Emblemas com Estrelas – Sabe qual a razão?

Na última década tornou-se habitual ver nas camisolas dos grandes clubes continentais várias estrelas sob o emblema. As razões variam de país para país, de competição para competição. O prazer de celebrar a condição de campeão une essa nova devoção do marketing com as estrelas da glória.

Orgulho histórico ou marketing?

Quantas vezes os adeptos não se viram a tentar decifrar os códigos visuais que estão por detrás das estrelas colocadas habilmente perto dos emblemas de alguns clubes. São destacados nos lançamentos das novas cores, aparecem nos grandes planos televisivos e nas fotos do dia. Cada clube parece orgulhoso de exibir a estrela como sinónimo de sucesso. Uns multiplicam-nas como se o equipamento fosse um manto celestial enquanto que a outros com uma lembrança solitária parece suficiente.

O certo é que a moda de colocar estrelas nos equipamentos é uma inovação do marketing do século XXI. Até ao ano 2000 só muito raramente se encontravam clubes, seleções nacionais ou ligas que utilizavam ou permitiam a utilização destas inovações estéticas. Nos últimos anos o cenário alterou-se radicalmente. O poder de persuadir os adeptos da grandeza histórica do clube transformou-se numa poderosa arma de sedução. De tal forma que o Manchester City, depois de ter sido adquirido pela família Al Mubarak, colocou habilmente três estrelas sobre o renovado emblema. Têm algum significado ou motivo histórico? Não. Mas como muitos dos seus rivais, dentro e fora das ilhas, utilizavam estrelas para recordar o seu passado glorioso o City não quis ser menos.

A ambição brasileira

O debate sobre as estrelas nos emblemas oficiais foi aberto pelo Brasil.

A recém-formada Confederação Brasileira de Futebol (CBF) achou necessário reivindicar a condição de tricampeão mundial do escrete canarinho depois do Mundial do México. Para tal mandou colocar sobre o emblema as três estrelas que se tornaram na sua imagem de marca durante duas décadas. Foram precisos largos anos para que outros países começassem a copiar a inovação brasileira. A Itália e Alemanha, quando conquistaram os seus tricampeonatos mundiais (em 1982 e 1990) imitaram a inovação brasileira, enquanto que os ingleses e argentinos fizeram o mesmo nos anos seguintes. Mais arrojada foi a seleção do Uruguai que ainda hoje conta com 4 estrelas ao peito – fruto de dois Mundiais da FIFA e dois triunfos nos Jogos Olimpicos, de 1924 e 1928, até então considerados como o equivalente aos Campeonatos do Mundo. Naturalmente que os brasileiros (com cinco) e italianos (com quatro) têm atualizado as suas camisolas oficiais. Uma moda que rapidamente se estendeu ao universo dos clubes.

A(s) fórmula(s) europeia(s)

Só existem na Europa dois paises com uma significativa tradição na utilização de estrelas decorativas nos seus logos, a Itália e a Alemanha.

Na Serie A, de forma complementar ao Scudetto de campeão, começaram a aparecer nos anos oitenta as primeiras estrelas nos equipamentos da Juventus, identificativos dos seus mais de vinte campeonatos nacionais. Imediatamente, e como resposta, AC Milan e Inter – os únicos clubes com mais de dez títulos na Serie A – imitaram a “Vechia Signora” e passaram a exibir orgulhosamente a estrela sobre o emblema. Ambos com 18 troféus, contam as horas para poder utilizar a segunda estrela. Em Turim a utilização das estrelas tornou-se em mais uma arma para os tifossi (e a directiva do clube) reinvindicar os títulos retirados durante o “Moggigate”.

Se oficialmente a Juventus tem apenas 28 títulos para a liga e a federação italiana, o clube reclama os 30 títulos conquistados em campo com uma inscrição temática e as três estrelas sobre o seu mítico emblema. Depois de nova polemica com este novo equipamento o clube decidiu abdicar oficialmente das estrelas até vencer legalmente o 30º título de liga, o que pode suceder em Maio de 2014!

Na Alemanha a exigência é inferior até porque só o Bayern Munchen tem mais de dez títulos na história da Bundesliga.

Cada estrela corresponde a três troféus conquistados – utilizadas pelo Werder Bremen, Hamburg SV e Stuttgart – enquanto que duas estrelas podem ser utilizadas pelas equipas com cinco ou mais triunfos, como sucede com o Borussia Dortmund e o Borussia Monchengladbach. O bávaros do Bayern Munchen utilizam quatro estrelas como consequência de terem mais de 20 campeonatos (há ainda o modelo de três para quem tenha entre dez e vinte campeonatos, atualmente um recorde por preencher) o que é confundido muitas vezes com os seus títulos europeus. A Champions League tem sido a justificação de muitos clubes para as suas estrelas. Na realidade a UEFA permite aos clubes com mais de cinco troféus (AC Milan e Real Madrid) ou com três consecutivos (Ajax, Bayern Munchen) a utilização de um logo com o troféu da prova e os anos de cada conquista. Mas não uma estrela.

Mesmo assim o Nottingham Forrest (com duas), Celtic Glasgow e o Olympique Marseille (com uma) exibem-nas habitualmente nos últimos anos. Em França só o Saint-Etienne – o único clube com mais de dez ligas – utiliza também a célebre estrela, uma inovação recente. As três estrelas do equipamento do Ajax (desde que venceu a 31º liga, em 2011) ou as cinco do Glasgow Rangers (pelos mais de 50 campeonatos conquistados) são outros bons exemplos de uma moda recente que se transformou numa importante ferramenta de marketing para os clubes. Em Portugal o único clube a utilizar estrelas nos seus emblemas oficiais, o SL Benfica, já variou entre as três (pelos 32 campeonatos ganhos) e as duas (pelos dois troféus europeus conquistados nos anos 60) para celebrar tanto a importância das conquistas nacionais como internacionais.

O futuro poderá permitir imaginar-nos muito mais fórmulas para poder explorar este formato de auto-publicidade. Se há clubes que ainda não procuraram uma forma de aderir à moda (espanhóis e ingleses, salvo os citados City e Forrest) é cada vez mais habitual encontrar em clubes e seleções de outros continentes o mesmo formato, dando a ideia de que nos próximos anos a sua utilização se vulgarizará tanto como os próprios emblemas das competições oficiais. Verdadeiros duelos entre estrelas!

25.798 / Por
  • Amadeo Buschetta

    Hoje, a Juventus pode gabar-se das três estrelas!

  • Gonçalo Torino Barriga

    Bom artigo, mas não falam do caso único (tanto quanto sei) do Boca Juniors?