Um estádio como alma de uma equipa perdida contra uma colina maldita. A memória como alavanca emocional de um grupo de adeptos habituado a sofrer. O Filadélfia é mais do que um campo para os seguidores do Torino. É a essência mágica de um clube habituado a sobreviver aos mais negros pesadelos.

A alma de Valentino

A 19 de Maio de 1963 o golo gritou-se pela última vez nas bancadas do Filadélfia.

Enzo Bearzot, o mesmo homem cinzento e introspectivo que levaria a Itália a vencer o Mundial de Espanha, em 1982, desferiu um remate que encontrou o caminho das redes do número um do Nápoles. Um gesto tão habitual para um estádio habituado a ver jogadores de excepção que custava acreditar que seria o último. O fantasma de Valentino, seguramente, tinha tido algo que ver com o golo.

Ele era a alma do Filadélfia. Mesmo depois de morto. Um destino traçado para o estádio que o viu crescer e transformar-se num dos deuses mitológicos do calcio. Poucos anos depois da mudança definitiva do Torino para o Stadio Comunalle, o aspecto do Filadélfia parecia recordar os dias do pós-guerra, com os seus bombardeamentos e misseis com desejos de golo. Foram várias as tentativas de adeptos e dirigentes de não deixar o estádio morrer. Como a grande equipa do Toro. Tentativas vãs. A glória dos granata tinha perecido em Superga. O seu palco preferencial estava destinado a sofrer o mesmo destino às mãos das autoridades do município de Turim e da especulação imobiliária, desejosa de fazer-se com os terrenos de um estádio desenhado para ser um dos mais emblemáticos faróis do futebol italiano.

A alma de Valentino

O estádio Filadéfila foi um dos primeiros recintos construidos propositadamente para a prática do futebol em Itália. Erguido em 1926 para transformar-se na casa do Torino, o recinto foi construido numa zona dos subúrbios de Turim, na continuação da rua Filadélfia, de quem recebeu nome e herança emocional. Tinham sido os primeiros emigrantes transalpinos, de regresso a casa, quem tinham baptizado a via e seriam eles os que abraçariam as cores do clube mais importante da cidade à época. A Juventus, nesses dias, era apenas a equipa dos trabalhadores da FIAT e pouco mais.

Durante os seus primeiros quinze anos, o estádio sofreu as primeiras renovações, para receber até trinta mil adeptos. Com os bombardeamentos da II Guerra Mundial o estádio ficou gravemente danificado, forçando uma nova obra paga pelos próprios sócios do clube das suas próprias poupanças. O investimento valeu a pena. Com o novo rosto do Filadélfia surgiu a sua era dourada. A dos meninos de ouro do Calcio, os dias do Il Gran Torino.

O projeto foi idealizado por Vittorio Pozzo, então selecionador italiano. Recomendou ao recém-empossado presidente do clube, Ferruccio Novo, que apostasse na formação do clube e numa série de jovens desconhecidos que militavam em clubes de segundo nível do norte de Itália. A pouco e pouco foi-se forjando uma formação mítica que dominou o futebol italiano como nenhum outro clube na sua história. Realizando a transição do 2-3-5 para o WM, o Torino desses cinco Scudettos consecutivos alinhava habitualmente com Bacigalupo, Ballarin, Maroso, Grezar, Rigamonti, Castigliano, Menti, Loik, Gabetto, Ossola, e Mazzola. Sobretudo Mazzolla. Génio individual, lider de grupo, Valentino era o simbolo perfeito desta geração única do futebol italiano. Goleador implacável, futebolista de excepção, das suas botas partiam os passes e golos que desenharam esses cinco anos de domínio incontestado. Ele era o herói e a alma do Filadélfia.

Os 15 minutos do Filadéfila

A conexão entre os adeptos e a equipa era total.

O célebre trompetista Oreste Bolmida brindava os jogadores com temas compostos especialmente a pensar neles em momentos distintos do encontro. Era tal a ligação emocional entre equipa e apoiantes que com o passar dos anos criou-se o que a lenda popular granata apelidou carinhosamente dos “15 minutos do Filadélfia”. Na realidade, tratava-se de um código entre jogadores. Aos quinze minutos do jogo em casa, Bolmida tocava nas bancadas o toque de assalto da cavalaria. Mazzolla levantava o braço aos seus colegas e dava o sinal. Até à meia-hora de jogo a equipa jogava a máxima velocidade, asfixiando o rival dentro da sua área. Era o período do jogo por excelência dos golos e do espetáculo. A maioria das vitórias do Il Gran Torino eram desenhadas nesse período de tempo especial. Em alguns casos, quando a vantagem já era significativa, Mazzolla e companhia recriavam-se com a bola ao som dos aplausos da bancada. Depois, à meia hora de jogo, voltavam ao ritmo habitual, preparando-se para o merecido descanso no balneário. Dizia-se na imprensa italiana da época que nenhuma equipa do mundo era capaz de sobreviver a esse quarto de hora, um período de tempo em que as bancadas de pedra tremiam.

O incerto futuro do Fila

Se à época tivesse existido a Champions League dos nossos dias, seguramente que o Filadélfia seria um dos campos que qualquer equipa europeia queria evitar. Mas viviam-se outros dias. Como campeão italiano, o Torino preparava-se para disputar a Taça Latina em Espanha na Primavera de 1949. Muitos imaginavam que ganhariam o troféu com relativa facilidade e que, inevitavelmente, a segunda edição teria lugar em Turim. Alguns faziam já contas à vida. Mas o destino com o Torino sempre quis ser especialmente cruel. Dois meses antes do arranque da prova, já com o título praticamente no bolso, o Torino viajou a Lisboa para participar na homenagem a Francisco Ferreira, capitão do Benfica, um jogador cobiçado há largos anos pelo presidente do clube. Desta vez o dirigente não viajou. Na viagem de regresso, o avião despenhou-se contra a colina de Superga, antes da aterragem. Não houve sobreviventes. O Il Gran Torino morria e com ele a era de glória do Filadélfia.

Durante dez anos o estádio manteve-se em ativo mas o peso dos fantasmas de Superga pesavam demasiado na mente dos adeptos, forçados a ver como a Juventus os superava em protagonismo nacional. Quando a equipa desceu à Serie B, em 1961, começou a estudar-se definitivamente a mudança de estádio que alguns estava maldito pelo espírito dos jogadores mortos. A mudança consumou-se em 1963. Durante as décadas seguintes, enquanto o Torino jogava no Comunalle (onde venceu o seu último título nacional, liderados por outro futebolista maldito, Gigi Meroni) o Filadelfia era deixado ao abandono.

Inicialmente o projeto do clube era aproveitar o desejo da câmara municipal em recuperar a zona para urbanização e transformar o estádio em prédios de habitação. Com esse dinheiro, reconstruir uma equipa para voltar à elite. Mas o sonho nunca se concretizou, a especulação imobiliária manteve o negócio em suspenso durante anos e de tempo a tempo aparecia alguém, um dirigente, um adepto, um milionário saudosista, disposto a reclamar a necessidade de voltar às origens. De voltar a casa.

Como uma ruína do império romano, abandonada ao seu destino, o Filadélfia mantém-se esperançado em conhecer um futuro melhor. O último projeto para dar vida ao sonho do Filadélfia foi apresentado aos adeptos do clube em 2011. Construir um recinto para 40 mil adeptos com um custo aproximado de 12 milhões de euros. Alguns seguidores do Toro sacaram as bandeiras, apenas para celebrar a ideia. Mas depois de tantas esperanças vãs, ninguém está disposto a cantar vitória antes do tempo. Afinal o Filadélfia já pareceu ressuscitar tantas vezes quantos muitos pensaram ver o espírito de Mazzolla levantar o braço ao som do trompete para cavalgar sem medo para o coração da área rival.

3.183 / Por