Que adepto nunca sonhou ser dono de um clube? Brincar aos presidentes, comprar e vender jogadores. Sonhar com um estádio de elite, com uma equipa para a posteridade. O projeto MyFootballClub foi criado para converter o sonho em realidade. E o Ebbsfleet United transformou-se no projeto piloto. Entre luzes e muitas sombras.

Um sonho complexo

Liam Daish sente-se a viver um pesadelo.

Não sabe como fazer o seu trabalho. A quem recorrer, a quem fazer entender que um clube de futebol para sobreviver, tem de vencer. E para vencer tem de saber ser competitivo. O treinador do Ebbsfleet United FC tem passado os últimos anos a pregar no deserto. A pedir que não lhe vendam os melhores jogadores, que não se comprem jogadores que ele não precisa ou quer. Em vão. O seu trabalho é um dos mais duros do futebol inglês. Ser treinador de um clube onde todos têm voz, onde todos têm voto, expectativas e sonhos. Onde todos sonham com ser o próximo Santiago Bernabeu.

Em Fevereiro de 2008 o Ebbsfleet United foi noticia pela primeira vez na sua história.

Uma noticia de rodapé, que passou ao lado dos eternos desatentos, mas que confirmava as suspeitas de que algo se cozia nas entranhas do futebol inglês. O clube foi formalmente adquirido por um movimento de adeptos baptizado como MyFootballClub. O nome também era novo. Até lá a modesta equipa de Kent – no leste de Inglaterra – era conhecido como Gravesend & Northfleet. As velhas origens navais da localidade – um dos pontos finais do percurso do Tamisa antes de mergulhar no mar do Norte – mantiveram-se com o novo nome e parafernália visual. Um emblema com um navio, um nome que evoca as frotas do passado. Tudo era novo e, de certa forma, tudo era também antigo. Um sonho antigo de um grupo de adeptos que não estavam unidos por nada mais que o desejo de participar no dia-a-dia de um clube de futebol.

Democracia na gestão futebolística

O movimento MyFootballClub foi criado em Agosto de 2007.

O objectivo era transformar em realidade o que até então era exclusivo de jogos virtuais de estratégia desportiva como a saga Football Manager. Ser donos e gestores de um clube profissional de futebol. O grupo pretendia reunir mais de 50 mil adeptos de todo o Mundo, independentemente da proveniência, nacionalidade, escalão social ou paixão futebolística, com o objectivo de localizar um clube, adquiri-lo e geri-lo como uma cooperativa. O projeto arrancou nesse Outono e meses depois – e com várias negociações fracassadas com outros clubes pelo caminho – o grupo MyFootballClub adquiriu finalmente, de forma oficial, o seu clube. E assim nasceu o novo Ebbsfleet.

Como funciona o modelo MyFootballClub?

O objectivo do projeto MyFootballClub é criar um modelo de gestão democrático para os adeptos poderem controlar um clube de futebol profissional de acordo com a sua filosofia.

Por um preço acessível os adeptos fazem parte de um fundo que gere o clube através da comunidade online, tendo direito de voto nas decisões tomadas tanto dentro – equipa técnica e Manager – como fora de campo, seja no mercado de transferências, na eleição do plantel ou na gestão do património e infra-estruturas do clube.

O projeto foi idealizado pelo jornalista inglês Will Brooks e aplicado em 2008 pela primeira vez quando mais de 53 mil pessoas se inscreveram na página web oficial do movimento disponibilizando fundos suficientes (mais de 1 milhão de libras) para a compra do clube-piloto.

Cada membro entrou com um valor de 35 libras mas, oficialmente, não é detentor de nenhuma ação ou controlo legal sobre o clube que está entregue totalmente à empresa MyFootballClub.

O clube adquirido foi aprovado pela maioria dos adeptos inscritos no fundo e a partir do momento da aquisição começou a aplicar-se as bases desta experiência social com os adeptos a terem palavra e voto em cada decisão tomada, salvo a decisão do onze titular que foi deixada exclusivamente para a equipa técnica após uma apertada votação.

O que inicialmente parecia um projeto pioneiro rapidamente se transformou num problema para os adeptos físicos e os trabalhadores do clube. Sem uma cabeça visível e com todas as decisões a terem de ser aprovadas na página web – prolongando os prazos – o sucesso inicial do projeto (o clube venceu a FA Cup para clubes semi-profissionais em Maio de 2008) foi esmorecendo. Em 2010, apenas duas temporadas depois do arranque do projeto, o clube foi despromovido para os campeonatos regionais amadores. Por essa altura o interesse dos membros originais começava já a desvanecer-se. Mais de 23 mil dos 30 mil interessados, inicialmente, tinham deixado de exercer o seu direito de voto e abandonado progressivamente a página web e a associação financeira com o projeto. O modelo de democracia direta trazia também sérios problemas à equipa técnica, liderada por Liam Daish.

O treinador via impotente como as votações sobre as compras e vendas de jogadores eram realizadas sem ter em conta a sua opinião e as suas necessidades e como contrapartida a qualidade de jogo da equipa continuava a decair e os espectadores presentes nas bancadas de Stonebridge Road a decair. Como muitos dos membros do movimento nem sequer residiam na área, eram os adeptos locais do clube conhecido até então apenas por ter sido um dos locais por onde passou o atual selecionador inglês Roy Hodgson, quem sofria as consequências.

Em 2010 o Ebbsfleet voltou a ser promovido aos campeonatos da Conference – a sexta divisão do futebol inglês – e a situação desportiva estabilizou-se mas os problemas financeiros aumentaram. O grupo MyFootballClub procurou fazer uma colecta entre os seus membros mas foi incapaz de gerar o mesmo grau de interesse e entrega dos primeiros meses do projeto.

As bases para o futuro dos clubes dos adeptos

Tarde ou cedo o projeto estava condenar a desaparecer.

Durante três temporadas a prestação desportiva do clube estagnou de forma preocupante mas as contas foram passando do verde para o vermelho a uma velocidade trepidante. O conflito entre o clube – os seus adeptos e trabalhadores – e o fundo agravou-se progressivamente e sem a força financeira para impor a sua vontade, o movimento MyFootballClub assumiu a evidência. Teria de vender a sua posição para evitar problemas maiores para o próprio emblema. Entre 2012 e 2013 começaram negociações para vender progressivamente parte das ações detidas pelo fundo.

Que clubes estiveram envolvidos com MyFootballClub?
No total houve uma dezena de clubes que estiveram publicamente associados ao movimento MyFootballClub.

Inicialmente o projeto contemplava uma participação maioritária em emblemas históricos do futebol inglês a passar por problemas financeiros. O Leeds United, Nottingham Forrest e Cambridge United foram abordados pelo movimento mas declinaram fazer parte da experiência, talvez antecipando os eventuais problemas de gestão que podiam nascer da propriedade de milhares de indivíduos espalhados pelo mundo.

O movimento acabou por contentar-se com uma presença maioritária em clubes muito mais modestos dos escalões secundários. Receberam petições de ajuda de emblemas como o Halifax Town, Leight RMI, Mansfield Town e Scounturphe United.

Sem os apoios mediáticos prometidos aquando do aparecimento do projeto, o grupo de adeptos virtuais acabou por vender dois terços da sua parte no clube a um novo fundo de adeptos, esses locais – a Fleet Trust – que assumiu em Maio de 2013 de forma definitiva o controlo maioritário do clube. Sem poder tomar qualquer tipo de decisões de forma autónoma, a presença do movimento MFC no projeto deixou de fazer qualquer sentido. Depois de mais uma – a última – votação na página do movimento, o grupo decidiu vender a percentagem recente a um grupo de investidores estrangeiros e acabou com a sua relação de cinco anos com o clube de Kent.

O relativo fracasso do projeto do MyFootballClub não deixa de ser, no entanto, outra forma dos adeptos de futebol demonstrarem publicamente que existe um interesse real dos seguidores em serem peças mais importantes no dia a dia de um clube. Depois dos pioneiros Enfield Town, AFC Wimbledon, FC United of Manchester e do trabalho desenvolvido pelo grupo de adeptos que detém uma parte importante do Swansea, o caminho para a participação dos adeptos no futuro parece cada vez mais evidente.

No entanto, a experiência do Ebbsfleet United não foi a única dentro do mesmo modelo. Aproveitando o trabalho pioneiro do MyFootballClub têm surgido nos últimos cinco anos pelo mundo fora associações similares que têm adquirido o controlo de clubes modestos para colocar em prática este modelo de gestão democrático e que aproxima o futebol contemporâneo cada vez mais com as suas humildes e fascinantes origens.

2.554 / Por
  • Joao

    Qual “trabalho desenvolvido pelo grupo de adeptos que detém uma parte importante do Swansea”? Desconheço isto e gostava de ter mais informação.