Ficheiro Secreto, toda a verdade sobre o caso Di Stefano Em 1953 Real Madrid e Barcelona lutaram pela contratação do melhor jogador do Mundo mas, afinal, quem tinha razão?

Não podia ser mais irónico que um dos primeiros encontros de Alfredo di Stefano com a camisola do Real Madrid fosse contra o Barcelona. Nos meses anteriores os dois clubes disputaram a sua contratação até às últimas consequências. No final ganhou o Real Madrid, o jogo e na mesa de negociações mas quem realmente tinha direito a ficar com o passe do argentino?

Real Madrid, um actor secundário

A 22 de Setembro de 1953 o estádio Chamartin recebia entre aplausos e vivas o homem que ia dar forma e sentido à história de um clube que, até então, era bastante periférico no futebol mundial e nem sequer podia presumir de ser uma das grandes potências dentro da própria Espanha. O Real Madrid a que Di Stefano chega nessa tarde de final de verão era uma versão modesta do que se tornaria, graças a ele. Na Europa era um semi-desconhecido e em Espanha um actor secundário, com apenas dois títulos de campeão, muito atrás do prestigio logrado não só pelo seu vizinho, o Atlético de Madrid, como também pelo Barcelona e Athletic Bilbao, em títulos e adeptos, os clubes de maior popularidade no país vizinho. Tudo mudaria a partir dessa mesma tarde que, ironicamente, terminaria com uma derrota no amigável frente ao Nancy francês por 4-2. Di Stefano tinha excesso de peso, há meses que não jogava um jogo competitivo e não conhecia em absoluto os colegas mas os destelhos de génio que foi deixando abriam o apetite para mais. E o seu impacto acabou por ser imediato. No final desse mesmo ano o Real ganhava o seu primeiro título de campeão nacional desde 1936 – quase duas décadas antes – e abria caminho á sua saga de hegemonia nacional e internacional vencendo nos anos seguintes, com a Saeta nas suas filas, mais cinco ligas e cinco Taças dos Campeões Europeus, o troféu feito à medida da sua lenda. Tudo isso marcou, definitivamente, a história do século XX no futebol europeu mas a mesma podia ter sido muito diferente se o argentino tivesse ficado em Barcelona, cidade á qual chegara, meses antes, para assinar pelo clube que realmente lhe interessava, a grande potência europeia da época, o FC Barcelona. Durante meses os dois clubes abriram hostilidades pela contratação do génio sul-americano e no final o triunfo do Real Madrid marcou um ponto de viragem fundamental na história do futebol e na relação entre os dois clubes. A razão sobre quem realmente devia ter sido o clube de Di Stefano foi ofuscada, durante décadas, pela propaganda de ambos clubes. Mas no fundo de cada história há sempre um poço de verdade e esta é a de Di Stefano e a sua chegada a Espanha.

A fuga de Di Stefano para a Colômbia

Em 1949 Alfredo di Stefano tomou uma das decisões mais importantes da sua carreira. Os anos mágicos de La Maquina, a equipa do River Plate onde ele actuava quase como um mero secundário tal era o leque de estrelas, tinha acabado e a rebelião andava no ar no futebol argentino. Vários jogadores, fartos das condições a que eram vetados pelos clubes, decidiu entrar em greve e o jogador decidiu secundá-los. Do outro lado do continente sul-americano tinham chegado já cantos de sereia. Desde 1948 que a liga colombiana começava a procurar ganhar o seu espaço no futebol sul-americano e à base de um importante investimento financeiro, tão similar ao da liga chinesa de hoje, decidiu começar a importar grande parte do talento do continente ao mesmo tempo que acolhia vários jogadores europeus, particularmente húngaros que faziam parte da digressão do Hungaria FC – a equipa de exilados políticos liderada por Ladislao Kubala – mas também jogadores britânicos desejosos de ultrapassar o baixo limite salarial praticado em Inglaterra. Muitos argentinos e brasileiros como o mito Heleno de Freitas assinaram igualmente por clubes colombianos e quando o interesse do Milionarios de Bogotá chegou aos ouvidos de Di Stefano este não pensou duas vezes.

O único problema é que a liga na realidade tinha-se rebelado contra a sua própria federação colombiana e como tal entrado em conflito com a FIFA. No meio das hostilidades burocráticas o clube não estava disposto a pagar nada ao River Plate argentino e sim a negociar directamente com o jogador. Desse modo, de forma unilateral, Alfredo di Stefano trocou a camisola dos Milionarios argentinos – como o River Plate é conhecido – pela dos Milionarios colombiano acompanhado de outro internacional albiceleste, Nestor Rossi. Em Agosto o jogador apresentou-se em Bogotá e começou a deixar a sua marca naquela equipa que ficou rapidamente conhecida pela sua eximia qualidade de jogo com o apelido de “Danubio Azul”, face á semelhança com o estilo de jogo danubiano tão respeitado á época. No entanto o Milionarios continuava na prática a disputar uma liga pirata e portanto banido de disputar torneios oficiais o que começava a frustrar o próprio Di Stefano até que uma oportunidade chegou para mudar o seu destino.

O Pacto de Lima e a intervenção da FIFA

No meio dos protestos dos clubes e federações sul-americanas, a FIFA enviou Ottorino Barassi ao continente para negociar um acordo entre todas as partes. Barassi é uma das personagens mais importantes e esquecidas da história do futebol mundial. Foi o responsável por esconder a Taça Jules Rimet, durante a II Guerra Mundial, e também seria, anos mais tarde, um dos principais instigadores da Taça das Taças e da Taça UEFA.

Barassi chegou a Lima para um Congresso excepcional onde ouviu todas as partes e logrou que um acordo fosse alcançado. Os jogadores seriam dos clubes colombianos até Outubro de 1954, momento em que voltariam a pertencer aos seus clubes de origem no Brasil e Argentina e os clubes colombianos, nesse período de tempo, não os podiam vender a outras entidades. Estávamos em 1951 e o Pacto de Lima devolvia assim à legalidade a liga colombiana. Oficialmente Di Stefano era jogador do Milionarios mas só o River Plate o podia vender a outro clube e, apenas, a partir de Outubro de 1954.

Nos dois anos seguintes o jogador consolidou a sua fama e numa digressão por Madrid, em Março de 1952, deslumbrou os adeptos espanhóis com um recital de futebol inesquecível numa tour organizada pelo Milionarios que culminou com uma vitória sobre o Real Madrid. Rapidamente Santiago Bernabeu identificou no argentino o homem certo para dar forma ao seu projecto. O Real tinha sido um dos clubes mais prejudicados pela Guerra Civil pela sua associação ao regime republicano e durante os quinze anos seguintes Bernabeu dedicara-se a recuperar o clube da falência ao mesmo tempo que o vizinho, o Atlético de Madrid – brevemente Atlético Aviacion – era apoiado directamente pelo regime franquista. Sem dinheiro para investir na equipa – a maioria foi gasto na edificação do estádio de Chamartin, inaugurado pouco antes – Bernabeu só agora tinha meios para procurar uma resposta á contratação, dois anos antes, de Ladislao Kubala pelo seu eterno rival. Kubala tinha estado a ponto de ser jogador do Real Madrid em 1951 mas a negativa de Bernabeu em aceitar o seu sogro, o técnico checo Fernando Daucik, como treinador, levou ambos a assinarem com o Barcelona, um negócio que teve o apoio directo do regime franquista, desejoso de converter Kubala num símbolo na sua luta contra o comunismo da Europa de Leste.

Agora Bernabeu via em Di Stefano a oportunidade de desforrar-se mas ia de novo voltar a contar com a rivalidade dos blaugrana que viam como Kubala, um alcoólico inveterado, a sofrer de graves problemas pulmonares que ameaçavam com acabar cedo com a sua carreira. Em Barcelona a ideia era clara. Se Kubala não se recuperasse, Di Stefano seria o seu sucessor. Se o húngaro voltasse á sua melhor forma, o clube contaria com dois dos melhores jogadores do mundo e seriam quase invenciveis. Nesse sentido o homem forte do Barça, Josep Samitier – ele também ex-jogador do Real Madrid nos anos trinta – deslocou-se até á Colombia para interessar-se sobre os desejos do jogador. Di Stefano foi claro. Adoraria a possibilidade de jogar na Europa e logo ao lado de Kubala mas a sua situação contratual era delicada e qualquer acordo tinha de passar pelo River Plate. Sabendo do interesse real dos dois clubes, Di Stefano tomou então uma decisão arriscada. Aproveitou uma digressão do Milionarios pelo Chile e voltou a Buenos Aires sem autorização, declarou-se em rebeldia e indicou que não voltaria a jogar pelo clube colombiano. Este, por sua vez, denunciou-o á FIFA por considerar que até Outubro de 1954 ainda lhe pertencia.

Samitier viajou então de Bogotá até Buenos Aires e depois de umas semanas negociando chegou a um acordo com o clube argentino. O Barcelona pagaria 4 milhões de pesetas e Di Stefano seria blaugrana a partir de 1 de Janeiro de 1955. Faltava apenas resolver o problema com o Milionarios e a FIFA para que o futebolista pudesse actuar antes e não sofrer ano e meio de paragem forçada. A 22 de Maio de 1953, Samitier e Di Stefano chegaram a Madrid e viajaram directamente de comboio até Barcelona onde o jogador foi apresentado aos colegas de equipa e fez as suas primeiras fotografias com a camisola do clube. Semanas depois chegou a família do futebolista e foi instalado na costa catalã pelo próprio clube. Ao mesmo tempo, ironia do destino, Kubala recuperou dos problemas físicos e voltou a tempo de ser determinante nessa Primavera na conquista de um novo título para o clube e, de repente, os dirigentes blaugrana pareciam já não ter tanta pressa em acelerar a situação com Di Stefano que foi ficando cada vez mais impaciente. Face ás suas queixas constantes e aproveitando a participação do clube no Mundialito em Caracas, o presidente do Barcelona Enrique Marti, reuniu-se com o seu homologo do Milionarios para tentar solucionar o impasse mas a situação emperrou em 27 mil dolares – o que pediam os colombianos para ceder o jogador até 1955 – e o dirigente cometeu o grave erro de anunciar á imprensa que, por ele e pelo clube, podiam esperar um ano por Di Stefano sem jogar – e sem receber salário algum – até ser oficialmente seu. A frase caiu como uma bomba em casa do argentino que rapidamente procurou uma alternativa.

A jogada de Santiago Bernabeu

A primeira coisa que Di Stefano fez foi sondar vários clubes italianos, entre os quais o Torino e a Juventus mas nenhum pareceu interessado em envolver-se numa disputa com o Milionarios. Ao mesmo tempo, face á impossibilidade de jogar em encontros oficiais com o Barça, Di Stefano era forçado a manter-se em forma jogando por modestos clubes catalães como o Palafrugell. Ao mesmo tempo Santiago Bernabeu, sempre atento, jogou a sua mão.

Em Maio de 1953 enviou ao seu homem de confiança, Raimundo Saporta a Bogotá, com os 27 mil dolares exigidos pelos colombianos ao Barcelona para cederem em forma de empréstimo o passe de Di Stefano até Outubro de 1954. O acordo foi assinado imediatamente e então Saporta tomou rumo a Buenos Aires para, por sua vez, negociar com o River Plate. Aí encontrou-se que o Barcelona já tinha pago metade das 4 milhões de pesetas acordadas pelo jogador, ficando a outra metade por pagar a partir de 1955. O acordo entre ambos os clubes era, portanto inviável, mas para Saporta ainda havia uma opção sobre a mesa. Da capital argentina partiu directamente para Barcelona onde se encontrou, em segredo, com o próprio Di Stefano. O jogador estava sem receber nenhuma ajuda económica do Barcelona há meses, vivendo em péssimas condições e sem poder sequer treinar com os colegas de equipa e abriu as portas a Saporta de par em par. No acto o vice-presidente do Real Madrid pagou de imediato os meses de salário que lhe correspondiam desde Maio a Outubro, já que naquele momento, face ao acordo com o Milionarios, Di Stefano era jogador do Real Madrid a título de empréstimo pelos colombianos. Para Di Stefano o gesto de Saporta foi decisivo para mudar de opinião sobre o desejo de preferir os blaugrana aos merengues.

Graças a esse adiantamento e à insistência da mulher do jogador, Sara Alicia, Di Stefano aceitou então mudar-se a Madrid e começou então um debate nos escritórios do poder em Espanha.

O duelo político mediado pelo Franquismo

Oficialmente o Milionarios não podia vender Di Stefano, segundo o Pacto de Lima, mas o acordo entre os dois clubes falava de cedência. Por outro lado, em Espanha, só o Barcelona, que já tinha pago metade do passe ao River Plate, tinha o direito legal de inscrever o futebolista e sem essa folha de inscrição o Real Madrid não o podia alinhar em jogos oficiais tal como não podiam eles próprios alinhar o jogador, até Janeiro, sem que o Madrid lhes cedesse os seus direitos. Ao mesmo tempo o governo franquista tinha acabado de decretar, por lei, a impossibilidade aos clubes espanhóis de assinar com jogadores estrangeiros pelo que nem sequer estava claro que o argentino afinal pudesse ser futebolista do Barcelona. Desesperado, Enrique Marti, presidente do Barcelona, decidiu então oferecer á Juventus fazer-se com o jogador a troco dos dois milhões de pesetas já desembolsados, para evitar que o futebolista ficasse em Espanha. Se a relação entre Di Stefano e o Barcelona estava por um fio essa foi a gota de que derramou o copo transbordado já que o jogador não fora sequer consultado sobre a possibilidade.

Em cena entrou então o Muñoz Calero, antigo presidente da federação espanhola e personagem fundamental na contratação de Kubala pelos blaugrana, dois anos antes. Marti pensou que a decisão da FIFA de o nomear como árbitro neste caso beneficiava o clube e cometeu um novo erro. Ofereceu devolver ao River Plate o jogador a troco do dinheiro já pago mas este já tinha sido gasto e os argentinos rejeitaram a oferta. A decisão fez Muñoz Calero entender que contar com Di Stefano desportivamente já não era tão vital para o clube blaugrana como tinha parecido, tal parecia ser a vontade de Marti em livrar-se do jogador, e assim propôs que o mesmo fosse partilhado durante quatro temporadas pelos dois clubes, rotativamente. Ambos os clubes aceitaram a decisão e assinaram o acordo sob os auspícios da própria FIFA e depois solicitaram ao governo franquista que levantasse a interdição da contratação de estrangeiros para oficializar a inscrição do jogador, primeiro como futebolista do Real Madrid e, a partir da época seguinte, como jogador do clube blaugrana. Semanas depois, o General Moscardó, ministro franquista dos desportos, assinou o decreto que dava a Di Stefano – e também a Faas Wilkes, do Valencia, Andrés Prieto, do Espanyol, e Carles Ducasse, do Valladolid – o critério de excepcionalidade. Foi a única vez que o governo franquista interferiu em todo o processo e fê-lo de forma equanime. O imbróglio parecia resolvido. Mas não estava.

Como o Barcelona perdeu Di Stefano

Tudo parecia indicar que a situação estava resolvida. O jogador seria partilhado e os custos também – com o Real Madrid a pagar os restantes dois milhões de pesetas ao River Plate. O que Enrique Marti não contava era com a revolta dentro das suas próprias filas ao acordo por ele assinado.

Ao voltar a Barcelona, Marti encontrou-se com a oposição de vários sócios e adeptos do clube por ter pacteado com o rival de Madrid um acordo que, aos seus olhos, prejudicava os interesses do clube. A situação foi tal que a 22 de Setembro, poucas semanas depois de assinar o decreto FIFA, Marti apresentou a sua demissão. Foram convocadas eleições e o ganhador Francisco Miró Sans, mas antes de este tomar posse, a Comissão Gestora, dirigida por Agustin Montal, decidiu finalmente prescindir dos serviços de Di Stefano.

O argentino não parecia mostrar nos seus primeiros jogos pelo Real Madrid – tinha disputado três encontros sem deixar grande impressão, passado de forma como estava – e a forma excepcional de Kubala e o medo que muitos tinham de que os dois jogadores, que eram na realidade excelentes amigos, não fossem compativeis, levou o clube catalão a aceitar a oferta do Real Madrid que se dispunha a pagar-lhes os dois milhões de pesetas adiantados ao River Plate meses antes. O acordo foi negociado e assinado em Madrid a 25 de Outubro de 1953, nas horas que antecederam o Clássico entre ambos clubes no Chamartin. No final da reunião, oficialmente, Alfredo di Stefano era já jogador plenamente do Real Madrid que se prestou imediatamente a pagar ao River Plate os dois milhões que faltavam. O Barcelona tinha cedido, voluntariamente, o futebolista a troco do investimento inicial e começou a pagar o preço dessa decisão nessa mesma tarde. As duas equipas chegavam a essa jornada empatadas a dez pontos na cabeça. Os merengues venceram por 5-0 com dois golos do argentino. A história do futebol começava a mudar e o destino de ambos clubes seria radicalmente diferente após aquele momento.

No final, sem ter tido qualquer ajuda do estado espanhol – que o máximo que fez foi permitir que o futebolista pudesse actuar pelos dois clubes – e com base num parecer da própria FIFA – o de partilhar o futebolista em quatro épocas alternadas – o Real Madrid acabou por ficar com Di Stefano apenas e só porque pagou o que todas as partes – River Plate, Milionarios e o próprio Barcelona – pediram pelo jogador. Se Enrique Marti tivesse, em Maio de 1953, pago os 72 mil dolares (cerca de 1,3 milhões de pesetas) pedidos pelo Milionarios, o génio argentino teria seguramente contribuído para que o clube catalão fosse, com ele próprio e Kubala em filas, a maior potência do futebol mundial. No final foi o Real Madrid que ocupou esse lugar e o Barcelona começou a viver uma larga decadência que só reverteu a final dos anos oitenta com a chegada de Johan Cruyff ao comando dos destinos do clube.

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