Edward Hooligan, o pai do hooliganismo

Na dura vida da Londres do século XIX, o álcool e a violência caminhavam de mãos dadas com o quotidiano urbano. Entre o smog londrino desenhou-se a lenda de Edward Hooligan, um dos mais violentos arruaceiros das ruas da cidade que deu o nome aos seus violentos seguidores que transferiram a sua sede por golpes e cerveja das ruas para os estádios.

A violenta história de Edward Hooligan

Não se sabe se Edward Hooligan era um apaixonado do futebol. Provavelmente não o era. A Londres da segunda metade do século XIX estava ainda bastante da rudeza industrial do Lancashire, onde o jogo se desenvolveu realmente. Aí, no tecido industrial britânico, os Edward Hooligans multiplicavam-se por centenas. E esses sim, eram ávidos seguidores do jogo que tinha abandonado o elitismo dos colégios para saltar para os pátios das fábricas e as ruas poeirentas. Londres, apesar de tudo, ainda era um centro de negócios e comercial por cima de tudo. Mas mesmo assim, a delinquência juvenil mantinha-se um problema que as autoridades não sabiam resolver. Homens como Edward Hooligan, vadios, bêbados e arruaceiros, faziam a vida das forças policiais num autêntico inferno. Mas nenhum deles chegou aos píncaros da fama de Edward. E o seu apelido, irlandês, passou para a posteridade.

Em 1890, treze anos depois dos primeiros relatos dos incidentes provocados por Edward, a expressão “hooliganismo” surge impressa num jornal para descrever comportamentos violentos na cidade. O jornal era o célebre The Times. Edward já não estaria entre esses demónios dos becos. Tinha morrido na prisão, depois de uma das suas constantes detenções. Mas o seu legado ficou. E rapidamente chegou ao mundo do futebol.

Scuttlers e os gangs do futebol

Edward Hooligan nasceu algures na Irlanda dos anos cinquenta do século XIX.

Como tantos outros, rumou a Inglaterra para fugir à fome. Não teve sorte. Viveu uma existência maldita num dos bairros operários do raio urbano da capital do império. Fez da sua vida uma ode à violência e ao alcoolismo. Era conhecido por todos os bares da cidade. Cada vez que entrava para beber uma guiness, os donos sabiam que iriam ter problemas. Muitas vezes não pagava, outras tantas causava discussões que acabavam com vidros partidos, detenções e algum que outro morto. O seu nome era conhecido e temido, tanto pela polícia como pelos restantes habitantes da capital. A tal ponto que serviu de inspiração para Clarence Rouk, o autor do primeiro livro dedicado à violência nas ruas inglesas. Hooligan Nights era um título que não deixava margem para erro. O protagonista não era mais do que um reflexo das gestas do mítico Edward.

A sua celebridade ultrapassou as fronteiras de Londres e chegou ao norte onde há algum tempo os jovens adolescentes de famílias pobres e operárias se juntavam em gangs de rua. Eram conhecidos a norte como os “scuttlers”, verdadeiros endemoniados que se dedicavam a pilhar, destruir propriedade pública, a assaltar e, sobretudo, a combates de rua improvisados com outros gangs rivais. A partir dos anos setenta, várias instituições, especialmente religiosas, começaram a desenhar programas de reinserção social que passavam por captar esses jovens e dar-lhes uma educação fora do mundo violento das ruas. Uma dessas igrejas, a de St Marks em Manchester, teve tanto sucesso que os jovens decidiram constituir um clube de futebol para passar o tempo livre. Deram-lhe o nome de St. Marks Football Club. Mas não pareceu que lhes soa-se bem porque quinze anos depois o clube passou a ser conhecido como Manchester City.

A sombra do hooliganismo

Não há registo das atividades de Edward Hooligan nos campos de futebol londrinos mas quando o The Times fala de hooliganismo, em 1890, refere-se a desacatos em vários pontos da cidade. Incluindo os pequenos e sobre-lotados estádios londrinos.

Durante as décadas seguintes a violência entre adeptos transformou-se numa realidade. Cada cidade parecia estar condenada a ter um clube cujos adeptos faziam parte dessa elite de violentos. Em Londres o West Ham United e o Millwall eram os mais temidos pelos seguidores das restantes equipas. A norte, o Manchester United, Newcastle e Sheffield United também eram conhecidos pela afiliação entre os hooligans locais de muitos dos seus seguidores. Originalmente a violência ocorria dentro dos próprios estádios, em momentos pontuais. As deslocações de adeptos pelo país ainda estavam longe de alcançar o ritmo do pós-II Guerra Mundial. É a partir dos anos sessenta, sobretudo, que a proliferação de tribos urbanas nas bancadas reabre o caminho da violência nos estádios. E não só. Os confrontos começam a suceder antes e depois dos jogos, nas estações de comboios e autocarros e, muitas vezes, em locais previamente combinados pelos seguidores de ambos os clubes.

Quando o mundo despertou, em 1985, para o hooliganismo, depois do desastre do Heysel, tinham passado quase cem anos da morte de Edward Hooligan. Mas a sua herança e o seu apelido tinham sobrevivido ao tempo. A ponto de lançar uma sombra eterna sobre o mundo do futebol.

27.171 / Por
  • tuse

    Yo Miguel!

    I hope that o lancamento do voso livro went well.

    Entretanto, uma coisa – he was called Hoolihan with an ‘h’. Not Hooligan.

    For real!

    Keep up the good work.

    Tuse