O Financial Fair Play (FFP) é com certeza a maior e a mais relevante alteração na gestão dos clubes de futebol desde a Lei Bosman. Devido ao crescente número de falências de clubes, aquisições milionárias, endividamentos astronímicos e um fosso crescente entre as capacidades financeiras dos grandes clubes em relação aos restantes, a UEFA decide tomar uma atitude.

Em 2009 a UEFA divulga pela primeira vez o conceito Financial Fair Play (FFP), que juntamente com a criação do licenciamento dos clubes (UEFA Club Licensing) em 2010, visa implementar um conjunto de regras que tornem o futebol Europeu financeiramente sustentável e mais equilibrado.

Com a principal missão de obrigar os clubes a não efetuarem despesas superiores às suas receitas, gastando apenas o que têm e não o que podem vir a ter, o (FFP) é um sistema de controle e saneamento financeiro dos clubes que participam ou pretendem participar nas competições da UEFA. A exclusão das competições europeias, é aliás só por si, a principal alavanca para a implementação do Financial Fair Play, tendo em conta os prémios monetários destinados aos clubes nessas competições.

Afinal, como funciona o Financial Fair Play (FFP) da UEFA? Vamos explicar o sistema de uma forma simples em apenas 4 pontos;

  1. períodos de monitorização das contas dos clubes
  2. o que é calculado nas contas dos clubes
  3. resultados da avaliação das contas dos clubes
  4. sanções a aplicar aos clubes caso não cumpram as regras

1. Períodos de monitorização

Naturalmente este sistema não poderia ser implementado logo após a sua criação. Assim a UEFA criou períodos de avaliação das contas dos clubes de 3 anos (2 anos numa fase inicial). O Financial Fair Play entrou em vigor na temporada de 2013/14, estando já a ser levados em consideração os exercícios dos clubes correspondentes às temporadas de 2011/12 e 2012/13 (como se pode ver na tabela), onde os clubes não podem registrar perdas superiores a 45 milhões de Euros no conjunto das duas temporadas.

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Para 2014/15 os clubes não podem registrar perdas superiores a 45 milhões de Euros nas 3 temporadas anteriores (2011/12, 2012/13 e 2013/14). De 2015/16 a 2017/18 as perdas não podem ser superiores a 30 milhões de Euros.

2. Contas dos Clubes

Os cálculos do (FFP) são simples e incidem naturalmente na diferença entre os custos e as receitas dos clubes. A novidade é sem dúvida o método de contabilidade dos valores pagos nas transferências de jogadores.

(a) Receitas Operacionais – São contabilizadas as receitas provenientes de direitos de transmissão, publicidade, patrocínios, comércio e transferências de jogadores.

(b) Custos Operacionais –  São contabilizados todos os custos operacionais, custos com pessoal, custos de transferências de jogadores e amortizações dos seus passes.

(c) Exclusões ao deficit – Não estão incluídas as atividades do futebol de formação, extra futebol e salários de jogadores com contratos anteriores a Junho de 2010.

(d) Transferências de jogadores – A contabilidade dos custos das transferências de jogadores funciona da seguinte forma; Imaginemos que o Chelsea compra o Neymar ao Barcelona por 50 milhões de Euros pagos a pronto e oferece ao jogador 5 anos de contrato. O custo total da transferência (50M€) será repartido pelos 5 anos de contrato (10M€ por ano). Assim o Chelsea reportará custos de 10 milhões de Euros na aquisição de Neymar, todos os anos durante próximos 5 anos. Naturalmente o clube incluirá o salário anual do jogador nos seus custos anuais com pessoal.

3. Resultados da Avaliação

Este é também o ponto que pode definir o sucesso ou fracasso do Financial Fair Play (FFP), uma vez que podem surgir esquemas alternativos por parte dos clubes para colocarem as suas contas dentro dos limites permitidos sem cumprirem o estabelecido, ou aproveitamentos das omissões do documento. Existem quatro cenários possíveis como resultado da avaliação.

(a) Resultados operacionais positivos – O clube obtém resultados positivos no período de 3 anos em causa (3 exercícios). Obviamente a sua gestão está a ser efetuada com sucesso.

(b) Resultados negativos até 5 milhões de Euros – Os clubes podem apresentar resultados negativos de 5 milhões de Euros num período de 3 anos, sem sofrer qualquer sanção da UEFA.

(c) Resultados negativos entre os 5 e os 45 milhões de Euros – Os clubes podem apresentar resultados negativos num período de 3 anos entre os 5 e os 45 milhões de Euros (numa 2ª fase o valor máximo será de apenas 30 milhões de Euros por período), desde que o montante acima de 5 milhões de Euros, seja completamente suportado pelos proprietários dos clubes, ou seus acionista, através da criação de novas ações do clube totalmente subscritas pelos próprios. Isto pode ser um problema para o proprietário que poderá não voltar a ver este dinheiro, a menos que venda o clube ou receba dividendos das ações em exercícios futuros.

(d) Resultados negativos superiores a 45 milhões de Euros (numa 1ª fase e superiores a 30M€ numa 2ª fase) – O clube fica totalmente fora de todos os parâmetros/regras estabelecidos e sujeito a sanções imediatas por parte da UEFA.

4. Sanções e Punições

Sempre que um clube apresentar perdas superiores a 5 milhões de Euros, custos com pessoal acima de 70% das receitas totais, capitais próprios negativos, ou tiver salários em atraso, passa a estar sob avaliação do Painel de Controle de Finanças dos Clubes da Uefa. É então obrigado a apresentar relatórios trimestrais e planos para solucionar o problema. Se o clube ultrapassar os limites previstos nos pontos anteriores é aberto um processo disciplinar pela Uefa.

As sanções disciplinares são avaliadas individualmente levando em conta a situação do clube e pode dizer-se que estão divididas em 3 níveis. As sanções mais leves que passam por avisos, reprimendas e multas. Um 2º nivel de sanções que implica a dedução de pontos, retenção de prémios e proibição de inscrição de jogadores nas provas da UEFA. E as sanções mais graves como a desqualificação de uma prova europeia a decorrer, a inibição de participar em provas futuras, bem como a retirada de um título já conquistado pela equipa.

Conclusão “for Dummies”

Financial Fair Play (FFP) da UEFA é sem dúvida “for dummies”. E é “for dummies” porque são muitos poucos os adeptos do jogo a acreditar que este sistema será implementado de igual forma para todos os clubes, especialmente para os mais ricos e poderosos. A intenção é de louvar, o saneamento financeiro dos clubes é necessário, as medidas parecem ser as mais indicadas, no entanto, desafiar o poder instalado nunca foi uma missão fácil ou inconsequente. As contas dos clubes são conhecidas, as fragilidades da UEFA também, e todos aguardamos com expectativa sanções e punições aos incumpridores. Caso não aconteçam, estas regras são apenas “for dummies”!

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