nesse mundo acabam em categorias como Stock Car, GT, essas coisas que custam caro, dependem de relacionamentos com patrocinadores etc. E o automobilismo perdeu popularidade na medida em que a relação entre as pessoas e os carros deixou de ser de paixão, admiração. Carro, hoje em dia, é que nem geladeira. O cara compra, depois vende, não se apaixona por ele, por uma marca, um modelo. No futebol, o problema é de gestão, mesmo. Não há pessoas de bem envolvidas com o macrocosmo do futebol brasileiro, que está infestado de gente que só pensa em fazer negócios, não tem uma visão lúdica e bela do esporte.

Tantos anos fazendo a cobertura do automobilismo, um dos jornalistas referências no Brasil, uma paixão tremenda por carros, tanto em pista como em colecção, nunca pensou em dedicar-se ao mundo do futebol exclusivamente?

Eu trabalho com futebol também, em rádio e TV. E trabalhei em revista, jornal. Um não exclui o outro. Mas já são muitos anos como “referência” no automobilismo, como você diz. É uma área que gosto.

Recuperando o seu texto sobre camisas de equipas, quais são para si as camisolas mais emblemáticas de que se recorda?

Ah, são muitas. Mas fico com os modelos clássicos sempre. Nada contra a modernização, mas para isso existe sempre a tal da terceira camisa, que permite algumas viagens dos designers e estilistas. No meu caso pessoal, as camisas da Portuguesa dos anos 70 são muito especiais. A vermelha do primeiro uniforme, a branca do segundo.

O Mundial de 2014. Um erro de gestão económica, logística e até desportiva como tem vindo a anunciar Romário ou uma oportunidade perfeita para demonstrar que o Brasil vive uma era dourada depois dos complicados anos 90?

Os dois. Seria uma ótima oportunidade se não houvesse tanta gente querendo ganhar dinheiro fácil. Acho que o governo deveria ter assumido isso desde o início, mas cometeu o erro de deixar na mão da CBF e de seus dirigentes obtusos e pilantras. Agora é tarde. Vários estádios vão se transformar no que chamamos de elefantes brancos. Se houvesse uma política de fomento ao futebol por parte da CBF, desenvolver o esporte nesses centros inexpressivos que vão ganhar estádios, seria legal. Mas estão preocupados apenas em ganhar muito com obras caríssimas. Acho que o Estado brasileiro não deveria embarcar nessa aventura como co-patrocinador. Ou faz tudo, ou deixa tudo nas mãos da iniciativa privada. Agora é tarde.

Por fim, que feito é que a Portuguesa precisa de lograr para ver-mos nas pistas o Meianov pintado com as cores da Lusa?

Nenhum. Não misturo futebol com automobilismo.

6.153 / Por
  • Victor hugo Guimaraes de Oliveira

    Parabéns Flavio! O Futebol Brasileiro precisa dos clubes pequenos,enquanto a toda poderosa TV GLOBO estiver abastecendo os Grandes Clubes com dinheiro (Quantias absurdas) não haverá disputa,grandes estadios pelo interior ficarão em ruínas.

  • Miguel Lourenço Pereira

    Victor Hugo,

    Sem dúvida o monopólio televisivo é um dos grandes problemas do futebol mundial em vários países. O Brasil, infelizmente, é apenas mais um caso em que os clubes ricos ficam ainda mais ricos e as pequenas e médias instituições, muitas delas históricas, acabam por não encontrar formas leais de competir.

    cumprimentos

  • Nagib

    Quero dizer pra este energumeno do Flavio Gomes que o GRÊMIO é um time de ponta, campeão do mundo, bi da libertadores, bi campeão brasileiro, tetra campeão da copa do Brasil. A Portuguesa, time que simpatizo e muito, por ser um time do interior e que não teve o apoio que outros time grandes tiveram, é sempre um coadjuvante a altura do futebol praticado pela maioria dos clubes brasileiros. Tanto que foram vice campeões não perdendo para o GRÊMIO (questão de regulamento). Mas ler os comentários porcos, preconceituosos de um pseudo homem, pseudo jornalista, pseudo torcedor é de dar pena e raiva ao mesmo tempo. Gostaria muito que este vagabundo falasse o que ele falou pessoalmente. Pra babaca a gente não responde, mas esta não passará em branco. E tu não viu o pênalti e o gol mal anulado a favor do GRÊMIO, não foi idiota????????? Tu julga os outros pelo teu caráter. Precisamos eliminar da sociedade este tipo de gente e a ESPN já começou. Vai fazer teus comentários em outro lugar palhaço.