Era o ídolo de Zico. Era o avançado em quem o Brasil depositava todas as esperanças para regressar do Mundial com o primeiro troféu. O destino quis outra coisa. O Brasil foi campeão pela primeira vez, sim, mas a estrela do torneio foi um jovem adolescente apelidado de Pelé e Dida, o titular do escrete, acabou por cair no esquecimento depois de ter arrancado o torneio como o goleador e grande esperança do Brasil.

Do Nordeste á Suécia, o goleador esquecido

Quando o Brasil chegou á Suécia para um largo estágio de preparação antes do Mundial, acabava de chegar de uma série de amigáveis, primeiro em território nacional e depois em Itália. Todos davam a seleção brasileira como candidata a tudo ainda que o grande favorito sul-americano fosse a Argentina que tinha, no ano anterior, dominado de forma autoritária o Campeonato Sudamericano. Mas os gaúchos já não podiam contar com a sua mítica linha de ataque, “Los Angeles de Cara Sucia”, entretanto transferidos para a Serie A e nacionalizados italianos. Pagariam o preço de uma larguíssima ausência de duas décadas em competições mundiais. Já o Brasil, pelo contrário, preparou-se a rigor. Com a comitiva seguiam médicos, fisioterapeutas, cozinheiros e psicólogos. Para adaptar-se ao tempo e ao ritmo de jogo europeu, disputaram-se amigáveis contra clubes italianos, a nata da Europa então. Vicente Feola, o simpático e carismático selecionador, sabia que a equipa tinha alguns dos melhores jogadores individuais do mundo mas que tinha de aprender a coabitar de forma colectiva.

As suas principais dúvidas estavam no ataque. Com a comitiva tinham seguido duas jovens promessas do futebol canarinho, Edson Arantes de Nascimento, conhecido como Pelé, jovem avançado do Santos chamado a grandes feitos, e Mané Garrincha, o extremo desequilibrador do Botafogo. Ambos estiveram perto de não ser convocados por culpa de uma avaliação psicológica que Feola decidiu ignorar mas eram á partida suplentes no esquema do selecionador. O técnico contava com uma linha de quatro atacantes – a primeira formação a utilizar de forma clara o 4-2-4 – que atuavam á frente da dupla Zito-Didi no meio campo. Zagallo e Mazzola, mais tarde Altafini, eram titulares aparentemente indiscutíveis e as restantes vagas pareciam disputar-se entre Vavá, Pepe, Garrincha e Dida. Este último tinha tudo para ser o homem golo do Brasil. O país contava com o avançado do Flamengo para fazer a diferença. E ele estava preparado para o seu momento de glória.

A lesão que destruiu um sonho

Dida nasceu em Maceió em 1934. Durante os anos cinquenta converteu-se no maior ídolo do “Mengão” e fez do Maracana a sua segunda casa. Chegou ao clube em 1954, depois de uma curta passagem pelo CSA, no nordeste brasileiro, depois de ser tratado de uma icterícia. Nos dez anos seguintes, de “rubro e negro”, estabeleceu o maior recorde goleador da história do clube com 257 golos em 360 jogos, números apenas superados por aquele que era o seu fã número 1, o então adolescente Zico.

Entre 1954 e 1958 transformou-se num dos mais eficazes goleadores do futebol brasileiro e inevitavelmente chegou á seleção pela mão de Feola. Com Mazzola e Vavá fazia parte de um trio de avançados que disputou em 1957 o Sudamericano e agora chegava á Suécia como primeira opção de ataque. Foi titular nos dois encontros de preparação em Itália, frente á Fiorentina e o Inter, ambos finalizados com um 4-0 a favor dos brasileiros, partilhando da linha de ataque com Pepe, Garrincha e Mazzola. Pelé, a jovem promessa adolescente, tinha disputado dois dos amigáveis ainda em território brasileiro mas um problema físico manteve-o fora de jogo na tour italiana e parecia estar descartado como opção para o ataque.

No dia de abertura da campanha brasileira ninguém se surpreendeu com o onze anunciado dos brasileiros. Dida era, com Mazzolla, o avançado centro titular no duelo frente aos exigentes austríacos. Era o 8 de Junho de 1958. Os sul-americanos foram sempre muito superiores e venceram por um contundente 3-0. Mazzolla marcou dois golos e Nilton Santos fechou a conta. Dida teve o condão de assistir a um dos tentos. Mas sofreu uma dura entrada num lance dividido que o manteve em dúvida até aos minutos iniciais do segundo jogo contra a Inglaterra. Nos dias anteriores ao jogo Dida não conseguiu treinar. Tinha o pé inflamado e a cada disparo sofria dores insuportáveis. Com Pelé ainda em tratamento Feola não teve outra opção.

Vavá seria titular frente aos ingleses e Dida, se estivesse recuperado, jogaria contra os soviéticos no terceiro e decisivo encontro. O empate a zero frente à “Velha Albion” deixou todas as contas do grupo para esse encontro final. Mas Dida continuava sem recuperar e com Pelé a treinar a 100% o selecionador brasileiro não teve dúvidas. Fez duas mudanças no onze titular, retirando Mazzola para dar lugar a Garrincha e a Pepe para lançar Pelé, garantindo a Vavá a titularidade como prémio á sua esforçada exibição contra os ingleses. O Brasil entrou no jogo determinado e depois de dois avisos de Garrincha, Vavá abriu o marcador que ampliou pouco depois selando a qualificação para os quartos-de-final. Feola tinha encontrado a fórmula mágica e não voltaria a tocar nela até à final. Dida tinha perdido a sua oportunidade.

Dida, o avançado que “amarelou”

No Brasil muitos começaram a lançar o rumor de que Dida tinha sido superado emocionalmente pela tensão do torneio. Era um jogador simples, humilde e a imprensa, que esperava dele grandes feitos, começou a publicar artigos sobre a sua suposta incapacidade nervosa de competir. Ninguém sabia da sua lesão. Para o jogo com Gales já estava recuperado mas foi Mazzolla o escolhido por Feola para acompanhar Pelé entre os titulares quando Vavá também sofreu um toque nos treinos. O golo do jovem adolescente do Santos garantiu-lhe a titularidade no restante torneio e quando Vavá regressou, também Mazzolla foi enviado para o banco de suplentes. Nenhum dos dois avançados voltaria a jogar na competição.

Os resultados deram razão ao técnico e poucos meses depois Mazzolla decidiu partir para Itália, acabando por nacionalizar-se igualmente transalpino. Dida voltou ao Brasil como o elo mais fraco da histórica equipa campeã e foi relegado para o esquecimento. Continuou a marcar golos como poucos com a camisola do Flamengo mas progressivamente deixou de ser opção no ataque da canarinha que se entregou definitivamente á linha de quatro do Santos de Pelé, já confirmado como máxima estrela mundial. Em 1962 o dianteiro não foi sequer convocado para o Mundial do Chile. A sua oportunidade tinha passado e durante décadas ficou para sempre na memória como o avançado que “tapou” a ascensão de Pelé quando na realidade a história foi, precisamente, a oposta. Uma lesão num pé foi suficiente para elevar o adolescente Edson á glória e para atirar o mítico goleador do Flamengo para o baú do esquecimento.

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