Eigendorf, o jogador que a STASI assassinou

A 5 de Março de 1983 o futebol alemão Lutz Eigendorf sofreu um acidente de viação. Morreu dois dias depois no hospital. A sua morte não foi um acidente. Eigendorf tinha sido assassinado pela STASI, os serviços secretos da RDA. Era a resposta das autoridades do futebol da Alemanha de Leste a uma das mais célebres deserções da “Guerra-Fria”.

A pérola da República Democrática Alemã

Eigendorf era um dos médios mais talentosos do lado este da cortina-de-ferro.

Um jogador com uma habilidade no passe praticamente sem igual em toda a República Democrática Alemanha. Era rápido, astuto e sabia o momento certo em que devia decidir entre o passe o remate. Apesar das inúmeras assistências que deu, ao longo dos anos, Lutz era também um goleador. No seu jogo de estreia com a camisola azul escura da RDA, marcou os dois golos do empate contra a Bulgária, num jogo amigável entre duas nações comunistas. Para muitos dos especialistas no futebol da Alemanha de Leste, Eigendorf poderia ser um futebolista ao nível de Franz Beckenbauer, a bandeira espiritual de uma nova geração num país que quase sempre preferiu entregar-se ao sucesso olímpico. Recrutado com apenas 13 anos pelo clube apoiado diretamente pelo líder da STASI, o Dynamo de Berlim, tinha crescido como um dos protegidos do regime. Mas com vinte e dois anos decidiu dizer chega. Estava farto de viver enclausurado num mundo fictício. De ver como agentes o seguiam por todas as partes, aos bares mais populares de Berlim pela noite e ao infantário onde ia levar a sua pequena filha de dois anos, Sandy, pela manhã.

Desde que o governo de Berlim Oriental decidiu levantar o infame Muro de Berlim, em 1961, que o número de deserções tinha ido aumentando. Era perigoso tentar atravessar a cortina-de-ferro. A maioria morria na tentativa e Lutz sabia, perfeitamente, que teria de esperar pela sua oportunidade se quisesse saber o que era viver na outra Alemanha. Uma oportunidade que chegou, inevitavelmente, através do futebol.

O preço da traição

Pela primeira em vários anos, o Dynamo Berlim aceitou um convite de um rival da Alemanha Ocidental, o Kaiserlautern, para disputar um jogo amigável. O encontro foi agendado para o 18 de Março de 1979. Durante a semana anterior ao jogo a pequena comitiva do Dynamo foi investigada a fundo pela STASI e os jogadores, técnicos e assistentes receberam várias aulas de doutrinação nos valores do Partido para prever qualquer tipo de fuga inesperada. O jogo correu com normalidade. O Kaiserlautern saiu vencedor, os jogadores cumpriram o seu papel e voltaram para o autocarro da equipa. Todos, sem excepção. A diferença é que um deles levava um cartão com uma direção na cidade que lhe tinha sido dada por um dos dirigentes do Kaiserlautern. Era Lutz Eigendorf.

A poucos quilómetros da fronteira, cumprindo um protocolo habitual, o autocarro da comitiva parou numa pequena cidade para que os jogadores pudessem gastar os últimos marcos ocidentais antes de voltar a casa. Era um pequeno luxo a que poucos tinham direito. A maioria dos jogadores comprou discos de música americana, calças de ganga de marca e pacotes de cigarros ocidentais. Eigendorf preferiu comprar a sua liberdade. Num momento estava à vista dos agentes da STASI e no outro tinha desaparecido, num taxi, a caminho da morada que lhe ia proporcionar uma nova vida.

A deserção de Lutz Eigendorf foi um golpe publicitário tremendo para os célebres controlos de segurança da RDA. O jogador foi suspenso pela FIFA, durante um ano, por ter abandonado o seu clube mas voltou a jogar como profissional a partir de 1980 no Kaiserlautern. Atrás tinha deixado a mulher, de vinte e dois anos, uma filha pequena e um passado que preferia esquecer. Mas em Berlim Oriental ninguém lhe perdoou a audácia e a traição. A sua vida estava marcada com uma cruz pelo Partido. Era questão de encontrar o momento certo para ajustar contas. Durante três anos os serviços secretos da RDA montaram uma operação secreta para assassinar Eigendorf. Chamram-lhe “Romeo”. Vários agentes foram enviados à sua antiga casa com o objectivo de cortejar a sua abandonada mulher, de forma a obter informação sobre a sua localização e pontos frágeis. Mas Gabrielle, a esposa abandonada, nada sabia. E continuou ignorante quando decidiu contrair casamento, dois anos e meio depois, com um desses agentes.

Na Alemanha Ocidental, Lutz tornou-se num dos jogadores mais populares da Bundesliga. Acolhido debaixo do regime de asilo político, apareceu várias vezes nos meios de comunicação social denunciando as condições de vida na Berlim Oriental. Ter abandonado o “lado de lá” da cortina era um cartão de visita respeitado. Como futebolista era aplaudido em todos os campos do campeonato e mesmo quando abandonou o Kaiserlautern pelo mais modesto Eintracht Braunswcheig, os espectadores do Fritz-Walter Stadion decidiram homenageá-lo de acordo com o risco que tinha tomado em ficar para trás. O que não sabiam é que não o voltariam a ver com vida.

O acidente em que ninguém acreditou

Quatro anos depois da sua sonora deserção, Eigendorf pagou o preço.

A STASI tinha conseguido controlar todos os seus movimentos no Ocidente graças aos vários agentes encobertos que tinha no Ocidente. Um deles era o novo melhor amigo de Lutz, um antigo campeão da boxe de Berlim Oriental, Karl-Heinz Felgner. O boxeador tornou-se confidente de Lutz porque ambos se conheciam dos bares nocturnos de Berlim. Felgner conseguiu persuadi-lo que a sua fuga para o Ocidente se devia a uma perseguição do regime quando, na realidade, a cortina-de-ferro se tinha aberto facilmente para que ele pudesse expiar desertores no Ocidente, graças ao seu prestigio popular. Eigendorf não suspeitava de nada e durante anos conviveu amigavelmente com Felgner enquanto este enviava relatórios regulares para Erich Mielke, o homem-forte da STASI, esperando pelo momento em que a ordem de dar o golpe definitivo chegasse. O seu nome estava na lista dos dez inimigos públicos de Berlim Oriental.

Eigendorf foi encontrado no seu acidentado Alfa-Romeo na madrugada de 5 de Março. A caminho do hospital, a polícia realizou-lhe uma análise de álcool no sangue que deu valores bem acima dos permitidos pela lei. O problema é que Lutz era um fanático das gasosas e raramente tomava bebidas alcoólicas. Os amigos que tinham estado consigo numa festa no bar Cockpit, na noite anterior, não se lembravam de o ter visto embriagado. Um desses amigos era Felgner. Três dias depois do acidente, o jogador faleceu como consequência de danos cerebrais provocados pelo acidente. Foi uma das últimas vitórias da RDA que fez correr a voz pela imprensa do país de qual tinha sido o destino de um dos mais célebres “inimigos do povo”.

A confissão do boxeador

Desde um primeiro momento, a polícia local suspeitou de um complot para assassinar o jogador. Estava na lista dos desertores a proteger pela polícia secreta da República Federal e havia sempre a sensação presente, nestes casos, de que o governo da Alemanha de Leste tentaria de tudo para acertar contas. Em 2008 Felgner foi preso, acusado de roubo, em Dusseldorf. No julgamento desse caso, o antigo-boxeador confessou que tinha trabalhado como antigo agente da STASI e que tinha recebido ordens para assassinar Eigendorf. O método utilizado era habitual nos serviços secretos da Alemanha comunista. Uma droga inserida na bebida tomada uma hora antes de que a vitima pegasse no veículo para voltar a casa, provocando quase sempre acidentes mortais. Uma patrulha de agentes seguia sempre o veículo para garantir o sucesso da missão. Ultrapassavam o carro, estacionavam-no habilmente numa curva e quando este passava, ligavam os máximos para deslumbrar o condutor drogado.

Felgner afirmou que não tinha aceite a missão de matar o seu amigo mas que suspeitava que isso não tinha impedido a STASI de cumprir com o seu objectivo, recorrendo a outro método. Foi a primeira vez que alguém confessou, publicamente, a relação entre Lutz Eigendorf e os serviços-secretos da RDA. Mas tinham passado já mais de vinte e cinco anos e não havia caso para levar a tribunal. Os documentos da STASI tinham sido destruídos no Outono de 1989 e nada restava a não ser suspeitas. Um documental, realizado anos antes, em 2000, tinha sido o primeiro a divulgar publicamente as suspeitas da polícia alemã. Mas de nada valeu à família do jogador. Nos registos oficiais, o talentosos futebolista da RDA continua registado como vitima de um acidente de viação. A história real é bem mais sombria. Eigendorf foi a mais célebre vitima do mundo do desporto da mão-negra da tenebrosa STASI.

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