Foi há muito, já. O futebol era outra coisa, havia muita bola e pouco bolso e o amadorismo, esse amor gratuito, não pagava as contas. Na Europa a FIFA já gatinhava mas o Uruguai, longe ainda do futebol de gravata, hasteava uma das maiores e mais idosas rivalidades do desporto-rei. O superclássico de Montevideo, em cartaz desde 1900, opõe Peñarol e Nacional, dois megalodontes do Rio da Prata, e não por acaso, a celeste sagrou-se potência primeira do futebol mundial.

O primeiro génio do futebol uruguaio

O Club Atlético Peñarol, mais velho, abriu portas com outro nome, em 1891. Central Uruguay Railway Cricket Club. Esta é, pelo menos, a versão aurinegra. O Club Nacional de Football, todavia, esteado em 1899, empurra o rival para o século seguinte, altura em que o nome mudou de roupa, puxando a si a anterioridade. Desde então, ano após ano, Setembro reitera uma Primavera insolúvel. Los Manyas sopram as velas no Campeón del Siglo, o estádio do Peñarol, e a desavença do decanato, pontualíssima, dá de comer à imprensa charrua.

Terá sido por esta altura, na década última do Séc. XIX, que nasceu em Durazno, no centro do país, Abdón Porte. Em 1908, ainda jovem, mudou os pés para a capital, esfaimado de bola, iniciando carreira no Colón Fútbol Club. Um emblema modesto, recém-nascido, mas que ainda vive, hoje, no terceiro escalão do campeonato uruguaio. Daqui seguiu para o Libertad, bandeira já extinta, e daí para o tricolor bolsilludo em 1911.  Porte amava o Nacional. El Indio, como era chamado, varria com a alma o meio campo lá de casa e a bancada do Gran Parque Central, unívoca, prestava-lhe tributo. Arriba Indio! 

Abdón jogava pela causa única de deixar ali, aos seus, o melhor de si. Deram-lhe o 5 para as costas e a braçadeira para o braço. Foi capitão. O salário, entregue pelo ar, era pago na hora. Em aplausos. Somou títulos, quase 20, e foi feliz assim. Só assim. Foram mais de 200 jogos de Nacional ao peito. Na seleção, integrou o grupo que venceu em casa, em 1917, a segunda edição da Copa América. A prova, baptizada um ano antes em Buenos Aires, teve a estreia, também ela, ganha pela celeste.

A trágica despedida do Índio desesperado

Um dia, contudo, incapazes de acompanhar a alma, as pernas pediram tempo. Vieram jogos menos conseguidos, uma certeza estatística difícil de engolir, e a fortuna aditiva da glória, aos seus olhos, foi virando esmola. O amor exigia do corpo. Demasiado. O clube foi ao mercado, quis renovar as hostes, e Abdón foi informado que o seu lugar, agora, seria de Zibechi. Num tempo em que não havia substituições, Porte ia para o banco. Perdia tudo, ou assim achava, porque a vida, para ele, era aquilo. Um onze.

A 4 de Março, no Parque Central, o tricolor bateu o Charley Football Club, outro emblema já defunto, por 3-1. El Indio jogou. Ao final do dia, como era apanágio na altura, o grupo reuniu-se na sede do clube para uns alongamentos à mesa. Uma espécie de colóquio fraterno para lograr o triunfo. Ao início da madrugada, Porte abandonou a festa e rumou ao templo, o seu lugar feliz. Conhecia-lhe os cantos. Subiu ao relvado, o estádio não lhe fechava as portas, e no círculo central do Gran Parque, esse mesmo que patrulhara anos a fio, apontou ao peito e disparou. Não na têmpora ou na boca. No coração. O corpo, com a carta, seria encontrado na manhã seguinte por um funcionário do clube.

“Querido Doctor Don José Maria Delgado. Le pido a usted y demás compañeros de Comisión que hagan por mí como yo hice por ustedes: hagan por mi família y por mi querida madre.  Nacional aunque en polvo convertido  Y en polvo siempre amante. No olvidaré un instante Lo mucho que te he querido Adiós para siempre. Que siempre esté adelante El club para nosotros anhelo Yo doy mi sangre por todos mis compañeros, 

Ahora y siempre el club gigante. ¡Viva el Club Nacional!” 

Um mártir que não chegou a tempo do título mundial

Foi assim, sem cólera ou despeito, a despedida de Porte. Uma declaração de amor. Foi enterrado junto aos irmãos Céspedes, duas glórias do Nacional que haviam perecido anos antes, vítimas de varíola. O Nacional levou a jogo a devida homenagem, dias depois, contra o Montevideo Wanderers.

O emblema onde, curiosamente, cataram Zibechi. Hoje, a mais inflamada bancada do reduto, aquela que colige a La Banda del Parque, a barra brava do clube, dá pelo nome de tribuna Abdón Porte. A faixa Por la sangre de Abdón, sempre presente, serve-lhes de cachecol. Anos mais tarde, em 1930, Bélgica e Estados Unidos abriram ali, pela primeira vez, um mundial de futebolEl Indio, talvez mais nacionalista que uruguaio, nunca foi campeão do mundo. Mas campeão algum, seleção ou clube, pode vindicar tragédias com tamanha alteridade. Porte inventou o amor à camisola. Depois dele, para o bem ou para o mal, só réplicas gulosas de uma doença rara.

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