Que adepto não sonhou em ser dono do seu próprio clube? Tentador, muito tentador. Em Manchester esse sonho tornou-se real para muitos adeptos insatisfeitos com o rumo do United. O gigante britânico caiu nas mãos da família Glazer e para muitos isso foi o fim.

Protestos em Old Trafford

Para o FC United of Manchester, foi o princípio. Os protestos à porta de Old Trafford, junto à estátua do velho Matt Busby, foram recorrentes ao largo de 2004 e 2005. Os adeptos indefectíveis do Man. Utd. protestavam contra o controlo da instituição pela família Glazer. Receavam que as dívidas contraídas pelo norte-americano, para se fazer dono do clube, transitassem para a instituição. Não o sabiam ainda, mas tinham razão. Os protestos foram inúteis, embora a ideia tenha ficado no ar.

Um grupo de adeptos decidiu levar o divórcio com os Red Devils um pouco mais longe. Imitando o exemplo que meses antes tinha sido seguido pelos adeptos do histórico Wimbledon, então em vias de desaparecer pelas dívidas acumuladas dos seus novos donos, estes fãs fundaram o seu próprio clube. Uma instituição democrática em todos os sentidos e que visava, essencialmente, recuperar o idealismo das origens do beautiful game. O Mundo viu o nascer do FC United como um pequeno fait-diver. Cinco anos depois ainda estão aí. Mais vivos do que nunca.

FC United, um clube para os Adeptos

Andy Walsh, director-geral do FC United of Manchester, contou ao Futebol Magazine que, entre outras coisas, são os próprios adeptos do clube que votam nas reuniões e, através da página web, em elementos tão básicos como as cores e o formato dos equipamentos, o design do logótipo ou o valor de cada lugar anual. Até o nome do clube foi elegido pela maioria dos adeptos numa votação histórica, salienta o dirigente. E assim tem sido. O clube espelha os últimos traços de idealismo de um jogo cada vez mais tratado como um negócio de muitos milhões.

Enquanto a dívida do Manchester United cresce de ano para ano, levando o clube a ter em risco a própria manutenção do emblemático Old Trafford, o pequeno clube dos “Red Rebels” prepara-se para construir o seu recinto. Modesto e com a típica estrutura britânica. Como tudo neste clube.

Desportivamente, o FC United foi um caso de sucesso. Nas ligas amadoras das distritais de Manchester chegou a levar 5 mil adeptos a um desafio no terreno rival. Um recorde. Durante as três primeiras temporadas, o clube foi subindo sucessivamente de divisão. Está pela quarta época consecutiva na Unibond Premier League, um dos últimos degraus até chegar aos campeonatos nacionais. E a ambição é a de ir cada vez mais longe. Mas sem vender a alma ao diabo. «O clube foi fundado para combater o comercialismo que rodeia o futebol», declara Walsh. «Está escrito na nossa constituição que nunca teremos patrocínio nas nossas camisolas», lembra. Caso sério, mas não único.

Entrevista a Andy Walsh

Qual foi a origem do projeto FC United of Manchester?

Os adeptos do Manchester United estavam cada vez mais desiludidos pela forma como o clube estava a ser gerido. Os preços dos jogos pelas nuvens, falta de atmosfera no estádio, mudança de horários constantes pela televisão, etc…. A compra do clube pelos Glazer foi o culminar dessas mudanças dentro do futebol inglês que desligou os adeptos do United do clube. À parte disso, os Glazer colocaram a sua própria divida dentro do clube para que fossem os adeptos a paga-la. Foi então que um grupo de adeptos que se tinham manifestado contra essa compra se juntaram para procurar uma alternativa. Um clube detido e dirigido por adeptos em beneficio dos adeptos. E aqui estamos, já na quinta época, e o FC United foi promovido 3 vezes e disputa agora a Unibond Premiar League (segunda divisão distrital de Manchester), atraindo mais de 2 mil pessoas por encontro.

Como se pode ser membro do clube e envolver-se na gestão do FC United?

O clube é dos adeptos. Pagamos 12 euros ao ano para ser donos e isso dá-nos o direito de voto para eleger os membros da directiva que coordenam o clube. Cada um pode votar em assuntos como os preços dos bilhetes, se o clube tem ou não patrocínio na camisola ou até mesmo o design de cada equipamento. O clube é gerido apenas por duas pessoas contratadas a tempo inteiro e de dois em dois anos há uma reeleição. É uma relação muito próxima. Temos orgulho de trabalhar com organizações da Grande Manchester. Investimos cerca de 250 mil euros em projetos comunitários nos últimos anos. Dinheiro que foi conseguido com doações de sócios do clube para trabalhar essencialmente com escolas de meios mais desfavorecidos e desenvolver a paixão pelo jogo junto dos mais novos.

Hoje em dia com o preço dos bilhetes pelas nuvens é quase impossível recuperar a velha imagem de uma família ir num sábado de tarde ver um jogo ao vivo. No entanto o FC United tem uma das maiores médias de assistências das ligas não-profissionais em Inglaterra. Como é possível manter o apoio popular depois de um primeiro ano de grande entusiasmo?

É verdade que a media de adeptos baixou ligeiramente depois da primeira temporada. Mas também é verdade que mantivemos desde aí uma massa adepta estável e leal que nos apoiam nos jogos em casa e fora. Esse fenómeno deve-se essencialmente a que aqui propomos uma alternativa barata à política de ganância pura da administração Glazer. Nos nossos jogos os adeptos podem voltar a sentir aquele ambiente tradicional do futebol inglês, famíliar e barulhento, onde os jogadores desfrutam de defender as cores do seu clube que também é o nosso a todos os níveis. Há um sentimento de pertença que com um clube como hoje é o Manchester United desapareceu.

O FC United é ainda um clube para os “Red Devils” insatisfeitos com a administração Glazer ou o tempo permitiu-lhe ter uma identidade própria?

O FC Utd é uma igreja que abarca um pouco de tudo. Fomos formados durante a compra do clube pelos Glazer, é verdade, e a esmagadora maioria dos adeptos do clube eram e são ainda adeptos do Manchester United, mas desiludidos com a realidade do clube. Mas também vamos conquistando cada vez mais adeptos que não estavam ligados ao clube e que desfrutam em poder participar num projeto como o nosso.

Num oceano de milhões por onde flutua o futebol hoje em dia como é que um projeto como o do FC United of Manchester se mantém à superfície?

Como todos os clubes vendemos merchandising. Mas só aquele que os adeptos pedem, garantindo aliás que todo o lucro vai parar a gestão do clube e não para uma conta bancária dos donos. Vivemos dentro das nossas possibilidade e não pagamos salários milionários. No entanto, o nosso objectivo principal é oferecer futebol acessível a todos e por isso, no inicio de cada época, convidamos cada adepto a pagar 100 euros mais uma doação. A ideia é que cada um pague o que acharia justo por um bilhete para toda a temporada. Dessa forma já logramos recolher, até hoje, mais de 110 mil euros.

Primeiro foi Murdoch, depois os Glazer. A equipa que formou o FC United sempre se mostrou preocupada com a política de aquisições mais ou menos hostis de clubes do futebol inglês pelos grandes magnatas. Agora que quase todas as equipas em Inglaterra têm problemas financeiros que resultam da politica dos seus novos donos… Acham que o futebol inglês pode estar a perder a sua própria identidade?

Como um clube detido exclusivamente pelos adeptos acreditamos num futuro onde todos os clubes serão geridos a todos os níveis pelos adeptos.

O nome do clube ou as cores do equipamento, por exemplo, são escolhidos pela comunidade. Há como uma sensação de viajar no tempo até aos dias em que tudo começou. Sente essa impressão quando entra no universo do FC United of Manchester?

Sim e não! Ao chegar a um jogo do FC United é inevitável recordar aqueles dias do passado com campos ruidosos, adeptos de pé atrás das balizas, camisolas sem qualquer patrocínio e jogadores que são apenas rapazes que pouco tempo antes torciam pelo clube nas bancadas. Mas também temos clara a ideia de que, para nós, um clube detido e apoiado pelos adeptos é o modelo do futuro para salvar o futebol.

O projeto de construir um estádio continua de pé?

Sim, claro que sim. Em realidade submetemos o nosso projeto às autoridades locais e estamos à espera de anunciar desenvolvimentos em breve.

Os primeiros três anos foram de sucesso desportivo absoluto. Agora que o FC United está, pela quarta época consecutiva na mesma divisão, qual é a real ambição do projeto? Acham que têm os meios e estrutura para trepar até aos campeonatos nacionais?

Cada que vez que subimos a um relvado, já somos ganhadores. Quando constituímos o clube tivemos de criar naturalmente metas e alvos para provar que devíamos ser levados a sério e que os nossos adeptos estavam a entrar num projeto de futuro. Durante estes anos aprendemos a gerir um clube de sucesso à medida que fomos escalando divisões. E sempre com o máximo respeito pelo adepto. Temos ambições de ir ainda mais longe – e criar o nosso próprio estádio é a prova disso – mas é impossível prever até onde podemos chegar. No final de contas depende do que aprovarem os nossos donos, os adeptos, e da ambição que o colectivo tenha para o futuro.

A maior base de apoio dos “Red Rebels”, como sois conhecidos, vive na área metropolitana de Manchester. No entanto o vosso projeto é conhecido um pouco por todo o mundo. Têm adeptos ativos fora das ilhas britânicas?

Sim, temos adeptos em todos os continentes. Muitos dos seguidores do clube acompanham a evolução do FC United através do nosso site (www.fc-utd.co.uk) ou através do nosso fórum (www.fcunitedofmanchester.co.uk). Temos também a felicidade de contar com um grupo de entusiastas voluntários que gerem a nossa própria estação de rádio, a FCUM Rádio, que emite os jogos ao vivo através da Internet, e uma televisão online, a FCUM.tv onde todos podem seguir resumos alargados dos nossos jogos gratuitamente. Para nós é sempre especial quando os nossos adeptos do resto do Mundo nos visitam uma tarde para seguir um jogo ao vivo em Gigg Lane.

Quando o FC United nasceu ficou claro que era um projeto de excepção. A maioria dos adeptos não leva a sua critica contra os donos dos seus clubes até ao mesmo nível que o vosso projeto. Acreditam que o sucesso do FC United pode inspirar fans de outros clubes a seguir o vosso exemplo?

Há já vários clubes detidos pelos adeptos em Inglaterra e felizmente já não somos a excepção. Por exemplo o AFC Wimbledon já mostrou que o modelo pode funcionar como uma forma clara de protesto e uma boa alternativa para um clube de futebol que é resgatado das suas origens pelo poder financeiro. Os membros do clube foram de uma enorme ajuda quando começamos. O FC United nasceu por motivos diferentes mas partilhamos todos a mesma crença. Desde então tem havido movimentos noutros clubes, como o Newcastle, com os adeptos a criarem as suas campanhas de sensibilização para tomar posse do clube e ficamos felizes de ver que a nossa filosofia se expande.

O FC United of Manchester não foi o primeiro clube de adeptos em Inglaterra. Meses antes já o mesmo tinha sucedido com o Wimbledon que foi ressuscitado por um grupo de fãs que não admitiram a gestão destruitiva da última direção do clube. Nem é o último caso. Vários grupos de adeptos, impulsionados pelo exemplo do FC United, têm-se reunido à volta dos mesmos ideais.

Há também em Manchester um movimento que visa recuperar as bases do Manchester City, depois da entrada em força do capital árabe no clube. E em Newcastle, clube que no ano passado sofreu na pele a descida de divisão por problemas financeiros, começa a formar-se já um projeto com as mesmas características. O fenómeno, como o jogo, começou a formar-se em Inglaterra, mas o futuro pode reservar surpresas. Talvez ainda exista gente como Andy Walsh que sentencia que o futuro do jogo está apenas nas mãos dos adeptos.

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