Ernesto Che Guevara, seguramente mais do que um clube

A vida está repleta de pequenas ironias. Numa pequena cidade com nome de Jesus Maria é a memória de Ernesto “Che” Guevara que traz anualmente pessoas dispostas a conhecer mais sobre o clube que acredita que o futebol pode existir sobre a mesma base de igualdade social predicada pelo revolucionário argentino.

Sob a palavra do Che

Não têm campo próprio, propriedades a seu nome e não jogam com a ambição de destronar os poderosos River Plate e Boca Juniores do trono do futebol argentino. O seu futebol é de luta, de causas, de imagem. Imagem de um homem que se tornou num dos grandes ícones sócio-culturais do século XX. E que é uma figura omnipresente na história deste clube diferente de tudo e todos.

Club Social Deportivo y Cultural Ernest Che Guevara.

Um nome imenso, em tamanho e em ideologia. Um nome que não funcionaria seguramente na politica de marketing agressivo a que os grandes clubes hoje em dia estão sujeitos. Demasiadas palavras, demasiadas siglas, demasiada ideologia. Para os sucessores espirituais do “Che”, esse é o principio do seu sucesso. O futebol é uma consequência da revolução que só acontecerá nas suas cabeças. O meio, se quisermos, da mensagem que ninguém quer deixar morrer. Em Jesus Maria, uma pequena localidade a 50 km de Córdoba, onde o filho de médicos cresceu,  no coração da Argentina, a palavra do filho de Deus vale menos que a mensagem do pai dos revolucionários modernos.

Hasta la victoria siempre” não é só uma frase feita. Está presente em todos os lugares da cidade e no ADN do clube. Na camisola, vermelha e negra, como manda a tradição, o rosto icónico do Che e a sua frase mítica substituem a publicidade moderna entrega a qualquer empresa. Nesta instituição o lucro é emocional, o dinheiro uma questão com a qual preferem não lidar. Eles falam outra língua.

Futebol para todos

O clube nasceu em 2006, fusão de pensamentos e ideologias de militantes de esquerda e amantes do futebol, homem e mulher, parceiros nesta busca pelo santo graal espiritual com que Guevara despertou a consciência sul-americana para a revolta. Claudio Ibarra e Monica Nielsen decidiram que criar um clube de futebol amador não era suficiente. Tinham de o criar à imagem e semelhança dos ensinamentos do “Homem Novo” que Guevara defendia e encarnava em vida. O revolucionário, ele próprio um apaixonado feroz do jogo, apesar da sua paixão pelo rugby também gostava de jogar à baliza, teria ficado orgulhoso da herança deixada.

No CSDC Ernesto Che Guevara não existe o conceito de posse. Os jogadores que actuam pela equipa não lhe pertencem. São livres de jogar por qualquer outra equipa e não estão atados à instituição a não ser pela mesma ideologia que professam. O campo de jogos de Colonia Caroya, uma localidade vizinha, é alugado pelo clube para os jogos porque nem Nielsen nem Ibarra acreditam na posse material como filosofia de vida. A sede da instituição está em sua casa, onde as portas estão sempre abertas a todos. Depois dos treinos aí toma-se o mate e fala-se sobre o jogo e sobre a realidade politica e social em que vive a nação argentina.

A equipa treina três vezes à semana e sobe ao terreno de jogo com as cores e palavras do “Che” a latir no coração. Nas bancadas, mensagens de cariz social e político da sua cada vez maior massa adepta, dá um colorido especial a estes jogos da Liga Amadora de Colón. É graças à feira artesanal local que o clube sobrevive. Os elementos da directiva vendem productos associados à imagem de Guevara, de posters a camisolas, de pins a livros, e com os lucros financiam-se de forma sustentada. O objectivo final não é trepar na tabela classificativa e chegar às divisões profissionais. A filosofia do clube aposta na base, no desenvolvimento de um futebol de formação para as crianças e adolescentes da zona que não têm condições para jogar noutros clubes. Tirá-los das ruas e da criminalidade juvenil e imbuí-los na mensagem solidária do “Che” com a ajuda de uma bola de futebol tornou-se num dos símbolos deste projeto que aos seis anos de vida supera já todas as expectativas iniciais.

Nessa luta contra o futebol como um negócio, a filosofia do CSDC Ernesto Che Guevara não só se aproxima de movimentos sociais como Against Modern Football como tem coleccionado admiradores um pouco por todo o Mundo que procuraram peregrinar até à pequena localidade para sentir-se parte, de certa forma, desta filosofia alternativa que encara o futebol como um bem cultural de todos e para todos.

2.007 / Por