Federico Peretti: “El Otro Futbol deixa as pessoas surpreendidas”

Onde tudo começou. Federico Peretti fala com o @Futebol Magazine sobre El Otro Futbol, um filme excepcional, uma viagem às entranhas do futebol argentino.

Mergulho na essência do futebol argentino

É na Argentina mas com a conversa entendemos que podia ser em qualquer outro lugar. E provavelmente será. El Otro Futbol não engana com o título. É sobre futebol, sim, mas não o espetáculo mediático que nos invade diariamente pela imprensa ou pela televisão. Documentário humano, é uma viagem ao futebol dos humildes, das províncias  das equipas sem estrelas, dos estádios que sobrevivem ao tempo e de mil formas de encarar o jogo.

Um trabalho que ultrapassa as dimensões nacionais e nos permite olhar, com consciência, para esse outro lado do espelho no universo futebolístico e todas as maravilhas que se escondem. El Otro Futbol viaja entre o norte e o sul, o interior e a costa, a imensidão de Buenos Aires e a simplicidade das aldeias perdidas nas linhas de fronteira. Fala de jovens potreros ambiciosos e velhos veteranos de mil combates, de clubes históricos e desconhecidos, de treinadores de futuro e de velhas raposas dos bancos. De gente, sobretudo, de gente que fez do futebol uma forma de vida.

O autor do documentário, Federico Peretti, conversou com o @Futebol Magazine sobre o filme, o futebol argentino e as camisolas dos potreros do futuro…

Entrevista a Federico Peretti

El Otro Futbol está para os documentários de futebol como Dickens para a literatura de consciência social. Trocaram o glamour pelo o outro lado do espelho de Alice, porquê?

Foi uma grande aprendizagem e começamos a dar-nos conta disso durante as filmagens. Quando arrancamos, em 2009, trazíamos alguns vícios desse circo mediático, mas quando começamos a filmar as primeiras histórias, tanto eu como Fernando Prieto (produtor e investigador do filme) dissemos um ao outro: “estamos a fazer aquilo que tanto criticamos, vamos procurar uma abordagem mais simples”. E assim foi. As coisas passam mas em lugar de as procurar decidimos ser pacientes e esperar e em vez de começar a perguntar decidimos ouvir. E assim decidimos fazer algo diferente ao que existia.

Viajar por um país tão vasto e complexo foi extremamente exigente. Como se consegue encontrar um fio narrativo complementar a tantas histórias diferentes?

As viagens planificaram-se com antecedência mas decidimos registar o máximo possível de imagens e estar aberto a tudo o que pudesse suceder e com isso encontramo-nos com histórias surpreendentes. E claro, fica aquela sensação de que, apesar de viajar entre o extremo norte e sul, entre zonas tão diferentes, a forma de sentir o futebol é exatamente a mesma, com essa paixão e entrega, não só pelas cores da equipa mas pelo esforço que esses clubes fazem em sobreviver. A maioria das viagens foram feitas no meu Daewoo Matiz de 2000, que hoje quase nem arranca. Em 3 anos fizemos 50 mil quilómetros.

Encontra-se com mais facilidade o espírito potrero em Ushuaia ou La Quiaca do que nos bairros de Buenos Aires?

Sem. Em Buenos Aires começa a viver-se um fenómeno triste e habitual, com os miúdos de rua a vestirem camisolas do Messi, do Barcelona, e do Ronaldo, do Madrid. Há pouco tempo vestiam as da sua equipa e isso começa a desaparecer nas grandes cidades. No bairro em que vivo, Villa Crespo, terra do Atlanta, isso ainda é raro mas no bairro vizinho, onde joga o Ferrocarril Oeste, vi um miúdo com a camisola do Neymar. Ou seja, em vez de estar com a camisola do seu clube está com a do extremo oposto, o representante do maior rival da Argentina. No resto do país isso ainda não existe, as pessoas continuam a jogar na rua com liberdade e com as cores dos seus clubes e para mim é uma boa notícia.

A Argentina é um país apaixonado pelo futebol, com grandes jogadores e treinadores no seu historial mas nunca teve um campeonato de primeiro nível mundial. Porquê?

Hoje em dia é muito difícil que alguém pare um segundo e pense que as coisas se devem fazer de outra forma. O presidente da Associação de Futebol da Argentina leva 30 anos no cargo, para que se tenha uma ideia. Desde que não se realize uma renovação em todas as estruturas do futebol argentino, vai ser impossível melhorar a situação. Houve grande treinadores que não dirigiram a seleção porque as pessoas continuam a insistir no “menottismo” vs “billardismo”, mas salvo os Mundiais que ganharam, nenhum dos dois realmente teve sucesso na profissão. Venceram uma liga cada um, venceram um Mundial (um em casa, com algumas suspeitas e outro com Maradona) mas na Europa e noutros clubes o modelo nunca funcionou. Mas essa polaridade é muito habitual do argentino, o bem e o mal, não só no futebol, e ninguém para para pensar como melhorar as coisas.

Nos últimos anos tem surgido uma corrente de adeptos que reclama um futebol mais solidário e menos corporativista. El Otro Futbol surge nesta tendência de movimentos como Against Modern Football, o FC United of Manchester…

É verdade, somos conscientes disso. Como dizemos, o futebol está tão metido na cultura de massas, no futebol de consumo da primeira divisão argentina, das ligas europeias que é difícil mudar a realidade. Mas imaginemos que algum destes clubes se transforma num caso de sucesso e entra nessa mesma espiral, tornando-se também um fenómeno de massas, onde ficam os princípios  No fracasso? É uma situação estranha à qual eu não sei responder. No nosso caso, o dilema é menor porque nos focamos exclusivamente no futebol das categorias inferiores e temos tido um feedback muito positivo de pessoas que vêem o filme e nos dizem, surpreendidos, que não pensavam que o futebol do interior fosse tão divertido. Para nós isso é um triunfo!

Spielberg disse que o futebol era muito dificil de filmar porque no fundo era uma coreografia de vinte homens em perpétuo movimento. Qual foi a dificuldade principal em dar vida a estas histórias e vidas a partir do relvado?

O que se passa no rectângulo já se vê em todos os meios, com mil angulos diferentes, slow motion, enfim, está tudo inventado. Por isso quisemos fazer um filme diferente, a uma realidade a que estás excluído se não és futebolista. Mostrar o que não vês se não estás sempre atento, as histórias que ocorrem nos bastidores, outras realidades. Em hora e meia acho que não chegamos a mostrar mais de cinco golos.

A sua formação como fotógrafo nota-se em cada frame e o fotógrafo também é um criador de mitos. Houve alguma fotografia que lhe desse a sensação de que iria ficar para a posteridade?

Ainda não tive essa sensação. Sei que já tirei muito boas fotos mas quero continuar a aperfeiçoar-me como fotógrafo e como trabalho habitualmente em documentários sei que uma boa foto sozinha é boa mas se está pensada, de forma complementar, a outra, melhor.

O futebol é o movimento socio-cultural mais importante dos últimos 100 anos?

“Tudo o quanto sei sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol”, dizia Camus. E tinha toda a razão. O futebol é o único fenómeno mundial onde um herdeiro de grandes fortunas no relvado pode levar o número 6 nas costas e com o número 2 jogar ao lado do filho de um operário humilde que não tem dinheiro suficiente para chegar ao fim do mês. Quando a bola começa a rolar, o futebol equipara as diferenças e essa revolução nunca se deu em nenhum outro sector da sociedade. Só o pode fazer o futebol, nada mais!

Apesar de filmarem exclusivamente na Argentina, a realidade do documentário é similar há de muitos países. Pensam na possibilidade de uma segunda parte noutras paragens?

Gostaria muito de o fazer e no último ano estivemos a investigar essa possibilidade. Apesar de não ser “o nosso futebol”, com a nossa visão podemos contar essas histórias em outros lugares do mundo. A conexão emocional é importante mas ás vezes temos de a deixar de lado para ser objetivos e gostaríamos de arrancar 2013 para arrancar com um projeto objectivo e honesto noutro futebol, noutro país.

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