Dukla de Praga, o clube de quem todos queriam a camisola

“All I Want for Christmas is a Dukla Praha Away Shirt” foi um dos temas mais icónicos dos anos oitenta em Inglaterra. Atrás da sátira juvenil escondia-se a história de um clube que foi proporcionalmente odiado no seu próprio país e amado fora de portas. A história do Dukla de Praga é, de certo modo, a história da Guerra Fria no futebol.

 Dukla de Praga, fenómeno da cultura pop

Em Novembro de 1978 o Dukla de Praga apareceu em Liverpool para causar uma das grandes surpresas da temporada europeia. O clube checo eliminou o histórico Everton e deixou as bancadas de Goodison Park hipnotizadas pela velocidade dos seus jogadores e a beleza do seu equipamento vermelho e amarelo. Nos meses seguintes, a caixa dedicada ao clube checo tornou-se num dos fenómenos de venda do universo Subutteo. Todos os adeptos que tinham seguido o jogo, sobretudo pela televisão, pareciam ter-se apaixonado por uma espécie de equipa avant-gard que chegava do outro lado da Cortina de Ferro. Sete anos depois, a banda pop Half Man Half Biscuit lançou o single que ia imortalizar o clube definitivamente nos charts musicais e na contra-cultura futebolistica inglesa.

A música da banda – “All I Want for Christmas is a Dukla Praha Away Shirt” – podia ser satírica da devoção juvenil pelo fenómeno Subbuteo e pela facilidade com que os ingleses se deixavam impressionar à época com tudo o que parecia vir de mundos distantes a nível cultural. Mas a escolha do clube checo como protagonista parecia exemplificar os anos finais da Guerra Fria no xadrez político. À medida que a velha guarda soviética se preparava para abrir caminho à Perestroika, o clube mais odiado de toda a Checoslováquia conquistava o coração dos ocidentais.

De Masopoust a Nedved, uma história de glória

Em 1948 o exército checo – controlado pelas esferas do partido comunista depois da ocupação militar do país no final da II Guerra Mundial – decidiu patrocinar um clube de futebol para participar na liga local como era hábito nas Repúblicas Populares. Na ausência de um emblema que se deixasse ocupar, emocionalmente, em Praga – enquanto o Sparta se transformou no clube dos serviços secretos a resistência social do Slavia tornou-se histórica -, o exército fundou o ATK Praha. Era um clube que existia por cima de todos os outros. Aproveitando a influencia política, os homens do dispositivo militar aprovaram uma lei que obrigava qualquer jogador em idade de cumprir serviço militar a jogar pelo clube, independentemente de ter contrato com outro emblema. Durante quase uma década o ATK nutriu-se dos melhores jogadores rivais para acumular títulos e honras tornando-se, ao mesmo tempo, no mais detestado clube de toda a Checoslováquia.

Em 1956, depois de dois anos sem títulos, o clube mudou o nome para Dukla. A escolha não era inocente já que o nome derivava de uma pequena aldeia na fronteira entre a Eslováquia e a Polónia onde se tinha travado a mais cruel das batalhas pela libertação checa entre as forças soviéticas e o exército da Alemanha nazi. Num confronto onde morreram mais de 40 mil homens, o triunfo da determinação do Exército Vermelho tornou-se numa das gestas heróicas apropriadas pelo exército checo (que teve uma participação residual na batalha). Utilizar o nome Dukla para baptizar o clube era mais do que uma manobra política, era um verdadeiro sinal de força. Com o apoio dos militares, o clube manteve a sua tirania sob o futebol checo durante quase todos os anos sessenta e setenta, acumulando diversos títulos à medida que albergava os grandes talentos do país. Em 1953 o clube contratou uma jovem promessa ao FK Teplice graças à sua política de preferência sobre jogadores em idade de serviço militar.

Durante mais de doze anos Josef Masopust tornou-se no general em campo que os militares na cúpula directiva sempre sonharam em ter nas suas filas. O primeiro jogador checo a vencer o Ballon D´Or – em 1962 bateu Eusébio depois de ter sido uma das figuras do Mundial – Masopust era o cérebro do jogo ofensivo do conjunto vermelho e amarelo de Praga. Quando se retirou a braçadeira de capitão já tinha encontrado um digno sucessor, o mítico guarda-redes Ivo Viktor, uma das traves-mestras do triunfo da Checoslováquia no Europeu de 1976. No ataque dessa equipa, imortalizada pelo penalti de Panenka, estava Zdenek Nehoda, o último grande herói em campo do clube. Em 1991, no dealbar de uma nova era, o Dukla foi forçado a vender a sua última estrela. Ainda não o sabiam mas o adolescente Pavel Nedved estava destinado a grandes voos. Seria o primeiro checo a suceder a Masopoust em mais de quatro décadas.

Resgatado da memória no novo milénio

Ao mesmo tempo que o clube acumulava títulos, perdia adeptos. Durante as décadas de 60 e 70 os adeptos nas bancadas do mítico Na Julisce foram minguando acabando na década de oitenta por roçar pouco mais de 2 mil por jogo. Os frequentes brilharetes do clube nas provas da UEFA não eram suficientes para mudar a maré e quando a Checoslováquia viveu a sua “Revolução de Veludo”, o destino do Dukla foi traçado. Quinto clube da cidade em adeptos – atrás de Sparta, Slavia, Bohemians e Viktoria – o clube caiu nas profundezas das divisões regionais em 1991 quando não juntou o dinheiro suficiente para a licença.

Durante mais de uma década a herança do Dulka subsistiu a oitenta quilómetros da capital graças ao investimento do milionário Bohumil Duricko, que rebaptizou o clube com o nome da sua nova cidade, Dukla Pnrbam. A meados do novo milénio os homens dos equipamentos que deixaram fascinados os adolescentes ingleses voltaram a casa. O clube adquiriu uma das licenças na segunda liga, reconstituiu a sua herança e em 2011 voltou ao futebol de elite checo. A anos-luz de poder repetir o seu circulo vicioso de vitórias, o Dukla tornou-se no clube dos nostálgicos e dos movimentos de contra-corrente, dispostos a esquecer brevemente a sua história e origens pela necessidade de apoiar algo diferente na estrutura do futebol checo.

Para os que viveram os anos gloriosos do Dukla, a equipa que melhor representou a velha Checoslováquia nos anos dourados, o pálido presente não permite esquecer que houve uma altura em que até bandas de música se rendiam à magia de uma equipa que era algo mais que um equipamento cintilante.

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