Estacionar o autocarro, ou o Ferrolho Suíço de Karl Rappan

Os italianos popularizaram o “catenaccio”, mas a essência do jogo defensivo de contenção e golpe remonta aos ensinamentos de um mestre austríaco que viveu os anos dourados do Wunderteam para perceber que há equipas que só se podem travar com uma disciplina defensiva extraordinária. Nasceu assim o “ferrolho suíço”, a mais polemica invenção táctica da história, obra e graça do maestro Karl Rappan.

Eficácia suiça

Hoje chamam-lhe “estacionar o autocarro“. Populariza-se uma forma de jogar que tem mais de 60 anos. O de jogar atrás. Sempre.

Muitos se queixaram que no último Mundial a futura campeã do Mundo, Espanha, teve de defrontar várias equipas que se fecharam na sua área para aguentar o futebol de tiki-taka dos espanhóis. E curiosamente foi contra a Suiça que a Espanha abriu a prova. E perdeu pela única vez no torneio. Os suíços, fieis à sua herança, souberam mostrar que, passados tantos anos, continuam a ser eles os maestros do ferrolho. Da contenção suprema. Do contra-golpe oportunista, cínico e eficaz.

Os amantes do futebol romântico desprezam os puristas do jogo defensivo. São os que ignoram os grandes defesas ou médios defensivos como alguns dos melhores do Mundo. Apenas porque a sua missão é destruir, evitar o golo. A regra básica do jogo. Até aos anos 50 as defesas eram, muitas das vezes, anárquicas e inofensivas. O jogo disputava-se mais no miolo, mas com o futebol de extremos, as oportunidades de ambas as partes multiplicavam-se em relação aos dias de hoje. Os resultados eram outros e habitualmente prevalecia a equipa mais talentosa. Que era também, habitualmente, a mais rica e poderosa. O talento era a arma dos ricos. A defesa tornar-se-ia na arma dos mais pobres.

A mutação táctica do WM para o 4-2-4, durante a década de 50, assistiu a uma reorganização do sector ofensivo onde passaram a actuar, de forma fixa, quatro elementos. Nasceram os laterais, ofensivos ainda na sua génese, e os centrais de marcação passaram a contar com a preciosa ajuda do médio de contenção. Assim se deu um imenso salto qualitativo no jogo da década, com a Hungria, na primeira metade, e o Brasil, na segunda, como principais artífices desta mutação. Equipas de grandes avançados, com grandes defesas. Mas eram equipas balanceadas para a frente, com uma menor preocupação defensiva. Estavam ainda longe do modelo apresentado, anos antes, de Karl Rappan. Um homem que chegou para remodelar por completo o futebol mundial.

A cartilha de Karl Rappan

O técnico austríaco nasceu em Viena em 1905.

Durante a sua juventude foi praticante amador no Rapid Wien, onde passou praticamente desapercebido. Em 1931 mudou-se para a Suiça, actuando durante cinco anos pelo Servette, onde venceu duas ligas. No final da sua carreira desportiva ficou pelos Alpes suiços. Rappan era um avançado móvel e conhecia bem as debilidades da organização defensiva da maioria das equipas. Nas suas primeiras iniciativas como técnico, no Grashoppers, Rappan começou a desenvolver um modelo táctico que explorava ao máximo o trabalho defensivo. Misturando o WM com o 2-3-5, Rappan defendia que a sua equipa devia posicionar-se toda atrás da linha de meio-campo, esperando pelo rival. Ocupando estrategicamente todos os pontos de ataque do rival, com extremos transformados em falsos laterais, o objectivo era evitar que a bola se aproximasse demasiado da baliza e recuperá-la no miolo, para depois provocar rápidos contra-ataques contra a descompensada equipa rival.

Assim nasceu o “Ferrolho Suiço“.

O sucesso foi imediato. Rappan quando venceu cinco ligas com o Grasshoppers em oito temporadas. Uma equipa sem nenhum talento individual, mas com uma disciplina férrea. Durante muito tempo o técnico defendeu que o WM, e mais tarde o 4-2-4, dependiam em excesso do talento do indivíduo. Para ele isso era o de menos. O que valia era a força do colectivo, que marcava à zona na linha do meio-campo, e ao homem perto da grande área. Os jogadores rivais eram totalmente cercados, os espaços reduzidos e apesar da posse de bola pertencer quase sempre à equipa mais talentosa, esta pouco ou nada podia fazer com ela. Estava atada. O técnico deslocou um dos avançados para junto dos defesas, e criou assim a base do 5-3-2, quando o 4-2-4 era ainda uma miragem táctica.

Sucesso internacional

A grande prova de fogo do sistema surgiu em 1938 no Mundial de França.

Karl Rappan tinha sido nomeado selecionador suiço, uma equipa sem grande tradição em competições internacionais. As expectativas eram baixas mas já antes do Mundial começar a Suiça tinha batido, de forma surpreendente, a Inglaterra em Basileia.

Até que chegou a poderosa Alemanha nazi, reforçada com alguns dos talentos austríacos do Wunderteam que Rappan tanto apreciava. A equipa germânica, patrocinada por Hitler, era uma das máximas favoritas para vencer o torneio inspirado no celebre Der Blau Elf. Mas foi incapaz de penetrar a dupla linha defensiva suiça. O jogo terminou com um 1-1 (o golo suíço marcado num contra-ataque, inevitavelmente) e no jogo de repetição, os suiços impuseram-se por 4-2 contra uma equipa alemã cansada do esforço fisico do dia prévio. Três dias depois a equipa helvética perderia por 2-0 contra a finalista Hungria, mas estava dado o sinal. Rappan voltou ao cargo em vários períodos, incluindo o Mundial de 1954, organizado na própria Suiça. Aí bateu a equipa italiana por 3-1, num duelo que acabou por se tornar na grande inspiração táctica para Nereo Rocca dar a primeira forma ao catenaccio que viria a pautar o modelo organizativo do jogo italiano nas décadas posteriores graças ao trabalho dele próprio e do mítico Helenio Herrera.

Rappan continuou a ganhar títulos na sua Suiça adoptiva e, progressivamente, as suas ideias começaram a conquistar admiradores. No entanto, para os românticos do jogo, o seu modelo roçava a blasfémia e as suas equipas eram habitualmente tratadas como formações menores. Para muitos incluir Karl Rappan na lista dos melhores treinadores da história é algo impensável. No entanto o austriaco, que também esteve por detrás da invenção da Taça Intertoto nos anos 60, foi talvez o maior entendedor da organização defensiva pura. As suas equipas venciam a esmagadora maioria das vezes, precisamente porque sabiam defender melhor que qualquer outra equipa. O ataque era apenas uma consequência natural do organizado processo defensivo. Um pensamento de base que foi transformado e radicalizado por alguns técnicos profundamente defensivos mas que também serviu de base para o aperfeiçoamento táctico de algumas das equipas mais ofensivas da história. A herança de Rappan ainda hoje sobrevive.

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