O futebol moderno quer ter uma cara nova. A terceira geração de grandes estádios vai assaltando, pouco a pouco, os grandes clubes do futebol mundial. Para muitos é a sua terceira casa depois de largos anos. Atrás desta nova metamorfose surge a assinatura dos mesmos nomes. São os construtores das novas catedrais.

As exigências do novo futebol

Wembley. Emirates. Maracanã. Allianz. Juventus Stadium.

São apenas alguns exemplos. Talvez os mais icónicos. O futebol está a mudar. O negócio apoderou-se definitivamente do jogo. O espetáculo, o entretenimento, as trinta câmaras a transmitir os encontros em directo deram uma nova cara ao jogo do povo. Os antigos estádios, a maioria com quase cinco décadas às costas, com uma que outra lavagem de cara, não aguentaram a mudança de ciclo. Eram fieis reflexos do que o jogo já foi e dificilmente voltará a ser. Pequenos, incómodos, sem espaço para as grandes companhias instalarem os seus camarotes corporativos, sem ecrãs de última geração e corredores para encher de lojas e negócios de multinacionais. Estádios para o povo num desporto que já pertence a outros, aos que são capazes de o sufragar economicamente.

A crise do hooliganismo, a finais da década de oitenta, alertou as instituições e os clubes para a necessidade de se prepararem para uma nova era. Primeiro veio a obrigatoriedade de sentar todos os espectadores. Com isso a maioria dos recintos viram reduzida a sua capacidade e deixaram de fora muitos adeptos veteranos. O preço das obras de melhora ou reconstrução foram pagos pelos que encontravam agora bilhetes a preços proibidos. Mas que continuavam a pagar. A saga começou com o Itália 90, o primeiro Mundial que provocou uma significativa melhoria de infra-estruturas numa liga de topo europeia. Durante a década de noventa a metamorfose prosseguiu em Inglaterra, França, Holanda e Espanha. A maioria optou por manter os velhos estádios, muitos deles tão antigos quanto o próprio jogo. O nascimento do Amsterdam Arena deu inicio a uma nova era. A uma nova idade das catedrais.

Os arquitectos dos novos estádios modernos

Nos últimos vinte anos têm-se multiplicados os novos estádios de futebol de topo. Construidos de raiz, preparados para os novos tempos. Atrás deles estão quase sempre os mesmos nomes. Os mesmos arquitectos que, com os seus estudios, lideram este novo movimento estético. Criticados pela maioria por terem retirado a alma e a identidade cultural a muitos recintos em prole de modelos cada vez mais estandardizados, estes novos construtores de catedrais têm de conjugar duas linhas de concepção diametralmente opostas. Por um lado procurar manter uma ligação, ainda que ténue, com o passado e a lembrança nostálgica dos adeptos. Mas por outro, num mercado cada vez mais competitivo, cada estádio tem de ser o suficiente inovador e atrativo para atrair investimento, publicidade, empresas e dinheiro. Muito dinheiro.

Entre os grandes nomes por detrás desta nova metamorfose estão vários nomes que a maioria dos adeptos pura e simplesmente desconhece. Estúdios como Populous, anteriormente conhecido como HOK Sports e liderado pelo influente Norman Foster. O gabinete de Michel Macary, o homem por detrás do Saint-Dennis e a renovação de vários campos de futebol em França. A empresa suiça Herzog and de Meuron, constructora do inovador Allianz Arena ou a GMP alemã que não só operou a maioria das construções de estádios na Europa de Leste nos últimos anos como está encarregue de liderar o projeto de remodelação do novo Santiago Bernabeu.

O que arrancou em 1996 com o novo estádio do Ajax tem-se prolongado nos últimos vinte anos com cada vez maior rapidez. Dos grandes palcos do futebol internacional cada vez mais são novos ou foram totalmente remodelados nos últimos anos. As grandes competições são o melhor pretexto para dar um passo em frente. Em Portugal o Euro 2004 trouxe consigo um novo estádio (ou profundas remodelações) para todos os clubes de topo, projetos liderados por grupos internacionais (como o novo estádio da Luz a cargo da Popolous) ou por eminências nacionais (Tomás Taveira no caso de Alvalade, Manuel Salgado no do Dragão). No Brasil foi o pretexto há muito ansiado para dar uma nova cara ao velho Maracaña. O sonho dos ingleses em receber um Mundial precipitou o fim do velho estádio do “império” para o nascimento do novo Wembley (também ele desenhado por Foster). O passo em frente do Arsenal, que trocou o fabuloso mas pequeno Highbury pelo novo Emirates foi o pontapé de saída para muitos clubes ingleses começarem a sonhar com novos estádios. Projectos que estão no ar mas devem ganhar vida brevemente. Em Itália foi a Juventus que decidiu abandonar o velho conceito de campo comunitário depois do descalabro que foi o Dell Alpi para construir o seu Juventus Stadium. Um passo que brevemente será seguido por Roma e Inter de Milão. Em Espanha, onde a maioria dos clubes continua a utilizar os mesmos estádios de há cinquenta anos (com algumas melhorias importantes) o novo San Mamés deu o tiro de partida para uma nova era colocando ponto final a um dos recintos mais emblemáticos do Mundo. Os anunciados projetos dos novos Camp Nou (Popolous), Bernabeu (GMP) e o novo campo do Atlético de Madrid (Cruz y Ortiz) devem estar concluídos até ao final da década. Com eles termina também uma era.

As catedrais para os adeptos de amanhã

Ao contrário de Archibald Leitch, o primeiro grande construtor de catedrais da história do beautiful game, estes novos estúdios de arquitectura vivem distantes dos olhares públicos. A esmagadora maioria dos arquitectos trabalham em equipa, misturam-se em grupos e são figuras pouco mediáticas. Vivem atrás de uma cortina que os transforma em personagens ainda mais misteriosas. Eles são os responsáveis de que os adeptos consigam conciliar as exigências das novas comodidades com a velha paixão carnal provocada pelo êxtase dos dez últimos minutos do jogo das suas vidas.

Com estes novos estádios o futebol caminha para uma terceira vida. Aos campos dos anos que antecederam a destruição e o caos da II Guerra Mundial seguiram-se estádios que duraram mais de cinquenta anos. Os monumentos de pedra da Europa do Sul e da América Latina – alguns ainda vigentes – e os velhos campos de madeira, rectangulares e imponentes do norte da Europa fazem parte do ADN emocional de qualquer adepto que lembra com nostalgia alguns desses cenários desaparecidos e olha com apreensão para os sobreviventes. Para Anfield Road, para o Westfallenstadion. Para o San Siro ou o velho Camp Nou. Todos têm as suas horas contadas porque a evolução do modelo de negócio que explora a alma do jogo assim o exige.

Serão para os adeptos do futuro apenas longínquas lembranças do que para nós hoje são campos como as Salésias, em Lisboa, o Metropolitano de Madrid ou o Oval Stadium de Londres. E se para nós Leitch e os seus contemporâneos nos transmitem uma sabedoria quase milenar, o futuro saberá olhar para estes novos arquitectos de sonhos da mesma forma. É o destino do mundo!

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