Hoje os futebolistas detêm quase todo o poder no mercado mas durante décadas foram praticamente escravos dos clubes de futebol. Um homem começou a revolução que precipitou a ascensão do jogador no universo das transferências. Para isso teve de abandonar o jogo antes de voltar para dar um murro na mesa e confirmar-se como um revolucionário adiantado ao seu tempo. Chamava-se George Eastham.

O percursor de Jean Marc Bosman

10 de Dezembro de 1960. George Eastham sobe pela primeira vez ao relvado de Highbury com a camisola do Arsenal. Uma estreia ansiada que chegava mais de um ano depois de poder ter-se produzido. Um ano de sofrimento para um dos mais brilhantes jogadores da sua geração e que lhe custou o abandono do jogo de forma temporal e um mano a mano contra os grandes poderes do futebol precipitando uma nova era que rapidamente se aproveitaria do seu exemplo para equilibrar a balança de poder no universo financeiro do futebol. Pouco tempo depois da sua estreia, Jimmy Hill, antigo jogador e presidente do sindicato dos Jogadores ingleses logra romper com o tecto salarial definitivamente potenciando uma nova era no futebol inglês. Foram os primeiros passos que antecederam, duas décadas depois, a polemica lei Bosman que mudou completamente as regras do jogo. Mas sem Eastham dificilmente teria existido um espaço para Bosman triunfar. Foi o jogador de Blackpool que, verdadeiramente, rompeu com as regras e fez dos futebolistas os protagonistas do mercado.

Até 1962 os jogadores eram exclusivamente propriedade dos clubes. Podiam ser vendidos, dispensados, castigados sem qualquer tipo de contrapartida. Se não aceitassem o destino indicado, eram punidos no salário e no tempo de jogo. Se sofressem lesões ou não fossem do agrado dos novos treinadores podiam ser dispensados sem compensação. Não tinham palavra e voz na sua própria carreira. O sistema tinha mais de meio século de validez, desde que a Football League e a Football Association entenderam que tinham de assumir o profissionalismo como uma inevitabilidade. Até que Eastham disse basta.

O jogador que disse que não

George Eastham nasceu a 23 de Setembro de 1936. Era um avançado interior brilhante, técnico e com grande capacidade de encontrar espaços onde menos se esperava. Filho de um internacional inglês durante os anos trinta, George Eastham Sr, e sobrinho de um célebre extremo do Liverpool, começou a chamar à atenção como adolescente num modelo clube da Irlanda do Norte, o Ards, orientado pelo pai, antes de assinar pelo Newcastle em 1956, com vinte anos recém cumpridos. Em St. Jame´s Park converteu-se rapidamente numa lenda dos Magpies, jogando no espaço de cinco anos quase 130 encontros, anotando 30 golos e protagonizando algumas das mais brilhantes gestas  do clube durante os anos cinquenta. Mas no final dos anos cinquenta, as disputas entre o jogador e a direção foram aumentando progressivamente. Eastham queixava-se de que a casa facilitada pelo clube era indigna para um jogador do seu estatuto e que o emprego que exercia paralelamente ao jogo – para compensar o tecto salarial vigente – e que tinha sido destacado pelo clube lhe prejudicava no terreno de jogo. A gota que transbordou o copo foi a proibição do clube de Eastham acudisse ás convocatórias da seleção sub23 inglesa em 1960. Eastham anunciou então que não renovaria o contrato e pretendia sair livre para outro clube. A resposta do Newcastle foi a mais dura que a lei lhe permitia. Não só não libertaria o jogador como deixava de lhe pagar qualquer salário uma vez que o contrato finalizava e não era obrigado a tal do mesmo modo que não tinha obrigação de entregar a carta de inscrição. Foi o início do confronto legal entre jogador e clube.

A abolição do sistema “esclavagista”

Eastham podia ter seguido o exemplo de muitos jogadores antes dele e pedido desculpas ao clube, reincorporar-se aos quadros assinando novo contrato e esperando uma venda posterior a um clube da escolha do Newcastle. Fez precisamente o oposto. Publicamente denunciou o sistema vigente como “esclavagista” ao não dar qualquer liberdade de escolha aos jogadores. Ao mesmo tempo declarou-se em greve e abandonou Newcastle, viajando até Londres onde começou a trabalhar na fábrica de um amigo para sustentar o processo judicial. Paralelamente consultou o Sindicato de Jogadores que rapidamente se colocou ao seu lado e tomou dianteira na investida legal contra o Newcastle. Tudo isso ao tempo que o Arsenal – clube interessado em Eastham e onde este queria jogar – tentava persuadir o Newcastle a libertar o jogador. Durante meses o braço de ferro manteve-se e Eastham declarou o abandono do futebol a título provisional. O Newcastle finalmente cedeu e a Outubro de 1960 entregou a carta de direitos ao Arsenal o que, no entanto, não evitou que Eastham continuasse legalmente com o processo contra o clube a quem reclamava salários em atraso numa manobra para alertar para a necessidade de mudar o sistema de transferências.

Em 1963 – já internacional absoluto e figura chave no esquema de jogo dos gunners – Eastham finalmente venceu a sua batalha. O tribunal deu-lhe razão e catalogou o sistema de transferências de inconcebível forçando a F.A. e a Football League a abolirem o sistema a tal ponto que semanas depois igualmente o tecto salarial foi abolido. Os jogadores continuavam a depender da vontade do clube em aceitar a sua saída ao final do contrato mas estes agora sabiam-se vigiados e raramente colocavam entraves. A final dos anos oitenta, foi precisamente a intransigência de um clube que levou a Jean Marc Bosman romper definitivamente com o sistema.

De grevista a campeão do Mundo

Eastham venceu o processo em nome dos jogadores ingleses apesar de não ter recebido a compensação salarial do Newcastle – o tribunal considerou que o seu abandono do posto de trabalho lhe retirava o direito – e nos anos seguintes o fluxo de jogadores em fim de contrato entre clubes aumentou enormemente, potenciado pelo final do tecto salarial que permitiu aos principais clubes ingleses formarem autênticas super-equipas o que mudou para sempre o espírito da competição. Até 1966, data em que ambas as alterações se fizeram efetivas, raramente um clube lograva reter o título de campeão nacional. A partir de inícios dos anos setenta, as hegemonias de clubes como Leeds, Liverpool ou Everton fizeram-se evidentes, reduzindo a meros episódios os títulos de outros clubes quando até então a regra tinha sido precisamente a rotatividade dos campeões nacionais. Um preâmbulo do que viria a suceder com o mercado Bosman e o êxito do modelo da Premier League. Eastham, por sua vez, seria campeão do Mundo em 1966 – apesar de não ter disputado qualquer minuto – e terminaria a carreira em 1973 no Stoke City depois de ter sido uma das estrelas do Arsenal durante os anos sessenta. Sem o seu espírito reivindicativo a história do futebol e do mercado de transferências podia ter sido radicalmente distinta.

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