Em Novembro de 1976 a lista dos melhores marcadores da liga espanhola era liderada por uma série de futebolistas com quatro golos a favor. Outros tempos. Entre os primeiros da classificação encontrava-se Carlos Alberto Fenoy. Um nome como qualquer outro não fosse por uma curiosidade. Fenoy era guarda-redes.

O primeiro guarda-redes goleador

A fama de excêntricos dos guarda-redes sul-americanos estende-se no tempo desde os dias em que guardiões como Jaguaré – que passou pelo futebol europeu, incluindo o Sporting de Portugal – começaram a trazer para a posição mais solitária do desporto mais colectivo traços de comportamento especiais. Nas décadas seguintes o futebol sul-americano viveu uma série de episódios protagonizados pelos seus guarda-redes que sempre pareciam querer distanciar-se da fria e segura escola europeia, com todas as suas possíveis variáveis, para capturar praticamente a ideia de mais um jogador de campo sobre os postes que um solitário profissional de luvas nas mãos. Foi no entanto na década de setenta que o fenómeno definitivamente se instalou tanto no futebol brasileiro como no argentino, as grandes potências continentais.

A ascensão de Hugo Gatti, um dos mais polémicos e divertidos guardiões argentinos, assentou o precedente que outros sucessores foram explorando, cada qual á sua maneira. Uns gostavam de jogar adiantados, como liberos, sem ainda saberem que na Europa do Futebol Total isso já era praticada a consciência. Outros preferiam os malabarismos com a bola em situações de risco e havia ainda os dos equipamentos e acessórios originais. Fenoy no entanto optou por um caminho alternativo. Ele seria o primeiro de uma larga escola de guarda-redes goleadores graças à sua afição por marcar grandes penalidades. O recorde que ainda hoje ostenta o brasileiro Rogério Ceni começou a desenhar-se quarenta anos antes no futebol argentino.

Pichichi do Celta de Vigo em 1977

O primeiro golo de penalty que Fenoy anotou foi num duelo entre o Newell´s Old Boys, o seu clube, e o Velez Sarsfield, aquele que viria a ser o seu seguinte clube, em 1971. Num gesto quase inconsciente, arrancou da sua área para a contrária e pediu a bola para tentar a sua sorte. Nos treinos já tinha demonstrado maestria e confirmou-a debaixo da pressão de um jogo oficial. Foi o primeiro de um total de sete golos oficiais que conseguiu. Depois de passar os seguintes quatro anos sem voltar a tentar a sua sorte, partiu para Espanha e assinou pelo Celta de Vigo, então na segunda divisão.

No seu primeiro ano na cidade galega não disparou nenhum tiro de grande penalidade mas com grandes intervenções ajudou a equipa a subir á divisão de elite. Já com um novo treinador, Carmelo Cedrún, transformou-se no marcador oficial depois de num treino de pré-temporada ter pedido ao técnico para tentar a sua sorte não falhando nenhum dos vários disparos realizados. A primeira jornada do campeonato, em casa contra a Real Sociedade, ia permitir-lhe começar a por em prática os seus dotes de marcador de penaltis.

Depois de parar uma grande penalidade ao basco Muzurabal mediu a sua frieza ao mítico guardião Arkonada num mano a mano que entrou para a história. O golo deu o triunfo ao Celta e lançou a Fenoy na lista dos melhores marcadores, mantendo-o no topo até Novembro com mais três golos anotados, todos de penalti, contra o Elche, Las Palmas e ao Real Madrid, numa recarga à defesa inicial de Miguel Angel. Pela primeira vez na história um guarda-redes chegava a Novembro como um dos Pichichis da liga. Durou pouco tempo mas um último golo do ponto de castigo máximo, nas últimas jornadas frente ao mesmo rival da primeira volta, o Las Palmas, permitiu-lhe ampliar para cinco os golos esse ano. Foi o melhor marcador da equipa, à frente de qualquer jogador de campo, num ano desastroso que terminou com a despromoção dos “celtiñas”.

Nos anos seguintes o clube permaneceu na segunda divisão mas Fenoy nunca mais voltou a disparar nenhuma grande penalidade. Em 1980 abandonou o clube enfrentado aos adeptos e assinou pelo Real Valladolid. Foi em Pucela que marcou aquele que seria o seu sexto golo oficial na Primeira Divisão espanhola – o que o colocava como maior goleador histórico como guarda-redes da competição – num jogo entre o Valladolid e o Espanyol. Foi em 1984, oito anos depois da sua estreia como goleador. Três anos depois retirou-se no clube leonês e regressou á Argentina sem nunca ter tido no entanto a oportunidade de ser internacional.

Os sucessores de Fenoy

Polémico como poucos, “El Loco” Fenoy era tão conhecido pelo seu apetite goleador como pela atitude pouco competitiva que demonstrava nos treinos. Ao mesmo tempo que praticava como goleador recusava-se muitas vezes a defender a bola dos seus colegas nos treinos. Ficava parado no meio da baliza, braços estendidos e depois de cada remate decidia classificá-lo como “defendível” ou “indefendível”, dando a entender que se quisesse podia parar alguns dos disparos. Mas não queria e pura e simplesmente deixava-se ficar parado para desespero e raiva de muitos dos seus colegas de equipa. Não foram poucas as vezes em que se envolveu em problemas com os colegas ainda que na maioria dos casos ao “El Loco” lhe perdoassem quase tudo pelo seu reconhecido sentido de humor no balneário.

Mais tarde, na década de noventa, o guardião argentino Nacho Gonzalez igualou o seu recorde de seis golos oficiais vestindo a camisola do Las Palmas sendo no mesmo dia o responsável por marcar o golo mil da liga 2000/01 e por ser igualmente o primeiro guarda-redes a marcar dois golos num só jogo, frente ao Osasuna. Ironicamente uma das maiores referências mundiais de guarda-redes goleadores como o paraguaio José Luis Chilavert também passou pelo futebol espanhol mas conseguiu apenas marcar um golo, frente á Real Sociedad, precisamente a primeira vitima de Fenoy, o primeiro “Loco” das balizas a marcar penaltis.

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