Emigrantes sem sorte, o fracasso dos internacionais portugueses dos setenta Entre os anos 70 e 80 os melhores jogadores portugueses tentaram fortuna no estrangeiro. Quase todos fracassaram profundamente mas porquê?

Foram a primeira grande geração de emigrantes do futebol português e também a primeira a esbarrar com a dura realidade de ser competitivos longe de casa. Entre inícios dos anos setenta e finais da década de oitenta alguns dos melhores futebolistas portugueses provaram sorte fora de portas sem grande êxito. Num futebol pre-globalizado foram vários os factores que provocaram que essas experiências tivessem tido um desfecho muito diferente às da seguinte geração que, nos anos noventa, assaltou a elite continental.

A lenta ascensão do emigrante português

Em 1997 Paulo Sousa transformou-se no segundo jogador, depois de Marcel Desailly, em vencer a Champions League em épocas consecutivas por dois clubes distintos. Com a camisola do Dortmund o médio bateu a sua anterior equipa, com quem tinha levantado o troféu no ano anterior, a Juventus. Sousa não era sequer o mais mediático dos futebolistas portugueses a triunfar no estrangeiro. A liga italiana, claramente a mais exigente de então, estava rendida ao génio de Rui Costa, então coroado como “Príncipe” de Florença. Em Espanha as diabruras de Luis Figo com a camisola do Barcelona converteram-no numa lenda em Camp Nou marcada apenas pela “traição” cometida três anos depois ao trocar o clube catalão pelo Real Madrid. Por Barcelona andavam igualmente internacionais como Vitor Baía e Fernando Couto enquanto que outros atletas habituais na equipa das Quinas davam boa conta do remédio em distintos clubes de Itália, Espanha ou do Reino Unido, casos de Dimas, Hélder, Paulo Bento, Dominguez, Porfirio ou Cadete. Raro era o caso do atleta português que, de uma forma ou outra, não triunfava lá fora. Vinte anos antes a realidade era radicalmente diferente.

A maioria dos internacionais lusos nos anos setenta e oitenta que procuraram sorte longe da liga nacional voltaram pouco tempo depois de partirem e com más recordações no baú da memória. Inadaptação, incapacidade de ajustar-se a outro ritmo competitivo, de conviver noutra cultura ou, pura e simplesmente, um talento que era suficiente para brilhar em terras lusas mas que passava desapercebido em torneios mais exigentes. Tudo levou a que a primeira grande vaga migratória do futebol português fosse um autêntico fracasso.

Os fracassos dos heróis dos anos 70

Emigrantes sempre houve, desde os anos vinte, com alguma presença pontual em clubes italianos passando pelas passagem de Rogério “Pipi” pelo Brasil ou pelas de Humberto e Mendonça por Itália e Espanha nos anos sessenta. No entanto a protecção do regime salazarista, a boa qualidade de vida dos jogadores nos principais clubes portugueses e a natureza bastante distinta dos mercados de transferência, impediram uma primeira vaga migratória antes do 25 de Abril.

O mercado era um dos principais condicionantes. Em 1973 Espanha reabriu as portas a jogadores estrangeiros depois de vinte anos de hiato. As da Serie A italiana estavam fechadas desde 1966 e assim seguiriam até 1980 e no futebol inglês só sobre 1978/79 é que os clubes foram autorizados a contratar futebolistas de fora das ilhas britânicas. Salvo França e Alemanha, onde não havia restrições mas também não existia um nível apetecível, havia poucas opções para emigrar e nos anos setenta a única saída viável, sobretudo para futebolistas em fim de carreira era a emergente liga norte-americana. Mario Coluna foi o único a seguir uma linha mais convencional e passou brevemente pelo Olympique de Lyon mas longe de deixar uma marca evidente. Foi o 25 de Abril e a liberalização definitiva do mercado e também do quotidiano da vida dos clubes que escancarou a porta e abriu à jovem nata do futebol português a possibilidade de emigrar. França e Espanha, por proximidade geográfica, cultural e emocional eram as portas lógicas de saída e foi para lá que os principais internacionais se foram mudando nos anos seguintes. Todos eles por pouco tempo e sem causar grande impacto.

O primeiro em sair e talvez aquele que melhor imagem deixou foi Humberto Coelho. O capitão do SL Benfica abandonou o clube das águias em 1975 para assinar pelo Paris-Saint Germain, então com apenas três anos de vida mas com uma tremenda ambição de triunfar na liga gaulesa. Pelos parisienses jogou 33 encontros na primeira época mas apenas 9 na segunda temporada, antes de passar pelos Estados Unidos e voltar ao clube do seu coração. No seu caso foi mais o perfil pouco competitivo do clube do que a sua prestação o que marcou a experiência mas o toque de abertura de Coelho abriu portas a outros colegas de selecção.

Em 1976 a estrela do Boavista, João Alves, assinou pelo modesto Salamanca. O “Luvas Pretas” disputou sessenta jogos em duas épocas mas a entidade castelhana raramente logrou superar as expectativas terminando em posições a meio da tabela. Um regresso a Portugal, no Benfica, antecipou nova saída, para o PSG, com menor impacto ainda. Os clubes de meio da tabela do futebol espanhol acabaram por ser pasto preferencial para as experiências lusas fora de portas. Rui Jordão, um dos mais elegantes avançados portugueses de sempre, passou apenas um ano no ambicioso Real Zaragoza antes de voltar imediatamente para Portugal quando o clube aragonês acabou despromovido. O mítico guarda-redes Vitor Damas assinou no mesmo ano pelo Racing Santander – onde passou quatro anos, o último dos quais na II Divisão espanhola, depois de também ele viver uma época de despromoção azarada – enquanto que o genial António Oliveira foi contratado em 1979 pelo Real Bétis. A sua inadaptação ao estilo de vida na Andaluzia e as más relações com vários colegas levaram-no a ser raramente utilizado (disputou apenas dez jogos) antes de voltar ao FC Porto por breves meses para sair de novo como consequência do celebre “Verão Quente” dos dragões. Outra das estrelas azuis-e-brancas, Fernando Gomes, teve igual destino. Foi elegido pelo Sporting Gijon para ser o substituto do mítico goleador Quini, entretanto vendido ao Barcelona, mas nas Asturias jogou apenas trinta vezes em dois anos deixando uma impressão muito diferente daquela que a sua alcunha futura, o “Bibota”, cunhou.

Equipas modestas, pouca ambição e má preparação

Todos estes casos de futebolistas internacionais, todos eles figuras de primeiro nível e todos eles coleccionadores de maus relatos e experiências curtas no tempo. A maioria deles pagou inclusive do próprio bolso – abdicando de luvas e prémios – a possibilidade de voltar ao futebol português e salvo o caso de João Alves, nenhum voltou sequer a tentar a experiência no estrangeiro, nem mesmo quando nos anos oitenta se abriram as portas de todas as ligas continentais. Porque correu tudo quase sempre tão mal?

Na maioria dos casos o grande problema foi o facto de que os principais internacionais portugueses não tinham ainda o pedigree para dar o salto aos maiores clubes do planeta. A geração dos anos sessenta tinha conquistado o respeito do Mundo graças aos títulos europeus conquistados por SL Benfica e Sporting CP e pela prestação de Portugal no Mundial de 1966 mas entre o torneio inglês e o Europeu de 1984 o futebol português esteve ausente de qualquer fase final. A nível de clubes, a final de Wembley perdida em 1968 pelo Benfica gerou um interregno de dezasseis anos sem outra final, no caso a Taça UEFA perdida pelos encarnados contra o Anderlecht e a Taça das Taças em que o FC Porto caiu frente á Juventus. Só dezanove anos depois de Wembley um clube português voltaria a uma final da máxima competição de clubes europeus.

O futebolista português não era de elite mundial apesar de, tecnicamente, estar avançado face a outras ligas e, tacticamente, contar com a maestria de grandes técnicos que operavam no torneio nacional. Isso colocava-o imediatamente um passo atrás de jogadores mais cotados a nível global, caso de holandeses, alemães ou franceses, para não falar da elite sul-americana.

A existência de duas vagas para estrangeiros por clubes – aliado a que o mercado em Itália e Inglaterra, dois dos países mais ricos – estava fechado e assim esteve até 1980, obrigava-os a competir portanto com essa elite mundial. Numa era pos-Bosman seguramente qualquer um deles poderia ter sido um dos muitos estrangeiros nos super-planteis das grandes potências mas à época o seu valor real e reconhecimento mediático não permitia ambicionar mais do que clubes do meio da tabela, sempre mais pendentes da luta pela despromoção do que em conquistar troféus ou acumular títulos europeus.

De certo modo ao deixar a liga portuguesa, os internacionais portugueses emigrados deixaram também a exigência das noites europeias e abraçaram projectos onde a qualidade de jogo e a ambição eram infinitamente inferiores ao que o seu talento podia ambicionar, noutra realidade, em troca de uma diferença salarial que, isso sim, era gigantesca em comparação com os colegas de profissão que tinham ficado em Portugal.

Fazer fortuna em clubes modestos à custa de perder competitividade era o dilema a que se afrontavam e por isso a experiência de cada um fui curta, o mínimo de tempo suficiente para que economicamente valesse a pena. Nesse set de circunstâncias, aliado ao evidente atraso de preparação física do jogo em Portugal face às principais ligas, que provocava imediatamente uma diferenciação competitiva aos jogadores lusos face aos seus novos colegas de equipa, habituados a outros ritmos de jogo, os internacionais lusos partiam quase sempre em desvantagem quando emigravam. A mentalidade ainda muito modesta e caseira do atleta português, agarrado às saudades da vida cómoda e quotidiana doméstica e não à exigência do profissionalismo em terras distintos, transformou cada uma dessas experiências em desastres anunciados. Ao contrário dos internacionais dos anos noventa, que ao viver na era pos-Bosman não sofreram com essa asfixia da elite no mercado, os internacionais lusos dos anos setenta e oitenta sofreram na pele a falta de preparação para lutar por algum dos escassos lugares ao sol do futebol europeu.

O fracasso do Pequeno Genial e a ascensão do menino do Montijo

Na década de oitenta houve casos paradigmáticos que viveram a meio caminho entre o fracasso generalizado da geração de setenta e o êxito indiscutível da “geração de ouro” dos anos noventa.

O primeiro a arriscar-se a viajar ao estrangeiro entre os grandes internacionais da época – depois de um hiato de quase quatro anos desde a experiência de Gomes – foi Fernando Chalana. A estrela portuguesa do Europeu de 1984 não resistiu ao canto de sereia daquela que era, sem dúvida, a mais forte equipa gaulesa da época, o Girondins de Bordeaux, e no final do torneio gaulês converteu-se na grande sensação do campeonato. Foram três anos marcados por lesões, polémicas à volta da sua vida familiar e problemas pessoais que minaram a sua aportação a um projecto ambicioso mas que entrava já na sua etapa decadente. Chalana só disputou vinte e dois jogos nesse período e anotou apenas dois golos. O negócio permitiu ao Benfica pagar a construção do Terceiro Anel mas não deixou boas recordações ao futebolistas e aos adeptos franceses. Melhor sorte tiveram os turineses quando assinaram em 1988 com Rui Barros, a última sensação do FC Porto. O internacional luso converteu-se em figura habitual de uma Juventus em horas baixas assumindo o papel que antes tinha pertencido a Michel Platini até à chegada de Roberto Baggio. Sem ter deslumbrado o Calcio de forma cintilante foi um dos poucos portugueses a deixar saudades e a sua seguinte passagem pelo AS Monaco apenas serviu para confirmar as boas sensações deixadas.

O único significativo caso de sucesso em todo esse período foi sem dúvida o de Paulo Futre no Atlético de Madrid. Com os Colchoneros o génio do Montijo venceu apenas duas Copas del Rey mas deixou uma profunda marca no clube a ponto de converter-se provavelmente no maior jogador da sua história e só as sucessivas lesões o impediram de triunfar nas suas passagem pelo Olympique Marseille e AC Milan antes da sua retirada precoce. Por então já uma nova geração de internacionais portugueses começava a dar o salto às principais ligas deixando uma impressão radicalmente diferente da dos seus antecessores. Apesar de serem jogadores de excelência e internacionais reputadissimos, os heróis do futebol luso dos anos setenta e oitenta tiveram sempre um borrão no currículo.

Os fracassos das suas experiências serviram no entanto de alerta para o futuro e quando a “Geração de Ouro”, amparada já pelo desbloqueio emocional provocado pelo êxito da “Futremania” em Espanha, soltou amarras, o universo do futebol já era outro e o seu êxito transversal, que proporcionou riqueza aos clubes doméstico e uma bagagem de experiência competitiva definitiva para assentar os êxitos futuros da selecção, marcou um ponto de viragem fundamental na história do futebol português.

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