Eduardo Tironi “Os jogadores voltam porque não jogam na Europa”

Eduardo Tironi é um dos mais conceituados jornalistas desportivos brasileiros. Cronista do Lance, tem estado atento à evolução do Brasileirão nos últimos meses com a chegada de várias figuras consagradas a um campeonato mais habituado a exportar jovens promessas. Em entrevista ao Futebol Magazine, o jornalista dá-nos uma visão mais alargada sobre esta nova realidade em que vive o futebol brasileiro.

O último ano tem sido marcado pelo regresso ao Brasil de alguns dos emigrantes mais ilustres do futebol brasileiro. A que se deve essencialmente este “regresso a casa”?

No caso específico deste ano, os jogadores que estão lá fora voltaram porque não estavam a viver um bom momento na Europa. Não eram titulares e temiam falhar a convocatória para o Mundial se continuassem assim. No Brasil serão titulares de certeza e acreditam ter mais oportunidades com o selecionador Dunga. O caso do Robinho é o mais claro de todo. Desaproveitado no Manchester City temia perder o comboio para a África do Sul.

Os clubes que apostam nestes jogadores têm mais a ganhar do que a perder nestes “negócios de risco”?

Os clubes têm mais a ganhar, porque o nível técnico destes jogadores é muito mais alto do que o nível dos que jogam no Brasil.

A chegada de nomes como Ronaldo, Roberto Carlos ou Robinho pode ajudar a tornar a Série A brasileira num campeonato mais atrativo para outros mercados?

Sim. O caso do Ronaldo é emblemático. O site oficial do Corinthians passou a figurar entre os Top20 sites mais vistos de clubes de futebol depois da sua contratação. No entanto para transformar o campeonato e torná-lo mais mediático é necessário apostar noutros aspectos como a mudança do calendário do torneio (de Maio a Dezembro).

Roberto Carlos pisca o olho ao Real Madrid. Robinho continua a querer provar que é um dos melhores do Mundo. Acha que alguns dos jogadores que voltaram ao Brasileirão procuram apenas relançar a carreira para voltar de novo à Europa ou procuram mesmo estabelecer-se definitivamente no Brasil?

No caso do Robinho sem dúvida nenhuma. No caso do Roberto Carlos, não. Ele já deixou claro que pretende acabar a carreira no Corinthians e a verdade é que esse tipo de jogadores já não tem um mercado tão amplio fora do Brasil.

Se o brasileiro não emigrasse a Série A seria a liga mais forte do Mundo. No entanto a cada ano que passa os jogadores saem cada vez mais cedo. Não é um risco demasiado grande, tanto para o jogador como para o clube?

É um risco muito grande, sem dúvida, principalmente para os clubes. Mas a culpa disso é da má gestão dos clubes. Mesmo com um ativo tão importante como são as suas marcas e os seus jogadores de formação, não conseguem fazer dinheiro suficiente para manter as suas principais estrelas. Quanto aos jogadores, um contrato no exterior pode garantir tranquilidade financeira para o resto da vida. E eles não deixam passar estas oportunidades.

O Brasil é um país de exportação por excelência de jogadores. Estão os clubes preparados para uma inversão do processo e passar a receber mais jogadores de fora do que aqueles que exportam? Terão capacidade financeira para aguentar com as exigências de um Robinho sem o apoio dos clubes europeus que os emprestam?

Os clubes brasileiros, apesar de ainda serem muito mal administradores, já se encontram numa situação melhor daquela que se viveu até ao início da década. Mas ainda não se podem comparar com os clubes europeus em estrutura ou dinheiro. Hoje, eu diria que estão mais preparados para encarar essa realidade, mas financeiramente ainda não estão para dar o salto a ser projetos importadores.

Há, no adepto brasileiro, a imagem de que o jogador que volta a casa é porque não vingou fora?

Sim, há esta visão entre os adeptos brasileiros.

Todos os anos surge uma nova fornada de jovens craques que depois de meia dúzia de jogos com a equipa principal acabam logo por garantir uma venda a um clube europeu. Passou com Coutinho (com o Inter de Milão) e pode agora passar a Neymar, por exemplo. Não apostarão as direções dos clubes em trazer nomes já consagrados para tapar o buraco da saída dos jovens craques e assim contentar os adeptos?

Não há capacidade financeira para trazer jogadores consagrados para cobrir os buracos deixados pela saída das apostas. O dinheiro destas vendas normalmente vai para pagar dividas, salários… dificilmente para se fazer investimentos estruturais. Além disso, muitas destas apostas não têm vínculo só com clubes, mas essencialmente com os seus empresários. Uma boa parte do dinheiro das negociações dos jovens jogadores brasileiros vai diretamente para os empresários e não para os clubes.

Durante anos passou-se a imagem de que para jogar pela “canarinha” em ano de Mundial era quase obrigatório jogar na Europa. Agora há cada vez mais jogadores que voltam para ficar mais perto de Dunga e lutar por um lugar no grupo. Porque esta desconfiança natural dos selecionadores em levar às grandes competições jogadores do Brasileirão?

Desde que Carlos Alberto Parreira foi técnico da Selecção, em 1994, criou-se o mito de que jogador que actua fora do país é mais capacitado. Analisando friamente, dá para se tirar a conclusão de que, se foi para a Europa, é sinal de que o jogador é diferenciado. Isso é verdade em parte. Há jogadores actuando no Brasil que não devem nada a outros que actuam na Europa e são convocados. Dunga, por exemplo, convocou Afonso Alves para a Selecção, um avançado desconhecido que jogava na Europa. Posso citar 20 avançados brasileiros a actuar no Brasil que são melhores do que ele.

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