Enfield Town FC, o primeiro clube dos adeptos

Cansado de como os dirigentes desportivos gerem o seu clube? A solução, para os habitantes da modesta Enfield, foi simples. Fundar um clube novo controlado totalmente, desde o primeiro dia, por todos os adeptos. Um clube de todos para todos.

A iniciativa pioneira

Antes do FC United of Manchester ou do AFC Wimbledon. De fenómenos mais recentes como o renascimento do Sport Comércio e Salgueiros como Salgueiros 08. Antes de todos esses projetos desenhados por genuínos adeptos, estava o Enfield Town FC.

Não é um clube com glamour. Não enche estádios, chega às capas dos jornais nacionais e desperta curiosidade entre os espectadores neutrais, desejosos de conhecer as últimas novidades das estrelas globais. Mas é um projeto que sai desde o coração e alma da condição de adepto de futebol. Um farol para o que veio depois, em plena crise económica e de valores. Em 2001, o Enfield Town FC tornou-se no primeiro clube fundado e gerido exclusivamente por seguidores do abandonado Enfield FC.

A partir desse momento nada voltou a ser igual no futebol. Os adeptos de todo o Mundo chegaram à conclusão que era possível seguir uma equipa gerida desde a paixão daqueles que percorrem quilómetros, gastam as suas poupanças e gritam até ficar sem voz por amor à camisola.

O grito de revolta dos adeptos

Em 1999 os habitantes de Enfield ficaram chocados com a notícia da deslocação do modesto clube local – um habitual das ligas regionais do sul do país – para a vizinha localidade de Borehamwood. O motivo era a venda do estádio local, de pouco mais de dois mil assentos, para a construção de edifícios de luxo. A decisão, prometiam os donos do clube, era meramente uma medida temporal até o Enfield construir um novo campo num terreno do município. Mas o negócio nunca se concretizou e o “temporal” prolongou-se por dois anos. Período de tempo suficiente para as centenas de adeptos entenderem que os donos do clube estavam pouco interessados na opinião dos adeptos locais e que procuravam apenas capitalizar o seu negócio imobiliário. Sucederam-se várias reuniões e em 2001 nasceu a Enfield Supporters Trust, um grupo de adeptos dispostos a tudo para recuperar a sua herança desportiva mais simbólica, o clube local.

A associação encetou negociações diretamente com a direção e num principio parecia que o problema seria resolvido com a compra das ações do clube pelos adeptos que herdariam um clube sem dividas mas também sem estádio. No último momento, o dono, Tony Lazarou, cancelou um negócio apalavrado. Foi a última gota. Os adeptos anunciaram formalmente a constituição de um novo clube, inscrito com o nome de Enfield Town FC e as cores do município como emblema. Pela primeira vez na história moderna do futebol, um grupo de adeptos desagrado com a gestão do seu clube de décadas optou pela via alternativa de começar do zero. Um exemplo que seria seguido, pouco tempo depois, por adeptos de emblemas históricos como o Manchester United ou Wimbledon.

O campeão dos clubes dos adeptos

Os primeiros anos de vida do Enfield Town FC foram pautados pelo entusiasmo natural de um novo projeto.

O clube foi inscrito na liga regional do Essex, apenas três divisões por baixo do seu anterior clube. Nessa primeira temporada, 2001-02, o Enfield Town terminou a temporada regular no segundo lugar, confirmando a promoção de divisão a que juntou vitórias na Taça da Liga de Essex, a Capital Counties Cup e a Charity Shield da sua respectiva divisão. Mais troféus num só ano que o Enfield FC tinha ganho numa década de agonia. Com o investimento directo dos bolsos dos adeptos, a equipa pagava o aluguer de um estádio vizinho à espera da autorização de construir o seu próprio terreno de jogo, hoje o estádio Queen Elisabeth II. Os adeptos envolviam-se regularmente na tomada de decisões, no apoio ao staff técnico e aos jogadores. Um clube semi-profissional gerido com paixão que ultrapassava largamente o conceito amador de uma associação de adeptos apaixonados.

O inevitável aconteceu, quatro anos depois. Depois de conquistar mais dois títulos regulares, o Enfield Town FC cruzou-se com o velho Enfield na mesma divisão. Uma equipa em ascensão contra outra em evidente decadência. O duelo saldou-se por uma vitória dos adeptos que viram o Enfield Town ficar às portas da promoção para os campeonatos profissionais. Dois anos depois o Enfield FC fechava oficialmente portas. Sugeriu-se a fusão dos dois emblemas, para sarar feridas antigas. Uma vez mais as conversações prolongaram-se e acabaram em nada. O Enfield FC renasceu com novo nome – Enfield 1893 – enquanto o FC continuou o seu caminho como um dos mais influentes clubes das ligas regionais do futebol britânico.

Um estatuto que lhe valeu para vencer o KS Beveren belga na Supporters Direct Cup, um torneio criado para reunir clubes fundados por adeptos numa iniciativa conjunta do governo britânico e da UEFA. O AFC Wimbledon tinha ganho a primeira edição, em 2002, precisamente contra o Enfield Town FC. A equipa reagiu positivamente à derrota e nos anos seguintes venceu o torneio por duas vezes. Fieis ao seu estatuto de primogénitos, os ingleses bateram os belgas por 2-1 e conquistaram o seu terceiro troféu na prova, transformando-se no clube mais bem sucedido dentro desta competição exclusiva a emblemas geridos por adeptos. E assim reafirmaram o seu lugar na história. O de primeiro clube dos adeptos!

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