Eram a máxima potência do futebol alemão da última década, tricampeões europeus e uma referência mundial, uma autêntica máquina de ganhar. E no entanto no final dos anos setenta o todo poderoso Bayern Munich vivia em pânico de jogar em Kaiserslautern. Até que um dia os bávaros decidiram vestir-se de Brasil para superar traumas e velhos fantasmas.

A união de duas lendas do futebol

Conta a lenda que um dia um treinador escocês quando informado pelo médico da equipa que um dos seus jogadores tinha perdido a memória depois de um duro golpe e não sabia quem era se limitou a informar o médico que devia dizer ao jogador que era Pelé e voltasse para o campo.

A lenda no desporto tem contornos especiais quando se apela a conjuras míticas. O espírito das “remontadas” em Madrid, o “Fergie Time” em Manchester, a encarnação das jogadas maradonianas a cada jovem promessa argentina que surge. São múltiplos os exemplos mas poucos logram causar um impacto tão real e certeiro como o vivido em Kaiserslautern numa fria tarde do Outono de 1983 por culpa de uma maldição e de uma camisola lendária. Durante noventa rigorosos minutos um dos maiores gigantes do futebol europeu vestiu a camisola de um dos maiores gigantes da história do futebol e graças a esse gesto, talvez, colocou ponto final a uma das maiores séries de desfeitas da sua particular história. A noite em que o Bayern decidiu deixar de ser o Bayern, a máquina de ganhar vermelha da Baviera, para ser o Brasil, a máquina de encantar sul-americana, foi a noite em que as lendas se misturaram e a história se reescreveu perante o atónito olhar dos até então invencíveis adeptos do Kaisesrlautern.

Kaiserlautern, território comanche para os Die Rotten

Paul Breitner não era homem de meias palavras. Antes de uma das viagens do seu Bayern a Kaiserslautern o histórico campeão mundial limitou-se a encolher ombros e a questionar o sentido da deslocação. “Mais valia dar já os pontos e poupar-nos ao trabalho”. Sete anos. Sete longos anos passavam desde a última vitória do Bayern em casa de um clube que distava muito de pertencer á elite do futebol germânico. Nesse período, entre 1975 e 1983, os bávaros tinham ganho pelo menos alguma vez em qualquer campo do futebol alemão. Menos no actual Fritz Walter Stadion. Em 1966 tinham disputado aí o seu primeiro jogo na Bundesliga e venceram por 0-3. Categoricamente. À Bayern.

No entanto a tendência rapidamente mudou. Foi preciso chegar a 1972 para voltar a ver outra vitória do clube no Fritz Walter – e dois anos depois os campeões europeus caíram mesmo por uns estrepitosos 7-4. No ano seguinte a vitória por um golo solitário de Hoeness colocou fim a uma sequência nefasta mas abriu uma outra. Até 1983 a equipa somou apenas desaires incluindo um humilhante 5-0. Kaiserslautern era a kryptonite de uma equipa que se passeava pela Alemanha e pela Europa como queria. A sequência foi tomando proporções míticas com o passar do ano e pouco a pouco os próprios adeptos do Bayern começavam o ano sabendo que aqueles dois pontos eram uma utopia e que não entravam para as contas do calendário. E assim foi. Até 1983, á 15º Jornada numa fria noite de Novembro e graças a uma sequência de momentos repletos de mitologia e significado.

O Brasil da Baviera

Nas semanas anteriores à deslocação a Kaiserslautern o treinador dos bávaros, o veterano Udo Lattek, reuniu-se com Uli Hoeness, o último marcador vitorioso do clube no campo do rival, e expôs-lhe uma ideia original. A reunião ampliou-se nos dias seguintes para incluir Horst Dassler, presidente da toda poderosa Adidas, o fabricante de equipamentos histórico do clube e filho do fundador da marca, Adi Dassler. Lattek tinha uma ideia para acabar com a malapata. Entendia que o problema não era futebolístico e sim mental e era necessário fazer algo diferente. Em Kaiserslautern os Die Rotten – literalmente, os “vermelhos” – jogavam sempre de branco uma vez que os locais equipavam também de encarnado. Porque não jogar com outras cores, alternativas, apenas para esse jogo. Cores repletas de uma simbologia especial que nada tivesse a ver com o clube? Porque não jogar como o Brasil?

A ideia foi debatida em petit comité e no final decidiu-se avançar sem avisar ninguém, nem sequer os jogadores, do que estava a ser preparado. Em tempo recorde a Adidas confeccionou um equipamento especial, uma camisola amarela com as suas três distintivas tiras em verde acompanhadas de calções azuis claros com tiras amarelas e meias igualmente azuis claras. Uma versão bávara do equipamento que meses antes tinha encantado o mundo do futebol no Mundial de Espanha com Zico, Sócrates e companhia. Os jogadores descobriram apenas que o iam vestir já nos balneários do Betzenberg e para manter a surpresa até ao momento definitivo fizeram o aquecimento prévio utilizando o equipamento branco habitual. Quando as equipas subiram finalmente ao terreno de jogo os adeptos do clube local não pareciam acreditar no que viam.

Orgulhosos, os bávaros pareciam dois metros mais altos que habitualmente perante a intimidatória pressão da mítica bancada sul do Betzenberg – actualmente Fritz Walter Stadion. Os jogadores do Kaiserslautern, que nesse dia curiosamente também decidiu jogar de verde, estavam igualmente desconcertados. O efeito psicológico funcionou.

O feitiço que só funcionou uma vez

O Bayern jogou como sempre mas, por primeira vez em sete anos, quebrou a malapata e venceu. O guarda-redes belga Jean Marie Pfaff defendeu um penalty a Brehme, um dos melhores marcadores da sua geração, e quinze minutos depois, á hora de jogo, Klaus Aughenthaler, o duro central, anotou o tento do triunfo. Os jogadores celebraram a vitória como se de um título se tratasse. Era um dos triunfos psicológicos mais importantes na história do clube. Só cinco anos depois a equipa voltaria a cair frente ao Kaiserslautern fora de casa.

Quatro anos depois Lattek tentou repetir o truque. A derrota surpreendente do Bayern na final europeia de 1982 contra o Aston Villa ainda estava na memória. Em Viena, de regresso a uma final da Taça dos Campeões Europeus, os bávaros voltavam a ser favoritos contra um clube sem pedigree europeu. Mas para não tentar a sorte, o técnico bávaro entendeu que seria melhor ideia se o Bayern abandonasse o seu vermelho completo e jogasse a final com os mesmos calções azuis claros – que também eram as cores da Baviera – com tiras amarelas desse mítico equipamento á Brasil, para defrontar o FC Porto. Como não existiam as restrições de hoje, ambas as equipas subiram ao terreno de jogo com dois calções azuis – ainda que de tonalidades diferentes – mas desta vez o feitiço virou-se contra o feiticeiro e a magia de Madjer anulou o efeito dos calções “brasileiros” do equipamento do Bayern.

A equipa voltou a utilizar camisolas amarelas nos anos noventa – agora com calções verdes – e nunca mais, salvo naquele fim de tarde frio de Novembro – repetiu a mesma jogada mas para os adeptos dos Die Rotten, a noite em que a equipa vestiu de Brasil ficará para sempre na memória. Afinal, serviu para demonstrar que não há maldição no futebol que resista á combinação de duas super potências.

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